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Somente após 3 dias da notícia sobre a partida de Marília Mendonça eu consegui chorar. No dia do acidente, estava cumprindo meus afazeres, na verdade, estava ministrando aula, e não podia pará-la para absorver ou saber maiores informações sobre o fato. Fiquei sabendo da confirmação de seu falecimento, e de sua equipe, por mensagem. Na hora, não consegui sentir absolutamente nada. Fiquei apática. Pensei nos tantos mortos durante a pandemia, tantos nomes, almas, histórias, famílias deixadas pra trás, foram tantas vezes próximas da morte que concluí: isso não me afeta mais. Eu nem gostava de sertanejo. Nem conhecia direito a cantora ou seu repertório. “Sinto muito pela família, principalmente pela criança, mas não consigo chorar por alguém desconhecido pra mim”, pensei em um primeiro momento, mas, sem realmente sentir algo.

No domingo, em entrevista ao Fantástico, encontro a voz de Marília ecoando pela casa. A repórter estava narrando o aspecto feminista de sua música, em como ela revolucionou o mundo sertanejo, despertando minha curiosidade pela afinidade no assunto. Já tinha ouvido falar de suas canções, diferentes das cantadas anteriormente a ela, letras de música na perspectiva de uma mulher, não mais idealizada ou subjugada, mas sabedora de si e de seus sentimentos, de seus limites e de sua vulnerabilidade. Mas ouvir a voz da cantora, com seu olhar tão sincero, sua honestidade, sua intimidade criada ali, rapidamente, com a repórter, em elogio e troca de confissões, me lembrou que Marília era muito mais que uma cantora ou compositora de letra sertaneja. Marília era uma mulher descobridora de si, descobridora de um amor infinito pelo filho, de afeto e carinho pelos seus e por estranhos que a admiravam tanto. A emoção em relembrar de coisas tão simples, mas importantíssimas, fez as lágrimas caírem. Naturalmente. Por aquela “estranha” que nunca vi de perto. Ver a amizade entre ela e as irmãs Maiara e Maraisa, saber de seu romantismo declarado pela vida e pelo o que acontece nela, de sua luta contra as angústias pessoais, enquanto mulher, mãe e profissional que ecoa vozes de outras mulheres, e saber de sua idade (mais nova que eu), me relembrou do quanto a partida de pessoas como ela são, tragicamente, sofríveis, doloridas, cruéis.

A partida tão cedo, de alguém tão importante, talvez me fizesse questionar profundamente o quanto a vida (ou a morte) não faz sentido algum, não possui o mesmo senso de justiça que guardamos conosco, nos faz pequeninos diante do acaso, dos acidentes, dos incidentes. E talvez isso também me machuque, tanto quanto saber da partida de alguém com história, família, amigos e fãs deixados em desolação.

Essa vulnerabilidade assusta. E pode ser comprovada com a enxurrada de postagens sobre “viver o hoje” após a partida repentina de alguém. Entendo a crítica de quem rechaça tal comportamento, “nem tudo é sobre você”, mas também entendo quem reflete sobre si quando enxerga o outro, de forma tão bruta, na perda desse alguém. Estamos há 2 anos vivendo constantemente com o medo, com o horror e com a ameaça da perda, na presença constante do luto, um dos piores momentos que um indivíduo pode vivenciar, e, não à toa, estamos mais do que machucados e exaustos com tantas notícias esdrúxulas para serem absorvidas.

Creio que meu mecanismo de defesa, naquela sexta-feira à tarde, foi a apatia, o fingimento de não sentir nada, mesmo que, lá no fundo, eu soubesse que algo me incomodava.

Hoje, na noite que os sentimentos finalmente afloravam, não me sinto mais leve ou mais “em paz” por sentir algo, por realmente me sensibilizar por algo que todos ao meu redor já tinham se sensibilizado. Na verdade, o peso no peito aumenta, a dor de tantas perdas só cresce, a angústia sobre o amanhã prevalece e busco, no amor, no afeto, nas palavras doces e sinceras que Marília deixou, o fio de esperança de dias melhores, de dias em que o luto não prevalecerá, mesmo que na memória os nomes e as histórias dos que se foram permaneçam.

Jeniffer Yara
Jeniffer Yara é graduada em Letras – Língua Portuguesa e mestre em Estudos Literários, ambos pela Universidade Federal do Pará. Apaixonada pelas letras  desde criança e pelas leituras dos livros e da vida, aos 27 anos de idade já se firma no mundo da literatura e da pesquisa. Aventura-se na escrita ficcional, publicada em algumas antologias, desde 2018, além de manter um blog pessoal há onze anos, seu espaço particular de expressão: Meu Outro Lado. E-mail para contato: jeniffer.yara@gmail.com

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1 Comentário

  1. Uma crônica sincera e sensível. Parabéns, Jeniffer.

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