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Ainda meio aturdido com alguma leitura que tive, vejo que acontecera um assassinato na rua do Padre Bruno Sechi, antiga rua Yamada. Uma quantia de em torno doze tiros fora depositada contra um carro, contra um homem. O sujeito ainda conseguira manobrar e trazer-se até a entrada secundária do meu condomínio. “O brasileiro é um fascinado por qualquer ajuntamento”, escreveu Nelson Rodrigues. E lá estava ele, o brasileiro, formando uma meia dúzia de pessoas a cercar um homem pardo de doze tiros. O que me disseram é que, depois de uns instantes de agonia variegada, morreu no caminho ao hospital.

Chega-me, mais tarde, a foto desse homem carregando o filho no braço, cabeça-a-cabeça com a mulher; era aniversário do garoto. Um aninho. O balão transparente, preso à mesa, estampa o nome da criança em azul, sua idade e segue com algumas estrelinhas. O pai, tatuado até o pescoço, aparenta estar sinceramente feliz na ocasião. Ele posa um sorriso à câmera e aguarda a foto. Não me interesso em saber sua profissão, nome e o que fizera – ou o que não – para acabar naquela situação. Com uma imaginação tantíssima pesada, lamento a situação do filho e da cabeça da mulher.

Na rua do padre, houve duas principais gravações do fato, pelo que sei. A primeira que entrei em contato diz respeito a um rapaz que filma do alto de sua, acredito, casa. A gravação é uma golfada de gírias e tratamento vulgar. Eu nem sequer sou capaz de assisti-la até o final. Ao passo que a perna do baleado sobe em dor na maca hospitalar, coaduna-se uma série de deboches e palavras ditas de qualquer jeito, diante de qualquer coisa. No outro vídeo, em um dar de ombros, grava-se de um carro as consequências da execução. O motorista filma um veículo que se vai na multidão de outros, alegando ter sido esse o executor. Com uma música estourando no fundo, escuta-se o mesmo tratamento vulgar de antes. Não sei quantas outras filmagens, com suas formas tão similares entre si, foram espalhadas por aí, mas essas já me dizem algo.

O corpo do executado é levado pela ambulância, seguida por carros policiais. Solta-se uma nota em esclarecimento da prestadora de serviços de segurança do condomínio. Formais, o grupo explica o caso como não sendo uma falha nos procedimentos de segurança. Eles aludem ao profissionalismo, explicam que o condômino nem sequer chegou a adentrar nas dependências do condomínio e que, portanto, não contabilizam culpa alguma. Eles explicam que o seu trabalho é muito bem feito. Pois então lamentam os comentários que circulam sobre a lisura da sua segurança. Eis o tópico do dia: segurança. Escreve Nelson Rodrigues que “essa piedade de rua, de esquina, de meio-fio, só existe no Brasil. Nos outros povos, mão nenhuma se lembraria de acender uma vela pelo defunto desconhecido”. E, ao lado, ninguém acendera uma vela. Nelson Rodrigues envelhece.

Há uns dias, um homem fora alvejado. Pensei, nesse tempo, se deveria escrever quanto ao ocorrido. Como se repara, aqui está. Fiquei a pasmar o resto do dia um pai carregando o filho. Dessa vez, ele não encara a câmera, ele morre. Não é de minha alçada quem fora. Desta cidade, desconheço essa capacidade sobranceira de considerar como efêmera a vida. Não sou tão evoluído, perspicaz nessas considerações. Mas eu sou um homem ainda.

João Paulo Duarte Marques da Cruz
João Paulo Duarte Marques da Cruz Estudante do Colégio CEI, apaixonado por literatura, cinema e política. E-mail katrinadmc@hotmail.com

Pintura de Mama Quilla no centro histórico de São Paulo

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