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Conheci Waldemar Henrique em Santarém.

No final da década de sessenta, fui um dos organizadores do primeiro festival de música do baixo Amazonas juntamente com outros jovens da região e ele compareceu, especialmente convidado, para presidir o júri.

Eu ainda morava lá e nunca havia visto aquele senhor que, com aquele óculos fundo de garrafa, não sei porque achei parecido com o escritor Mário de Andrade.

Muito tempo depois cheguei à conclusão que a semelhança, para mim, era por causa da aura que ambos refletiam, cheia de brasilidade. O paulista, na literatura e o paraense na música.

Durante a semana que passou em Santarém ele fazia refeições em minha casa, deixando, a princípio, minha mãe preocupadíssima para agradar o paladar daquele personagem ilustre.

Depois vimos que ele era um homem simples e nada exigia de especial.

Ali nasceu uma amizade sólida do maestro belenense com a família do maestro santareno.

Eu tinha por hábito, quando chegava do colégio, antes do almoço, tomar um gostoso banho de rio.

Vendo que Waldemar estava meio entediado na sala de visitas esperando meu pai chegar do trabalho, arrisquei um convite:

– O senhor não quer ir comigo olhar a paisagem do da beira do rio? Acho que vai gostar. É bonita.

E ele, natural e supreendentemente me pergunta:

— Você vai tomar banho? Eu vou com você. Tem aí um short?

Fiquei abismado com o despojamento daquela celebridade, perante um jovem interiorano que nem sequer conhecia a capital.

Arranjei para ele um short de banho que meu pai raramente usava e lá fomos nós.

Waldemar Henrique foi batizado por mim no rio Tapajós, numa bela manhã de sol.

Outros amigos meus estavam ali e ele se enturmou, apesar de falar pouco, mas vi que estava muito feliz com o banho de águas azuis. Chegou até a ensaiar uns mergulhos e me pareceu nadar de felicidade.

Tempos depois, eu já em Belém, trabalhando no Banco do Brasil e fazendo a faculdade de Direito.

Quando meu pai chegava me pedia logo.

– Avisa o Waldemar que eu estou aqui.

Então, eles se reuniam no restaurante do hotel Central, ali na Presidente Vargas.

Eram dos primeiros a chegar e quase os últimos a sair.

Sempre na mesma mesa. Não sei o que tanto conversavam.

Certa vez resolvi sentar na mesa do restaurante com os dois maestros.

Cheguei lá por volta de uma da tarde e saímos perto das cinco.

Quase na hora da saída, me atrevi a perguntar:

– Me desculpem os senhores… estou aqui com vocês desde uma da tarde e ate agora vi que pouco conversaram.

Então Waldemar me olhou, sério e falou:

– Olha menino, tu não entendes. A nossa linguagem é diferente. É a música. Nâo precisamos de muita conversa.

Eu enfiei a viola no saco, pedi licença e saí. Ainda deixei a conta para meu pai pagar.

José Wilson Malheiros
Magistrado do Trabalho Aposentado, Advogado, Músico, Poeta, Compositor, Instrumentista, Professor, Jornalista, Diácono e Escritor.

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