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Já li algumas obras de Ernest Hemingway.

A que mais me cativou foi “O Velho e o Mar”, obra na qual ele retratou a persistência de um velho pescador em seu duelo com um peixe imenso, para conseguir fisgá-lo e finalmente trazer consigo o troféu da luta gigantesca.

Outra presença constante nas obras do escritor americano eram as touradas, que ele também descreveu em seus romances e novelas.

Se Hemingway gostava de touros, na minha mocidade eu tinha preferência pelos galos.

Em Santarém existia uma rinha. Eu gostava de criar galos de briga.

No quintal de casa mandei fazer gaiolas para as galinhas chocarem os pintinhos e outras para separar os brigões. Cheguei a ter uns dez galos. Quem não era escolhido para a rinha ou a reprodução ia direto para a panela.

Era necessário colocar data nos ovos, não deixar chocar em tempo de trovão, visitar todo dia o choco, ajudar a romper a casca dos ovos para facilitar a saída dos pintainhos… Uma loucura.

Ficava horas e horas com o meu primo Miguel Augusto, contemplando as maravilhas dos nossos guerreiros da raça “moura”. Eram galos taquirís, caboclos e tantos outros, de acordo com a cor das penas.

À semelhança de um lutador profissional, cada animal possuía um estilo característico de lutar.

E o treinamento? Era parecido com os dos lutadores de boxe.

Um animal só podia ir para a rinha bem treinado. Pelava-se o peito, as cochas, molhava e deixava pegando sol para ficar bem vermelho e engrossar a pele. Depois fazia a preparação física. Massagens, simulações de briga, fazendo o galo saltar para frente, jogando o animal para cima para bater asas, enfim, só se largava o pobre galináceo quando ele, literalmente, abria o bico, extenuado.

Depois, dava-se ração e se confinava em uma das gaiolas, à espera da luta.

Hoje considero essa atividade não como diversão, mas como perversidade ou neurose.

As atividades galísticas são verdadeira mania.

Cruzavam-se galos e galinhas de proprietários distintos para evitar a consanguinidade e assim melhorar o plantel etc.

Ah! Tempos bons… Tempos de inocência. Mal sabíamos nós, molecotes, que, em verdade, éramos bárbaros, malvados e todos os adjetivos da espécie.

Ora, um lutador de boxe, por exemplo, tem a liberdade, possui o livre arbítrio de praticar ou não a atividade. E um pobre galo? É instinto puro. Não tem escolha.

Graças a Deus que hoje existe essa lei punindo com severidade quem se dedica a essas atividades sádicas.

E ainda tem mais. Nós os garotos criávamos os animais e os “marmanjos” apostavam alto nos gladiadores de bico e penas que usavam “batoqueiras e “biqueiras” para treinar e até mesmo lâminas no esporão para matar o adversário, na hora da briga.

Além da carnificina, as apostas corriam soltas.

E eu e meus amigos de juventude, na nossa inocência perversa, achávamos aquilo lindo.

Se a metempsicose fosse verdade, acho que o Criador ia me fazer reencarnar como um galo de briga, para resgatar todos os pecados contra nossos amigos de crista.

José Wilson Malheiros
Magistrado do Trabalho Aposentado, Advogado, Músico, Poeta, Compositor, Instrumentista, Professor, Jornalista, Diácono e Escritor.

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