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Na crônica anterior – ou na anterior a ela – falei sobre bouillons. Como sou guloso, e, ainda, como acredito piamente, desde criança, que caldos são a base de toda força, inteligência e conduta moral, retomo do assunto. Bouillon é costumeiramente traduzido como caldo, mas a palavra caldo, em língua portuguesa, tem uma duplicidade de sentidos. Em francês, se trata de uma preparação líquida, com odores concentrados, e que pode ter por base carne, peixes, legumes, ervas e até ossos e carcaças. Ou outras coisas, conforme há lendas e contos de fada que o dizem. Sua característica é o cozimento lento, que dura de 2 a 3 horas.

Tem irmãos: o fond (fundo), o consommé, as sopas, o potage, os râgus, os pilafs, as bisques, as chorbas tunisianas, os harire marrocanos, os gazpachos andaluzes, os minestronnes italianos e uma quantidade infinita de caldos, em todas as culturas do mundo.

Porém, antes que eu me adiante com essa história, pergunto: já ouviram falar sobre a “sopa das 11 horas?”.

Pois bem, é uma expressão francesa que alude a uma sopa envenenada. Ela surgiu no século XVII, na França: “donner du bouillon et voir sa dernière heure arriver” (dar a sopa e ver a sua última hora chegar). Bouillon, palavra polissemântica, significava, nesse caso, veneno. E “onze horas”, undécima hora, evocava a ideia de fim da vida.

Pois bem. Um dia ensolarado, no palácio de São Cristóvão, Rio de Janeiro, residência da família imperial, o vaidoso e astuto Paulo Barbosa, mordomo de d. Pedro II, sussurrou aos nobres ouvidos de sua majestade imperial, que o conde de Áquila, junto com sua esposa, a princesa dona Januária, andavam preparando a sua sopa das onze horas.

O drama causado foi imenso. E já vou conta-lo.

Antes, voltemos às sopas.

Se o bouillon é a base de tudo, cabe dizer que o tal do fond (ou fundo, como já disse) exige – além de carne ou peixe ou outros ingredientes – ossos ou carcaças e tem um cozimento mais lento ainda, em média de 6 horas. A redução do caldo é grande e ele resulta numa substância encorpada, por vezes gelatinosa, fruto do colágeno dos ossos, que pode ser congelada e guardada para outros preparos.

O consommé, por sua vez, é feito a partir do bouillon, por meio de uma operação de “clarificação”: separa-se uma porção do fond e junta-se a ela claras de ovos. Ao coagularem, agregam as proteínas das carnes, tornando o consommé claro.

Normalmente, o fond serve de base aos molhos e a preparações mais elaboradas, enquanto os bouillons são a base de sopas, potages, ragus, pilafs e um monte de outras preparações e o consommé é uma iguaria que valoriza a simplicidade dos ingredientes.

E, isto dito, vamos às intrigas de onze horas. Diante das fofocas do seu mordomo, Pedro II ficou ressabiado com a irmã e o cunhado. Mas para entender isso é preciso explicar quem eram estes dois personagens, não é mesmo?

Bom, dona Januária de Bragança nasceu no ano da independência e, por isso, era cognominada como “a princesa da Independência” – o que lhe conferia uma aura simbólica importante para os fatos que virão. Era filha de Pedro I e de dona Leopoldina, sendo a quarta filha do casal. Antes dela, havia a princesa Maria da Glória, futura rainha de Portugal, e dois irmãos, Miguel e João, um natimorto e o outro falecido com um ano de idade. Depois dela viriam Francisca, futura princesa de Joinville; Paula, falecida ao dez anos de idade e Pedro, futuro imperador.

Aos 14 anos de idade, aquando da abdicação de Pedro I, a Assembleia Legislativa do Império conferiu, a Juanária, o título de Princesa Imperial do Brasil, tornando-a herdeira presuntiva de seu irmão, quando este era menor de idade e até considerou-se a possibilidade de declará-la regente do Império, o que, como se sabe, não se concretizou. Com efeito, foi herdeira do trono imperial até 1845, quando nasceu o príncipe Afonso, filho de Pedro II.

Casou-se com um príncipe italiano – na verdade napolitano – Luís de Bourbon das Duas Sicílias, conde de Áquila, filho de do Rei Francisco I das Duas Sicílias e irmão de Dona Teresa Cristina que havia se casado no ano anterior com seu irmão, Pedro II. Luís tinha um temperamento rompante e brilhava na corte muxoxa de Pedro II. Falava-se mais dele e de Januária do que do imperador, sempre tímido e reservado. E é aí que entra a história da sopa das onze horas e do mordomo Paulo Barbosa.

Esta criatura, fiel a Pedro e nem tanto a Paulo (ditado antigo), foi fazer fofoca nos ouvidos o imperador, sugerindo que Januária e Luís planejavam tomar-lhe o trono:

“Preparaão a sopa das onze horas de vossa majestade…”

E Pedro se deixou levar por mexericos. Pois é. Acreditou e ficou ressentidíssimo. O boato se espalhou e a corte, fazendo média, passou a ignorar os condes de Áquila. Ninguém lhes dirigia uma só palavra e, se eram convidados para festas e eventos, isso ocorria estritamente por obrigações cerimoniais.

O conde de Áquila, sentindo-se humilhado e muito magoado, pediu, então, permissão a Pedro II para voltar à Nápoles com sua esposa. E o imperador do Brasil, só de mau, recusou. Essa permissão era importante porque Januária estava na linha de sucessão do trono. E Luís pediu outra vez, e outra e outra. E o imperador, nada. Por fim, o conde ameaçou fugir do país, o que seria um escândalo internacional, e Pedro II achou melhor recuar.

Dona Januária e seu esposo se instalaram em Nápoles, num palácio cedido pelo rei, pai do moço. Anos mais tarde, o casal adquiriu uma villa – um sítio, digamos – com vista para a baía de Nápoles, que passou a ser chamada, em homenagem a Januária, de La Brasiliana – e que até hoje existe. Tiveram quatro filhos, Luís Fernando, Leopoldina, Filipe Luís e Emmanuel de Bourbon das Duas Sicílias.

Era para viverem felizes para sempre, mas isso não ocorreu, porque ocorreram as guerras da unificação italiana, lideradas por Giuseppe Garibaldi e pelo Rei Vítor Emanuel II da Sardenha. Como o reino das Duas Sicílias teimava contra esse projeto, a guerra, por lá ficou intensa. E Januária pediu ajuda ao irmão imperador, que, prontamente, enviou um navio brasileiro, que estava em Marselha, para resgatar a família da irmã. Foi uma operação digna de filme. Com seu castelo sendo bombardeado, os condes de Áquila fugiram, disfarçados, escoltados por uma tropa brasileira, quase um serviço secreto, e entraram na corveta Isabel, que os levou à França. Os irmãos reconciliaram-se e d. Pedro II ajudou financeiramente a família da irmã durante muitos anos, visitando-a quando esteve na Europa, em 1871 e 1887. Luís faleceu em 1897 e dona Januária em 1901, sendo a mais longeva dos filhos de d. Pedro I.

Daqui a pouco volto para contar um entredito estarrecedor de toda essa história. Primeiro, retornemos às sopas. Partindo do bouillon, que, na hora em que se disser que chega vira sopa, a variedade é imensa. O potage é uma sopa batida no liquidificador. O moulinée é um potage batido grosseiramente, de maneira que se perceba os pedaços de lugumes, ou carnes, ou o que quer que seja. O velouté é uma sopa muito bem batida à qual se ajunta uma boa porção de manteiga. O crème é um velouté ao qual, além da manteiga, se ajunta creme de leite fresco ou gemas de ovos. A bisque é uma sopa de crustáceos.

E há, ainda, a soupe au pistou, provençal, que é enriquecida com feijões vermelhos, feijões brancos, abobrinhas, batatas, tomates e um pouco de bacon. Como mencionei a chorba, devo referir que se trata de uma sopa bem temperada, épicée. O gaspacho é feito com legumes crus e tomado frio. O minestrone, por fim, é uma sopa de legumes enriquecidas com feijão branco e com massa.

E todas essas sopas podem ser servidas às onze horas…

No que retornamos aos condes de Áquila para vos dizer que, em 1952, pesquisando nos arquivos do Quais d’Orsay, como é chamado o ministério das Relações Exteriores da França, o historiador Alberto Rangel, encontrou uma vasta correspondência do então ministro da fazenda do Império do Brasil, Antônio de Holanda Cavalcanti de Albuquerque, com o diplomata francês no Rio de Janeiro Eduardo Pontois, que conspirava um plano de dividir o Brasil, separando o Norte, da Bahia para cima, que deveria constituir uma nova monarquia sediada em Recife.

E essa monarquia teria como soberanos… adivinhem quem? Sim, dona Januária I e o “rei” consorte, Luís, conde de Áquila.

A França do rei Luís Filipe I ensaiou apoiar a sedição e planejou enviar uma expedição militar com quatro navios de guerra e 5 mil soldados para assegurar a criação do Reino do Nordeste e da Amazônia. Em compensação, receberia todas as terras à margem esquerda do rio Amazonas.

Como se sabe, à undécima hora, tal conspiração não foi para frente.Na imagem: retrato anônimo de d. Januária de Bragança, feito na época de seu casamento.



* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista

Fábio Fonseca de Castro
Fábio Fonseca de Castro é professor da Unversidade Federal do Pará e atua nas áreas da sociologia da cultura e do desenvolvimento local. Como Fábio Horácio-Castro é autor do romance O Réptil Melancólico (Editora Record, 2021), prêmio Sesc de Literatura.

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