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“Tem gente que é favorável à milícia, porque é a maneira que eles têm de se ver ‘livre’ da violência. Naquela região, onde a milícia é paga, não há violência”, disse o atual presidente da República, Jair Messias Bolsonaro, ao ser perguntado na Jovem Pan sobre como iria combater a milícia. Em outra determinada ocasião, o mesmo atalhou que “violência se combate com violência”. E, também em outra determinada ocasião, — a lista aparenta não encontrar seu fim —, o presidente disse: “Queria dizer aos companheiros da Bahia, que agora há pouco veio um parlamentar criticar aqui os grupos de extermínio. Enquanto o Estado não tiver coragem para adotar a pena de morte, esses grupos de exterminio, no meu entender, são muito bem vindos. E se não tiver espaço na Bahia, pode vir pro Rio de Janeiro. Se depender de mim, terão todo o apoio”. Outra vez, afirmou Jair que “elas oferecem segurança e, desta forma, conseguem manter a ordem e a disciplina nas comunidades. É o que se chama de milícia. O governo deveria apoiá-las, já que não consegue combater os traficantes de drogas. E, talvez, no futuro, deveria legaliza-las”.Tal sentimento fatalista, leva-nos a outro indivíduo, que, umbilicalmente conectado à dinâmica que o colocou no poder, também carrega o nome de “Bolsonaro”: Flavio Bolsonaro. Milicianos já foram homenageados por Flávio Bolsonaro em 2003 e 2004 e, enquanto deputado, o hoje senador homenageou pelo menos 23 policiais e militares declarados culpados ou em julgamento por crimes que vão de homicídio a corrupção. Outro contumaz apelador é Eduardo Paes, atual prefeito do Rio de Janeiro, que proferiu, certa vez, em defesa das milícias: “Têm áreas do Estado onde o Estado perdeu a sua soberania por completo. A gente precisa recuperar essa soberania. Olha… eu vou dar um exemplo, que as pessoas sempre perguntam em como recuperar a soberania: Jacarepaguá, no Rio de Janeiro. É um bairro em que a tal da ‘polícia mineira’, formada por policiais, por bombeiros, trouxe tranquilidade para a população (…) Era um dos morros mais violentos desse Estado e agora é um dos lugares mais tranquilos”. (O termo “polícia mineira”, empregado por Paes, refere-se às milícias, as quais também recebem outra nomeação, pois remontam, majoritariamente, aos grupos de extermínio, atuantes no Rio de Janeiro desde a década de 50). Bolsonaro e Paes parecem, contudo, porta-vozes de um raciocínio que não merece receber tal nomenclatura, pois é descolado do próprio meio de pensar, parecem muito mais, todavia, direcionados ao meio emocional. A despeito desse direcionamento, em parte, o chefe do Executivo encontra-se certo quando alçou a voz, salientando: “tem gente que é favorável à milícia, porque é a maneira que eles têm de se ver ‘livre’ da violência”. Em verdade, para um montante de pessoas que vivem em comunidades carentes e que testemunham a presença de milicianos, as milícias são grupos de policiais, os quais estão fora de seu horário de trabalho e que se unem apenas para combater o crime e pacificar a região.

Ná prática: digamos que você, leitor, é um homem de meia idade, morador da periferia urbana, que se identifica com a matriz religiosa do cristianismo e que tenta levar uma vida moral. No ambiente ao seu redor, a tragicidade é incólume: tudo carece um pouco de bondade. Você praticamente não tem liberdade de sair com sua família para se divertir, pois o crime lá fora é imperioso; e, como se não bastasse, mesmo em casa, teme que algo lhe aconteça vindo de fora. Você se sente humilhado, vexado, proscrito de seu lar e anseia elidir tal contristação. Não consegue sustentar a sua família, o que é o papel do homem; portanto, sente-se menos homem. Conquanto toda essa circunstância, você ainda quer ser uma pessoa boa, firme e forte, podendo sustentar a sua família. Essa angústia fulgurante, por consequência, borbulha em seu intestino e lhe conduz a ver em grupos paramilitares uma salvação, já que o poder oficial, presumivelmente, nada consegue fazer no que tange a garantia de sua segurança. E é bem lógico até: o policial é o provedor da bondade e da segurança; ou seja: o herói. O bandido? É o provedor da má índole e da insegurança: o vilão. Então você, de forma genuína, aposta todas as suas fichas no “policial”, compreendendo que é a única maneira que se tem para se ver livre da violência. Daí surge uma miríade de problemas: não há herói, uma vez que o altruísmo é, tão somente, um cobertor, escondendo a realidade. As milícias nada mais são que grupos de traficantes, assassinos, sociopatas, sádicos que se apropriam da fragilidade do cidadão para fazê-lo escravo. Hoje, por exemplo, de acordo com Luiz Ayres, promotor de Justiça, “os milicianos conseguiram tanto poder, tanto território, tanto dinheiro, que eles conseguem cooptar o pessoal do tráfico. Então hoje a milícia vende drogas”. Para além, as milícias patrocinaram chacinas de modo sazonal; exemplificando tal panorama: 11 jovens, sendo 7 menores de idade, da favela do Acari, no Rio de Janeiro, foram sequestrados pela “polícia” e até hoje seus corpos não foram encontrados. Imagine você, com 13 anos, sendo sequestrado por aqueles que deveriam assegurá-lo de seus direitos. Este foi o caso de Viviane Rocha. Imagine você, uma mãe, tendo que ver seu filho de 16 anos desaparecido e, quando tentar descobrir o que lhe aconteceu, você vira a próxima vítima: em janeiro de 1993, Edméia da Silva Euzébio, mãe de Luiz Henrique da Silva Euzébio, foi assassinada enquanto saía de um presídio, onde fazia investigações por conta própria em busca de informações que levassem a solucionar o caso. Tal alternância de fatos macabros recebeu um nome: Chacina do Acari. E não é a única e nem a última vez, pois a lista continua e não foi, pelo visto, totalmente preenchida. Ademais, essa mensagem é persistente e ocorre por políticos, líderes religiosos, por familiares, por amigos; até chegar num ponto em que, segundo a pesquisa feita pelo Grupo Estudos dos Novos Ilegalismos da UFF (Universidade Federal Fluminense) e o NEV-USP (Núcleo de Estudos da Violência da USP), o controle territorial das milícias na cidade do Rio de Janeiro já é maior que o do tráfico de drogas. As milícias controlam atualmente 57,5% do território da capital fluminense. 25,2% do território está em disputa, 15,4% está sob controle do tráfico e apenas 1,9% não sofre influência de grupos criminosos. Segundo a CNN Brasil, a área controlada pelas milícias já é, combinada, maior do que a das três facções criminosas que atuam no Rio de Janeiro: o Comando Vermelho, Amigos dos Amigos e Terceiro Comando Puro.

A mim me parece cristalino, destarte, que as milícias teceram, categoricamente, o conceito de escravos-cidadãos. Em primeiro lugar, deve-se dissecar o conceito proposto: o que é um cidadão? “Ser cidadão é ter direito à vida, à liberdade, à propriedade, à igualdade perante a lei: ter direitos civis. É também participar no destino da sociedade, votar, ser votado, ter direitos políticos”, como bem atalha o Governo do Estado do Paraná em seu site oficial. Já um escravo pode ser definido como alguém que está submetido à vontade de outrem e que é privado de liberdade. As “polícias mineiras” estabelecem o conceito, pois criam no subjugado a ciência de que este é um cidadão, a quem os direitos civis serão preservados; quando, em verdade, é apenas um pária, que, como escravo, fundamenta-se numa síndrome de liberto. Nota-se: não se trata somente de empregar uma impetuosidade aguda aos vulneráveis, que, unicamente, almejam uma mão que segurasse as suas, porém trata-se igualmente de empregar a violência mental, a aniquilação da faculdade intelectiva e a perpetua evaporação da identidade individual. Outrossim, há mais um mote para levar-se em consideração: é em demasia complicado para aqueles que tentam reverter o dano psicológico causado nos cidadãos, pois a interlocução posta e a constante afirmação de não-verdades prevalece e grita mais alto, como dissertou Kant em seu texto “Que é esclarecimento?”: “Depois de terem primeiramente embrutecido seu gado doméstico e preservado cuidadosamente estas tranquilas criaturas a fim de não ousarem dar um passo fora do carrinho para aprender a andar, no qual as encerraram, mostram-lhes em seguida o perigo que as ameaça se tentarem andar sozinhas. Ora, este perigo na verdade não é tão grande, pois aprenderiam muito bem a andar finalmente, depois de algumas quedas. Basta um exemplo deste tipo para tornar tímido o indivíduo e atemoriza-lo em geral para não fazer outras tentativas no futuro. É difícil, portanto, para um homem em particular desvencilhar-se da menoridade que para ele se tornou quase uma natureza. Chegou mesmo a criar amor a ela, sendo por ora realmente incapaz de utilizar seu próprio entendimento, porque nunca o deixaram fazer a tentativa de assim proceder”. Diante de tais fatos, lavra na retina da massa uma peculiar doença: a servidão voluntária; e o ciclo repete-se nas matizes dos mundos oníricos das vítimas; e tal recapitular incessante, aparentemente, demonstra-se inócuo; no entanto, apenas “aparentemente”. Por conseguinte, a máquina burguesa, travestida de benevolente, faz e refaz essa lamúria do ser; por conseguinte, quanto mais formos concedentes em sermos maquinário, a idoneidade do fazer estará acima da idoneidade do ser; por conseguinte, refazeremos a escravidão, todavia, desta vez, endossando-na voluntariamente: “O Brasil, que há muito flertava, agora beija o nazismo na boca”, Silvio Almeida.

João Paulo Duarte Marques da Cruz
João Paulo Duarte Marques da Cruz Estudante do Colégio CEI, apaixonado por literatura, cinema e política. E-mail katrinadmc@hotmail.com

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