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RESPINGOS DAS FÉRIAS II

Após o breve incidente com o carro alugado naquela bela manhã de domingo (leia Respingos das Férias I, aqui neste Portal) e pela maneira, digamos, “milagrosa”, como nós nos livramos da blitz do Detran, tratei de acelerar no rumo de Alter do Chão. A dona da locadora me preveniu que a estrada estava cheia de buracos, apesar de ser batizada com o nome de Rodovia Everaldo Martins, que nada mais foi que o pai da atual prefeita Maria do Carmo. Demos sorte, dias antes, talvez por ser o mês de ferias, tinham feito uma operação tapa buraco e a estrada estava boa de andar. O domingo prometia, mas precisamos voltar à madrugada do dia anterior(sábado) quando descemos de um avião da GOL em Santarém.

Às 3 da matina (isso lá é hora de chegar?), fomos recebidos no aeroporto de Santarém pelo seu Abílio, um prestimoso motorista de praça que é também um tremendo dum sujeito boa praça. Além de prestar serviço ao casal Marcos e Elienai, quando eles estão em Santarém em visitas periódicas aos filhos que estudam no Dom Amando, goza de tamanha confiança que mantém com ele uma cópia da chave do apartamento que nos foi cedido. Em julho o apartamento fica vazio e nós (eu e meu filho), instalados confortavelmente, lá dividimos uma suíte nas duas primeiras noites das nossas férias. Precavido, na sexta tinha ligado de Belém para o celular do seu Abílio.

– Seu Abílio, tô chegando de madrugada.

– Tô sabendo, chefe, dona Elienai avisou de Juruti.

– Como eu pego a chave do apartamento?

– Lá mesmo, no aeroporto, eu vou lhe apanhar. Como o senhor é?

– Careca.

-Então tá fácil, eu também não tenho um fio.

Chegamos e logo seu Abílio se valeu do secreto código dos carecas para nos localizar entre arrochos de malas e passageiros. Levou-nos  até o prédio do apartamento, entregou a chave e eu pedi que ele passasse às nove horas da manhã para duas providências: apanhar nossas passagens pré-compradas, na confortável lancha Tapajós, para Juruti, e alugar um carro para rodar em Santarém. Sim, um bom planejamento nessas horas é fundamental e evita transtornos. Comprei as passagens para Juruti um mês antes, prevendo a lotação que costuma acontecer no mês de julho. Nosso roteiro era aproveitar dois dias em Alter do Chão e seguir na segunda-feira para Juruti, onde já nos aguardava o meu irmão Joaquim, o afamado Joaquim Pescada, para um programa de boas pescarias nos igapós do Paraná da Dona Rosa. Pra quem não sabe, esse craque na arte das pescarias foi amigo de infância do desembargador e confrade Edílssimo Eliziário Bentes. Viveram a boa época de moleques e muitas estrepolias ali pros lados da costa de cima de Óbidos e o Pescada fez questão de ir comigo à solenidade da AALO que aconteceria em Óbidos, só com o intuito de rever o importante amigo.

No sábado, sempre pontual, seu Abílio nos levou a uma casa no bairro da Prainha, a meia quadra das residências dos meus parentes Élcio e Euler Amaral, onde uma gentil senhora, de quem eu logo virei freguês, nos serviu um belo café regional à base de tapioquinha, ovos, suco de laranja feito na hora e outras iguarias. Tudo por módicos R$ 16,00. Recebidas nossas passagens, seu Abílio nos largou numa agência onde acertei o aluguel do carro. Combinamos de nos encontrar na segunda-feira para eu devolver a chave do apartamento e para ele nos levar ao terminal de onde parte a potente lancha Tapajós.

A manhã de sábado estava ensolarada e sem nuvens. Antes de seguir para Alter do Chão, aproveitei para mostrar ao meu filho um pouco da Santarém da minha época. Nossa primeira parada foi no solar do Barão de Santarém, um dos cenários marcantes do meu livro Catalinas e Casarões. O térreo do imponente prédio está alugado e funcionam várias lojinhas, como num mini-shopping. Procurei o gerente, disse que eu tinha morado no prédio, expliquei sobre o livro, falei da minha amizade com a Vânia Pereira, dona do prédio e diretora da TV Tapajós e as portas logo se abriram. Muito atencioso, o homem chamou dois empregados para nos acompanhar e instruiu que podíamos visitar todo o prédio pelo tempo que quiséssemos. Primeiro entramos no quarto do segundo andar onde uma visagem nos deu um belo susto numa inesquecível manhã de 1959. Subimos ao terceiro andar e entramos no presumível aposento do Barão, vendo-se da janela um excepcional cartão postal do encontro das águas. Tiramos várias fotos e os empregados nos mostraram, por baixo da escada principal, um tronco fincado com argolas, provavelmente um local que serviu para castigar escravos.  

Do Solar do Barão levei meu filho para conhecer a tradicional garapeira da Praça São Sebastião, onde matei a saudade de um gostoso caldo de cana tirado na hora, programa imperdível nas saídas das aulas do Dom Amando. Desde 1956  a velha garapeira está naquele pedaço e só deixou o interior da praça para a esquina, quando instalaram no local um pequeno parque infantil. Em matéria de tradição, só é menos antiga que a outra garapeira, a Ypiranga, fincada por muitas décadas na praça da matriz, a poucos metros do Tapajós Bar.

– A garapeira foi reformada, mas o telhado de zinco ainda é o mesmo – disse a mocinha que nos atendeu.

Estava a uns trinta metros da portaria do Dom Amando e fui assuntar com o porteiro se podíamos fazer uma visita rápida ao Colégio e bater umas fotos.

-Bom, o Colégio está fechado até o fim das férias e estranhos são proibidos de entrar – disse com um jeito carrancudo de poucos amigos.

-Mas eu estudei aqui por seis anos, de 1958 a…

-Desculpe, não pode.

Fiquei desolado, mas arrisquei uma última pergunta:

-O senhor sabe me informar sobre o Irmão Ernesto?

-Sim, ele voltou pra Santarém, mora aqui no Colégio.

-E ele se encontra?

-Está lá dentro.

-Pode chamar?

-Não, chefe, tenho ordem de não incomodar os irmãos.

Fiquei chateado, um dos meus maiores sonhos era rever o Irmão Ernesto. Ele foi meu professor de matemática, um extraordinário professor e o maior motivo que me fez optar por engenharia. Acho que o porteiro percebeu minha enorme frustração e me chamou quando eu já tinha me decidido a ir embora.

-Olhe, tem um jeito do senhor falar com o Irmão Ernesto. Amanhã ele assiste missa ali na igreja de São Sebastião. Venha umas 8 horas e espere aqui na portaria.

No domingo, não contei conversa: às 8 horas da manhã, em ponto, estava de plantão no portão principal do Dom Amando. O mesmo porteiro logo se adiantou:

-Ele saiu cedinho pra igreja, daqui a pouco volta..

-Ele está bem?

-Muito velhinho, só sai pra missa.

Sentei na calçada e depois de quase meia hora eu vi aquele senhor idoso chegando com o andar lento dos anos e os cabelos brancos da sabedoria.  Antes um homem empertigado, disciplinador e quase severo, mas agora, assim de longe, parecia a figura lúdica do Dr. Pluma, aquele engraçado e sábio velhinho que costumava aparecer em algumas histórias dos inesquecíveis gibis do Tarzam. Porém, mais de perto, com uma barbicha branquinha  e bem aparada, achei que ele ficou a cópia perfeita do Dr. Albert Sabin, o genial cientista que criou a vacina oral contra a paralisia infantil. Aproximou-se e ficamos por instantes nos olhando sem uma palavra.

-Esse senhor quer lhe ver – disse o porteiro quebrando meu encanto.

O Irmão se dirigiu a mim com uma voz de santo.

-Acho que o senhor é meu ex-aluno, só não lembro o nome. É a idade, sabe como é…

-Sou o Ademar, estudei aqui do terceiro primário ao terceiro ginasial. De 1958 a 1963.

-Nossa Senhora, foram tantos os que passaram pelas minhas aulas…

Resolvi lembrar os nomes de alguns colegas:

– Sou da turma do Cristovam Sena, do Paulo Ida, do Roberto Maruoca, do Iudi Ikuta, do Paulo Ivan

-Hum, acho que agora lembro

Talvez tenha fingido que lembrou para não me deixar desapontado, mas nos demos um grande abraço de reencontro. Fui seu aluno de álgebra e nunca mais esqueci a simplicidade como ele montava uma sentença matemática. Naquele momento fazia exatos 48 anos que não nos víamos.

-Tanto tempo, mas eu nunca perdi a esperança de lhe dizer que eu só fiz engenharia porque foi o senhor quem me fez gostar de matemática – eu disse.

Ele deu um sorriso irônico e fez o seguinte comentário:

– Matemática é fácil, as pessoas é que complicam.

-Também acho, mas poucos tiveram a sorte de ter o irmão Ernesto como professor.

Aí falei que em Catalinas e Casarões, na página 238 do capítulo 28, eu descrevo o que significaram as aulas dele na minha vida. Pra quem ainda não leu o livro, aqui vai o trecho:

Matemática me dava tremor de tanto medo, e me fez perder muitas horas de sono durante as férias que antecederam o meu primeiro ano de ginásio. Não era fácil pensar que eu teria o temível irmão Ernesto pela proa. A fama do homem se estendia por muitas milhas, além dos muros que delimitavam o nobre colégio, e tirar nota boa nas provas do Charuto (apelido dele), era quase um milagre, tal o grau do arrocho que ele nos jogava nos ombros. Terminadas as férias, fui enfrentar a fera como um garrote indo consciente pro abate. Depois de um começo totalmente inseguro que me deu vontade de desistir na primeira semana de aula, eu fui melhorando aos poucos, fui vencendo o medo e sendo ajudado pela maneira simples como o irmão Ernesto ensinava a matéria. Ele me fez enxergar o quanto a matemática era lógica, agradável e estimulante de aprender. E mesmo com o extremo grau de sofrimento nas primeiras provas, acabei depois me tornando parte de um grupo de bons alunos. Descobri que meu maior problema não eram os problemas de matemática, mas uma insegurança descabida que foi desaparecendo tão logo eu percebi que a “fera” não estava interessada em massacrar ninguém. Queria apenas nos tornar homens competentes e preparados para enfrentar os embates da vida. Graças a essa base excelente que o Irmão Ernesto me legou, quando cheguei ao Colégio Nazaré, me tornei um dos melhores da minha turma em matemática e física, sendo o ponto decisivo para que eu fizesse minha opção por engenharia.

-O senhor ainda dá aula?

-Ah, não, estou velho, 86 anos, agora só aconselhamentos aos alunos sobre religião. Você devia me achar muito rígido naquela época, não?

-Todos lhe achavam uma fera, mas pra mim valeu a pena.

-Acho que só o irmão Francisco, aquele do latim, era mais exigente do que eu.

Ficamos conversando um bom tempo, e ele indagou sobre minha família, quantos filhos eu tinha, onde trabalhava. Quando eu falei que há muitos anos trabalho com a Caterpillar, seus olhos azuis, de bom americano, brilharam. Antes de nos despedirmos, meu filho tirou uma foto para marcar o reencontro, e prometi enviar meu livro tão logo chegasse a Belém. Foi a primeira coisa que fiz, com a melhor dedicatória que eu fui capaz de escrever.

No Respingos das Férias III, eu continuo sobre os nossos dois dias em Alter do Chão.

*O artigo acima é de total responsabilidade do autor.

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