Publicado em: 7 de maio de 2026
Não resisto e retomo o assunto dos hutongs. Continuo profundamente impressionado por eles. Neste momento eu queria ser um escritor chinês, para descrever, para contar a vocês, a respeito de algum drama ou de alguma felicidade humana. Nos hutongs encontramos uma dada escala humana que nem cogitávamos. Mas não só. Igualmente, a memória urbana, a sociabilidade densa e e a transformação acelerada do mundo – e tudo isso ao mesmo tempo.
Sempre juntando literatura e antropologia – pois é o que faço – descobri um autor fabuloso, Lao She. Toda grande cidade tem seus grandes escritores. Conheço pouco da literatura chinesa, mas já ficou claro, para mim, que não há Pequim sem Lao She.
Eu devia estar dormindo para aproveitar meu dia visitando a tal muralha da China? Devia. Dormi? Não. Passei a noite lendo Lao She. E valeu à pena. Ontem a tarde comprei, em inglês, o seu Rickshaw Boy. E, devo dizer… que livro! Que livro. Que grande literatura! Passei a noite lendo – e, ao confessá-lo, sei que terei que enfrentar a fúria da Marina, que me queria mais presente no dia em que vamos conhecer essa tal Muralha da China (esse ponto alto de quaquer viagem para a China).
(sei que logo mais vou cambalear insone pela Muralha da China, quase caindo lá de cima, talvez até em zigue-zague, de tão sonado que estarei, mas feliz da vida por ter gasto minha noite lendo Lao She).
Bom, vamos a ele. Lao She é um escritor fundamental para pensar Pequim e seus hutongs. Ele mostra a a vida nesses lugares, explorando tanto o problema (universal) da moralidade cotidiana como a questão dicotômica da precariedade e da dignidade. Lao She olha para personagens anônimos e capta pequenas tragédias, pequenas resistências.
Já aprendi que há muitos outros autores que escrevem a respeito dos hutongs, tal como Wang Shuo, que descreve uma Pequim em transformação e desencantada, e como Yu Hua, que explora a transformação social e a violência estrutural da cidade. Li um pouco deles, comprei meus livros, como sempre, para entender a cidade (toda cidade que não se explica pela literatura ainda não é uma cidade), mas devo confessar que meu coração bateu forte pela obra de Lao She.
Inclusive, pensando bem, porque, em paralelo, pude encontrar, aqui, um autor de quem já havia escutado muito, no campo da sociologia, e que, certamete, é um dos grandes clássicos da sociologia urbana chinesa, Fei Xiaotong.
No meu proveitoso dia em Pequim atrás de livros, ainda que lamentado não poder ler em mandarim, encontrei, em inglês e francês, um pouco desse clássico da sociologia chinesa, que nos ensina que a sociedade é organizada por relações próximas e graduais (differential mode of association, como ele diz) – o que nos permite pensar nos hutongs como uma vizinhança constituída por redes densas e por relações baseadas em proximidade e familiaridade.
Lendo tudo isso, estando aqui e aí, chego a uma conclusão geral, que pode expressar o que são os hutongs e o que são as relações de colaboração social na Amazônia tradicional: há lugares nos quais a vida social não se expande — ela se adensa.
Ah, mas isso não será novidade para muitos de vós, sobretudo os meus alunos e os alunos dos meus parceiros. Isto é, simplesmente, a teoria da produção do espaço, do mestre Henri Lefebvre, na sua longa discussão a respeito da relação entre a vida cotidiana e a racionalização urbana.
Algo que, por sinal, também não estará distante da obra de um outro genial pensador da experiência da vida social, o francês Michel de Certeau, que nos ensina que o cotidiano é feito de táticas invisíveis, posto que pessoas comuns reinventam o espaço seguidamente, ao longo da vida.
Assim, nos hutongs e na vida ribeirinha amazônica, o que vemos é o uso improvisado das vias (terrestres e fluviais), a sociabilidade espontânea e as práticas não planejadas e espontâneas da negociação do estar-presente.
O que concluo? Simples: o que parece banal é, na verdade, por todo lado, a criação social contínua.
Depois de seis horas caminhando nos hutongs de Pequim, chego a algumas conclusões.
Primeira: Neles, nos hutongs, a cidade não se expande — ela se reproduz em escala humana. Segunda: Nos hutongs, o espaço não foi planejado para circular, só para permanecer, continuar. Terceira: A modernidade não chega aos hutongs — ela os substitui. A modernidade perde. Quarta: O cotidiano, aqui nos hutongs, não é invisível: ele ocupa a rua.
Síntese da síntese, sendo o professor de planejamento do desenvolvimento regional que agora eu sou: os hutongs são formas urbanas baseadas na proximidade e que se organiza pela continuidade, enquanto a cidade contemporânea se organiza pela circulação.
Ou, de outra maneira colocando, os hutongs são uma tecnologia social de convivência; enquanto que grande cidade, a metrópole, é, malmente, uma tecnologia de fluxo.
Não consigo, mesmo parar de pensar nos hutongs. Caminhar por um hutong é aceitar uma mudança de escala. Pequim, vista de longe, se impõe — avenidas largas, eixos monumentais, a geometria quase obstinada do poder. Mas basta dobrar uma esquina mais estreita para que a cidade se desfaça em outra coisa: uma sucessão de portas, bicicletas encostadas, roupas secando ao vento e vozes que não parecem ter pressa de terminar o que dizem.
Aqui, o espaço não organiza o movimento, mas a permanência. As casas, voltadas para dentro, guardam pátios que não se oferecem ao olhar apressado; e, no entanto, a vida transborda para fora. Um homem ajeita uma cadeira na calçada como quem reivindica um território mínimo. Duas mulheres conversam sem a necessidade de concluir — o tempo, ao que parece, não exige eficiência. Um senhor observa, em silêncio, o vai e vem que não vai a lugar algum.
Penso que, nos hutongs, a cidade não se expande — ela se adensa. Não há anonimato possível quando as distâncias são tão curtas que os gestos se repetem diante dos mesmos olhos. A vida aqui é feita de pequenas táticas: ocupar um pedaço de rua, improvisar um banco, transformar a passagem em permanência. Nada disso parece planejado, e talvez seja essa a sua forma mais precisa de organização.
Mas há uma tensão quase imperceptível, como um ruído de fundo. Em algum lugar além dessas paredes baixas, a cidade acelera. Novos edifícios se erguem com a promessa de um futuro mais funcional, mais limpo, mais rápido. E, diante deles, os hutongs parecem não resistir por força, mas por insistência — como se sobreviver fosse, aqui, uma prática cotidiana.
Desculpem pela insistência, mas o antropólogo que sou, adensado pelo escritor, se torna obcecado pelo que, da vida, é vida.
Pergunto-me, então, se o que está em jogo não é apenas uma forma de urbanismo, mas uma forma de tempo. Nos hutongs, o tempo não se mede em deslocamentos, mas em encontros; não se projeta para frente, mas se distribui entre aqueles que permanecem. É um tempo que não se acumula nem se perde — apenas se partilha.
Ao sair, percebo que Pequim continua a mesma. Mas algo na sua lógica se desloca. Talvez porque, por um breve momento, a cidade tenha deixado de ser um sistema de circulação e tenha se revelado como aquilo que raramente se deixa ver: uma forma de convivência.
Si que já falei de tudo isso, mais ou menos, antes, mas cadernos de campo o são, enquanto duram, o quanto durem…
* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista










Comentários