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Saudade dos carnavais da minha juventude, quando eu ainda tocava saxofone e trompete, gostava de pular nos salões e as marchinhas de duplo sentido eram inocentemente cantadas, quando os blocos de sujo andavam pelas ruas fantasiados de “mascarados fobó” e meu pai comprava as máscaras para nós ali no Café Chic, em Santarém.
Sem saudosismos, o Carnaval autêntico de hoje é um de ato de resistência contra a indústria das escolas de samba, dos abadás e coisas do gênero, É um ato de heroísmo em favor da espontaneidade e do verdadeiro Momo.
A propaganda das agências de viagem propala que todo brasileiro gosta de Carnaval, pois tem alegria, tem colorido, tem mulata, bunda, peito, sexo, cerveja, turismo, dinheiro, praia e principalmente um longo feriado.
Eu não aprecio mais. Porém, gostar de Carnaval, ao contrário dos arautos do apocalipse, não é o caldeirão do inferno,
Refiro-me àquela brincadeira em família reunida, fantasiada, curtindo-se mutuamente o que, digo logo, é uma raridade hoje em dia.
Eu tive um amor de Carnaval. Era uma carioquinha bonita que veio passar as férias em Santarém e todos os rapazes da cidade ficaram apaixonados por ela, inclusive eu.
Mas, ela, sabendo que era bonita e do Rio de Janeiro, jamais iria dar bola para aqueles molecotes caipiras do interior do Pará.
Acontece que o destino sempre trama suas artimanhas e nos surpreende.
As moças da cidade resolveram fazer um bloco de Carnaval para pular no principal clube da sociedade mocoronga, o Centro Recreativo.
Era o Bloco do Baralho. Todos iam fantasiados como se fôssemos uma carta.
A linda carioquinha estava lá. Ia participar do Bloco. Os pares seriam escolhidos pela sorte.
Nós morríamos de ansiedade, quando a mãe de uma das moças anunciava o sorteio: Fulano de tal vai ser o par de Sicrana… e aí por diante.
Faltavam apenas três pares para serem formados. Eu nervosíssimo para ver se ficava com a carioquinha, ainda mais quando reparei que ela me olhava com interesse.
Quando ouvi: José Wilson vai ser par da H…
Eu era o Valete de Paus. Ela, a Rainha de Copas.
Dei pulos de alegria. Ela riu muito, talvez da minha alegria excessiva. Só sei que durante a festa, depois de tomar uma cerveja (não mais que isso), ela relaxou e apertou minha mão, no salão do Centro Recreativo.
Aquilo para mim foi o máximo. Eu me sentia como se tivesse acertado sozinho na loteria.
Cantavam a música: “A lua é dos namorados…”
Fiquei em êxtase. Ali começava um amor de carnaval que durou mais ou menos um mês, pois ela voltou para o Rio.
Essa menina foi o meu primeiro beijo e o mais inesquecível, até hoje.
Foi dentro de um taxi Rural Willys, do Moa, na porta da casa da irmã dela, após a festa.
Na época, telefone em Santarém ninguém sabia o que era.
Nossos anos dourados não foram vividos nas grandes capitais. Mas o amor não escolhe lugar nem hora para acontecer.
Antes de viajar, a minha Rainha de Copas deixou comigo um lencinho com o perfume dela.
E eu, muito bobo, ligava todo dia para a Rádio Globo, para ver se escutava a voz dela. Pode?
Eu estava no verdor dos meus quinze anos.
E ela, na cidade maravilhosa, talvez escutando João Gilberto cantar o Corcovado, aquela música da bossa nova, imortal.

José Wilson Malheiros
Magistrado do Trabalho Aposentado, Advogado, Músico, Poeta, Compositor, Instrumentista, Professor, Jornalista, Diácono e Escritor.

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