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Cascata (*)

Doutor Carlos Epaminondas Cascata era um advogado que estudara no Rio de Janeiro.

Fez até doutorado com defesa de uma tese recheada de citações estrangeiras, par dar prestígio e publicada, com sua coleção de aspas e notas de rodapé, em revistas jurídicas do sul do país.

Gostava de falar para os amigos durante as cervejadas:

– Modéstia a parte, alguém já deve estar citando a minha tese em seminários, simpósios, compêndios e tribunais, por este Brasil jurídico sem tamanho. Já posso me considerar um jurista… Sou um doutrinador!

Ele trabalhava no escritório de advocacia do tio e padrinho, um causídico de renome em Belém.

Nas paredes de uma saleta de mobília usada, sem ar condicionado ou ventilador, aos fundos do escritório do tio, além do calor existia uma colação de diplomas, certificados e algumas medalhas.

Numa tarde de chuva Cascata começou a imaginar que dentro de algum tempo aquelas honrarias já seriam tantas que as paredes se tornariam pequenas.

Ele sempre olhou com desconfiança para um quadro mal emoldurado que ganhou do doutor Crescêncio, primo e antigo colega de turma, conhecido na faculdade como o “rei da cola” e hoje um profissional de sucesso no Acre, com imóveis, fazenda de gado e tudo.

Até deputado federal o “rei da cola” havia sido e era, agora, candidato a governador.

Esse quadro tinha ao fundo uma balança e falava da parede, com sutileza e gosto duvidoso:

                                “Existem livros de Direito,

Dos mais baratos às brochuras,

                                Que, para ter fama e respeito,

                                A maior parte são gorduras.”

Com o ego inflado, Cascata meteu a mão nos bolsos e retirou algumas gramas de vento.

Sempre sonhara ser jurista de renome para ganhar muito dinheiro e ver o nome figurando nas enciclopédias, nos congressos, fazer palestras, viajar, lecionar, ficar livre daquele escritório onde ingressara para obter experiência na prática profissional e ate o momento não ganhara mais do que isso.

Já estava ali por mais de seis anos e tinha pela frente, segundo o tio, um horizonte promissor na advocacia, conquistado a passos de cágado e à custa de algumas honrarias ali na parede, além das promessas do padrinho, quase nunca cumpridas.

Alguns desses diplomas, é verdade, haviam sido financiados pelo próprio causídico ou conseguidos graças ao prestígio do padrinho que encontrara na vaidade do sobrinho um ótimo antídoto para não ter que pagar uma remuneração digna.

Para Cascata ambição não combina com paciência. Já estava beirando os trinta e oito anos e nada de realmente sólido havia construído, ainda.

– Nem casa própria eu possuo… – conversava com ele mesmo – fico morando de favor, humilhado naquele quartinho dos fundos da residência do meu tio. Ele é advogado famoso e abastado… e, data venia, muito da fama e da grana que ele ganhou tem o meu suor… ele brilha e eu fico sempre na penumbra, carregando piano… faço o trabalho de estiva, pesquisando, raciocinando e ele só entra com a assinatura… Nem um elogio, nem uma palavra de esperança de me tornar sócio no escritório… Isso é escrotice… Eu planto o açaí e só como o bagaço… isso não pode continuar assim… tenho que fazer alguma coisa.

Depois de algum tempo parece que o destino de Cascata ia mudar.

Um dia ele chegou a Santarém para acompanhar o cumprimento de uma Carta Precatória Inquiritória no fórum local.

As testemunhas demoraram a serem localizadas para o interrogatório e o juiz estava doente, sem prazo para regressar à Comarca.

Então, ele tirou sua primeira folga do escritório, foi esperando e fazendo amizades, até ficar de vez, encantado com as belezas das águas do rio azul e, mais do que tudo, por haver conhecido Samira, filha única de um comerciante e fazendeiro libanês, que tinha muitas propriedades.

Depois de alguns meses de namoro houve o casamento, uma festa que reuniu tanta gente como dantes nunca acontecera na cidade.

Nesse dia foi servido um cardápio internacional: pato-no-tucupi, sarapatel de tartaruga, tucunaré de escabeche, paxicá, esfirras, quibes, tabules, merches, beleuas, cerveja, guaraná, uísque contrabandeado, leite-de-onça e muitos quitutes mais, preparados pelas melhores quituteiras da cidade e pela tia Sâmia, recém-chegada das arábias, com o seu insepárável narguilé.

Dentro de algum tempo, o casamento com a moça rica fez o doutor Cascata perder o interesse pelos códigos, diplomas e medalhas.

Doou seus valiosos compêndios de Direito (alguns emprestados pelo tio) para a Biblioteca Municipal.

Houve até sessão solene para receber o acervo.

O Vigário benzeu os livros e o deputado Cícero Quiquiqui, político com curral eleitoral nas redondezas, fez questão de discursar, depois do coquetel na base de muito capilé e salgadinhos, servidos exclusivamente para as autoridades:

– Des… desta data ma… magna em di…diante, o povo de San… san… Santarém,va… vai po… poder consultar em no… nossa bi… bi…bibli.. bli.. biblioteca essas obras ma… ma… máximas da li… li… literatura universal, que nos fo… foram ge… gen… gentilmente do… do… doadas por e… este ci… cidadão, jurista in… internacional, po… pos…possuidor de ve… ver… verdadeiro se… se… sentimento cí… cívico… e… este é… é… é… mais um tento lavrado com le… letras de o… o… ouro, pe… pe… pelo no… nosso par…  partido e pe… pe… pelo no… nosso al… al… alcaide em pro… prol deste bra… bravo e… e… de… deno… denodado povo, hu… humilde, mas va… va… valoroso, co… como sã… são to… todos os que…que… que… nascem neste no… nosso to… to… torrão… en… encantado, hon… hon… hon… honra e glória da… da… Ama… Ama… Amazônia… qui… qui… qui… quisera e… eu etc…

Depois de mais de uma hora de discurso, uma claque encomendada aplaudiu o orador de pé.

Eram crianças pobres, estudantes das escolas públicas, que agitavam bandeirinhas, exibiam sorrisos cariados e desmaiavam de fraqueza e de fome sob o sol do meio dia.

As Diretoras das escolas municipais, que, inclusive, não recebiam salários há seis meses, segundo o prefeito, por falta de verba, após serem ameaçadas de exoneração se não comparecessem, falaram para as crianças que a presença à solenidade era obrigatória, para não ficarem com zero na matéria Moral e Cívica.

Quando o falatório e a comilança acabaram, o deputado Quiquiqui fugiu apressado pela porta dos fundos, no rumo do aeroporto, onde o esperava um avião do cunhado do alcaide, alugado pela prefeitura, sem concorrência pública, especialmente para aquele evento.

Quiquiqui só voltaria outra vez na época das eleições, para espalhar sorrisos solertes, fazer promessas não cumpridas e pedir ou comprar votos a troco de roupas usadas, óculos sem receita, sandálias e dentes arrancados sem anestesia.

Comentava-se na cidade que o aluguel do avião para o deputado fora um absurdo e que, além disso, o prefeito ficara com vinte por cento do preço, por conta da preferência que dera para uma empresa de aviação local, prestigiando, assim, o empresariado da região, colaborando para fomentar a economia e garantir empregos.

Cascata tornou-se um dos mais importantes cidadãos da localidade.

Seu casamento ia muito bem, obrigado, principalmente por causa do patrimônio da mulher.

Mas, depois de algum tempo, ele soube que Samira sofrera traumas de parto e havia saído meio apalermada: ria sem mais nem menos e às vezes ficava fazendo caretas no espelho.

Quando olhava para a mulher achava que o nariz dela ora parecia uma quilha de batelão, ora um bico de tucano.

O maior prazer para Samira era montar a cavalo, o que fazia desde menina. Sabia, até mesmo, meter o laço e fechar o gado junto com os vaqueiros do senhor Salim, o pai.

Os invejosos da cidade cochichavam entre si que o advogado havia laçado a filha do árabe só pelo dinheiro e pela futura herança de única herdeira.

Quando Cascata visitava as fazendas do sogro, apenas por ocasião das ferras de gado, segredava para os vaqueiros que não nascera para “pisar em cocô de boi.”

Jurava que havia trocado a banca de advocacia pelo balcão da loja de tecidos do sogro, por amor à Samira e não por outro motivo qualquer.

Doutor Cascata gostava de tocar violino nas serenatas de sábado à noite, acompanhado do bombardino do alfaiate Desidério e pelo violão do Cornélio Cebinho, oficial de justiça e pescador de tarrafa nas horas vagas, que, aliás, eram quase todas.

Nessas ocasiões sempre surgia um bajulador a dizer, depois de umas doses de cachaça:

– Dotô, o sinhô nasceu pros grande palco. A sua rabeca é das boa, mestre.

O advogado mordia a isca. O violino enfeitava as madrugadas, bordado com os contracantos do bombardino e harmonizado pelo violão.

De vez em quando dona Dalila Garganta de Anjo, mulher do Cornélio Cebinho, reunia-se aos seresteiros e cantava, chorando de emoção, o tango El dia que me quieras.

Depois queria beijar todos os homens da serenata.

Ali ela estava realizando suas fantasias de adolescente. Sempre quis ser uma bailarina e cantora de ópera. Mas, nunca saiu da cidade, nem mesmo a passeio. Casou-se, não teve filhos e engordou. Tentava esconder os cem quilos de toucinho usando espartilhos e excesso de maquiagem, quando comparecia nas festas da sociedade, para dançar com o esposo e quem mais ela escolhesse. Era só aceitar.

Os pés, sempre inchados, só tinham sossego na sandália havaiana. Dalila era considerada a prima dona da cafonice das serenatas na cidade e nas festas do clube social.

Chico Tambaqui, telegrafista dos Correios e admirador, em segredo, da matrona, sempre tinha um texto de sua autoria para essas ocasiões, quando a garrafa de pinga chegava à metade:

– Peço licença aos ilustres seresteiros e ao marido desta respeitável prima dona de nosso bel canto, para dizer algumas palavras, verdadeiro panegírico em homenagem a essa goela sacrossanta!

Todos silenciavam e ele começava. De garrafa em punho e voz pastosa: “Assim como o sol entoa seus acordes de luz e a lua seus sustenidos de prata, o ouro do teu canto ilumina a vida. Cantar é abrir portas, é descerrar cortinas, distribuir asas, semear amor…”

Nessa altura do discurso todos já estavam rindo, pois ele nunca terminava a oratória. Desabava, de porre, na sarjeta, até que a mulher ou um dos filhos aparecesse para juntá-lo, de manhãzinha, quando as pessoas já começavam a transitar pelas proximidades para ir à missa ou ao mercado, fazendo pouco do boêmio que, quando sóbrio, era praticamente a principal ponte entre a cidade e o mundo, com o seu telégrafo.

Sabia da vida de todos. Os telegramas eram cartas abertas que transitavam por seus dedos ágeis no manipulador telégrafo.

Não poucas vezes, o telegrafista, sob os eflúvios da maldita, prometia revelar pormenores da intimidade das famílias. Felizmente, ficava apenas na ameaça:

Qualquer dia desses eu abro a boca e cabeças vão rolar. As cornadas, os nascimentos, os óbitos, os maus pagadores, quase tudo passa pelas mãos do papaizinho, aqui no telégrafo. É bom ficarem quietinhos, que eu abro o bico…

Quando estava de folga, Chico Tambaqui sentava-se no banco da praça, em frente à igreja matriz, e ficava anotando, numa pequena caderneta, a data dos casamentos. Se a criança nascesse antes dos nove meses, espalhava a notícia:

– Vocês sabem da Fulana, filha do meu amigo Sicrano? Pois é, não completou nem cinco meses de casada e já teve um filho. Será que não existem mais virgens nesta terra?

Assim o doutor Cascata ia vivendo com a sua Samira, também enfeitiçado pelo excesso de poesia e de beleza que ornavam as manhãs gloriosas e as tardes em adágio maestoso de Santarém, algemas que prendiam tantos corações, que nem cheiro de garrafa.

E ele gostava de dizer:

– Isto aqui é uma merdolência… mas eu não troco por nenhum lugar no mundo!

(*) “Esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência”.

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