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“Crise de ansiedade em alunos acende alerta para cuidados com saúde mental; especialistas apontam que escola tem papel relevante no apoio. No Recife, 26 adolescentes foram socorridos após passarem mal com sintomas como taquicardia. Psicóloga e pedagoga apontam importância do diálogo e da convivência social”, começa uma matéria do G1. Esclarecendo, mais adiante no texto, as bases de tal instante, a matéria diz-nos que tudo ocorrera “em período de provas, as primeiras desde o retorno das atividades presenciais na rede estadual em meio à pandemia da Covid-19”. Para Patrícia Queiroz, pedagoga entrevistada pelo portal de notícias, “a visão sobre as avaliações na nossa sociedade é sempre uma visão um tanto quanto ansiogênica. Então, é comum, não necessariamente normal, que eles vejam esse momento da avaliação como um momento que gera ansiedade”. No mais, ao passo que discutia suavemente os temas requeridos pela instituição escolar, diz Patrícia que “quando a gente está dentro da escola, não está ensinando só para dentro da própria escola, para uma profissão. A gente está ensinando para a vida. Então, a gente vai aprender as habilidades essenciais à vida”. Quem também deu uma palavrinha ao G1 foi a psicóloga, doutora em educação e professora da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), Anna Paula Brito, a qual alertou a necessidade de um sentido aos conteúdos e abordagens ensinadas na escola: “Tudo aquilo que eu não dou sentido, aquilo vai me devorando por dentro. É preciso dar sentido às emoções, a essa vivência. Não dá para a gente negar o que a gente viveu. É preciso que se fale sobre o que viveu e se comece a dar sentido a tudo isso, as tantas mortes, as tantas situações que presenciamos”.

Richard Feynman, físico teórico americano, ganhador do prêmio Nobel e criador do método de aprendizagem Feynman, ao chegar ao Brasil, diagnosticou a educação do país como sendo baseada na “decoreba”, carecendo de um raciocínio crítico voltado à ciência. Mas Feynman veio à nação na década de 50; desde lá, a educação alterou-se de maneira evidente, certo? Compreendendo que arrebataria aos nossos educadores uma negativa a tal indagação — pois, é claro, no apanhado geral, muito se mudou — deve-se atalhar que a questão elementar de nosso ensino permanece petrificada. É fato: não capacitamos nem formamos, imputamos; e o que se é imputado aos jovens é a identidade de “fazedores de testes”. Do que adianta essa paixão viciosa de enternecer-se e compadecer-se dos estudantes em Recife se tudo permanece? Assim, a massa de informação posta sob este parágrafo evidencia o ponto que gostaria de chegar: o sentido escolar. Em meio a tantas linhas, avoluma-se, despudoradamente, a pergunta: o que estamos ensinando que tanto massacra as mentes de nossos jovens? Tal questionamento empresta-nos uma agonia espinhal, pois nos faz perceber o quão à sua mercê encontramo-nos. Os casos recentes tendem a vilipendiar o valor acadêmico destas determinadas entidades; pois se diz que a educação salva vidas; mas quais vidas foram salvas em Recife? Impõe-se uma ansiedade para com vestibulares e não se ensina o essencial. Exemplificando estas situações, em aulas de redação não se ensina o pensamento crítico na escrita, entretanto, um modelo engessado para um vestibular. Ou, em vez de aprender a ponderação adquirida pelas matérias de exatas, aprende-se o melhor método capaz de decorar uma fórmula. Todos os dias ocorre uma carnificina da criatividade dos alunos, e não há toda essa comiseração. Dominada por uma urgência de recriar, de qualquer maneira, um pai para todas essas crianças abandonadas pelo descaso público, a escola, com fantasia, pousa uma camisa fina sob uma hemorragia interna na ânsia para conter o sangue, todavia este sangra cada vez mais e não se acham mais poros para tampar. E esse pai ausente permanece. Com efeito, o meio educacional, de fato, aferra-se a este paradoxo. Ora salva, ora as gotas não mais param de cair. Uma boa distribuição de feridas abertas e cicatrizadas, e faz-se assim o equilíbrio necessário.

Em 31 de março deste ano, o Jornal do Estado de Minas, escrito pelo professor, músico, autor, mestre em estudos de linguagens e oustanding educator pela Universidade de Chicago, Marcus Vinícius de Souza, mostrou-nos um dado assustador: “Parece mentira, mas não é. Estou falando do resultado publicado recentemente pelo Indicador de Analfabetismo Funcional (Inaf) que aponta que 38% dos universitários do Brasil são considerados analfabetos funcionais. Isso significa que os estudantes são capazes de ler e escrever, mas não sabem interpretar nem agregar informações. Isso é uma prova nítida de que, apesar do aumento da escolarização da população brasileira, esse plus não se refletiu em maior preparo e qualificação dos alunos. Ou seja, a expansão do ensino superior (com oferta de programas de incentivo e maior democratização do acesso às universidades) não tem refletido um ensino de qualidade”. Tais chagas capacitam o desenvolvimento funcional a um declínio significativo: não é dado a estes jovens, portanto, dignidade. O temor de um futuro que se avizinha, caso não passe em determinado teste, dissuade usualmente os estudantes a não criarem amor a leitura, mas a qualificá-la, inconscientemente, como algo incapaz de quaisquer doses de dopamina e, ulteriormente, incapaz de progresso pessoal e profissional; deste modo, reduzem a pó quaisquer pretensas imagináveis. O penoso de tal acontecimento é o rechaçamento para com os benefícios da leitura. Por exemplo, segundo a Science Alert, fonte de notícias que publica artigos com pesquisas científicas, descobertas e resultados, com sede em Canberra, Australia, leitores tendem a viver quase dois anos a mais do que não leitores: “Com base em um estudo com 3.635 pessoas com 50 anos ou mais, aqueles que passaram um tempo enterrados em um livro sobreviveram quase dois anos a mais em média do que aqueles que não o fizeram. (…) As descobertas, relatadas por uma equipe da Escola de Saúde Pública da Universidade de Yale, mostraram que quanto mais as pessoas leem, maior a probabilidade de viver mais, e apenas 3,5 horas por semana foram suficientes para fazer a diferença (…) Os pesquisadores de Harvard sugerem que o processo lento e imersivo de se aprofundar em um livro cria um efeito de ‘engajamento cognitivo’ – algo que é apoiado por pesquisas anteriores da Emory University, em Atlanta, que descobriram que a leitura de um romance estimula e fortalece as regiões de processamento de linguagem no cérebro. Em outras palavras, é possível que a leitura exercite o cérebro da mesma forma que uma sessão de ginástica exercita o corpo. Os pesquisadores também sugerem que a leitura de ficção pode aumentar os sentimentos de empatia, fortalecendo nossas conexões com as pessoas e o mundo ao nosso redor e contribuindo para uma vida mais engajada, feliz e, portanto, mais longa”. O Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR) trouxe-nos outro exemplo das benesses extraídas da leitura. De acordo com o UOL, o instituto realizou um estudo científico com crianças internadas em UTIs, revelando que “ler e ouvir histórias diminui a dor e o estresse”. O jornal digital explica como o teste fora feito: “A pesquisa dividiu 80 crianças de um hospital em São Paulo em dois grupos. Um deles participava de jogos de adivinhação durante 25 a 35 minutos por dia, enquanto o outro ouvia os contadores de histórias neste período”. Guilherme Brockington, professor da UFABC e pesquisador do IDOR, entrevistado pelo UOL, atalhou que “a contação de histórias registrou o dobro de aumento e diminuição desses hormônios”.

Daí o título deste nosso artigo. Escolhi-o, pois almejava transmitir um pouco desta ponta de cólera que me atormenta — e ela comparece em todas as ocasiões em que se gabam os representantes das instituições escolares e políticos engravatados por uma “melhora” na educação. Em cada abraço, sob os quais se estampam sorrisos, erguendo diplomas, que valem menos do que as unhas encravadas de seus pés, e parabenizando, com ponta de orgulho, o sistema falho em que nos situamos, a ponta desta cólera efetua-se real, desbota e me aflige. Percebo que, sem uma transformação clara e não simulada, ei-nos tão entregues à minoridade, como um gado que reproduz e dá ao seu senhor a sua cria para o alimento deste. A esse respeito, um montante de indivíduos, porém, renascidos por uma instrução que pregue a sua autodeterminação e resista contra o jugo imposto, quiçá, é ainda assim uma possibilidade existente, embora desafiadora. Que lutemos, por conseguinte, visando o “Esclarecimento”, de Immanuel Kant, pois, como disse, certa vez, Montaigne, “é preciso tirar a máscara tanto das coisas como das pessoas”.

Link dos textos citados:

Crise de ansiedade em alunos acende alerta para cuidados com saúde mental; especialistas apontam que escola tem papel relevante no apoio | Pernambuco | G1 (globo.com)

A experiência de Richard Feynman no Brasil e o atual ensino das ciências humanas – Estado da Arte (estadao.com.br)

Educação: 38% dos universitários são analfabetos funcionais – Opinião – Estado de Minas

People Who Read Books Live Almost 2 Years Longer, Study Finds : ScienceAlert

João Paulo Duarte Marques da Cruz
João Paulo Duarte Marques da Cruz Estudante do Colégio CEI, apaixonado por literatura, cinema e política. E-mail katrinadmc@hotmail.com

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