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Pequim, a capital, há séculos, da China, tem uma gramática urbana própria. Tal como outras capitais, ela busca enunciar um discurso de monumentalidade e poder, mas tem suas peculiaridades. O centro simbólico do seu poder resta sendo um lugar do passado, a Cidade Proibida, símbolo estamental e civilizatório das dinastias Ming e Qing, mas, principalmente, símbolo da centralidade e da estrutura piramidal do Estado chinês.

Pequim é, essencialmente, esse seu símbolo maior que, nos parece, pode ser pensado como uma forma social fundamental para compreender a formação econômico-social do país: a forma do Estado chinês contemporâneo dialoga com a experiência histórica, também presente na Cidade Proibida. E isso para muito além da superficialidade que expressões como “proibida” possam evocar na língua portuguesa.

De onde vem a alcunha de “proibida”? Simples: pessoas comuns não podiam entrar ali, apenas a corte, militares, religiosos, políticos e burocratas autorizados. E, claro, centenas de empregados e servos, além de soldados, além das concubinas do imperador, além dos eunucos, todas essas pessoas sob estrito controle. Proibida porque quem entrasse sem permissão podia ser executado.

Falar a respeito da Cidade Proibida é, essencialmente, falar sobre uma experiência paradoxal: um espaço monumental que, ao mesmo tempo, produz intimidade. Tudo, ali, na verdade, remete à intimidade. Já vi muitos espaços e cenografias do poder. Em geral, nenhum deles sugere, de tal maneira, a intimidade.

Talvez porque haja, aqui, uma temporalidade de certa maneira sedimentada. A Cidade Proibida não é apenas um lugar — é uma acumulação de tempos, de tempos sobrepostos. Há camadas da dinastia Ming, camadas da dinastia Qing, camadas da China revolucionária… Impossível não lembrar de dois autores, dois amigos e contemporâneos, entre si, que, apesar de não terem falado a respeito da China (até onde sei) pensaram na condição de passado enquanto vestígio. Primeiramente, Walter Benjamin, para quem as noções de aura e de ruína – pensadas como presença do passado no presente – me ajuda a compreender esta específica condição. Não que a Cidade Proibida seja uma ruína (como há tantas na minha cidade), mas, afinal, quando percebemos que a Cidade Proibida é invisível, quando percebemos que ela não é mais o centro do poder de um império fabuloso, não há como não pensar, nela, como ruínas assépticas da história: um monumento vazio, silencioso, destinado à eternidade.

O outro autor que lembro é Siegfried Kracauer, que refletiu a respeito do cotidiano como vestígio histórico. É evidente isso, quando caminhamos através da Cidade Proibida. Nela, a arquitetura é uma coreografia do poder imperial – ou melhor, do que foi uma forma histórica do poder: seus eixos rígidos, sua absoluta simetria e, como acabei de aprender, a rígida coreografia do controle do acesso, ou seja, o percurso de quem podia avançar, nela, e até onde.

Claro que, pensando em Kracauer, é natural pensar, também, em Michel Foucault, no que se refere à compreender o espaço como uma tecnologia de poder e, sobretudo, em Norbert Elias, que discutiu o espaço como um produto da etiqueta de corte e como uma tecnologia do controle social.

Sabendo disso, caminhando através da Cidade Proibida, compreendo que meu percurso físico não se distancia da experiência de uma iniciação — cada portão atravessado (e eles são muitos) é também uma forma de domesticação do corpo e de compreensão da história.

Bom, é claro que você pode estar apenas aqui, e nada dessa dimensão histórica precisa lhe afetar.

Mas o fato é que, estar aqui, é, de fato uma possibilidade de transcendência.

A Cidade Proibida evoca ordem e duração. Em minha compreensão há, na sua gramática de poder, cinco elementos, seis classes gramático-retóricas: os prédios, os símbolos, as passagens, os vazios, as passagens e a espiral do entorno. Tudo envolvido na mística de um universo fechado e com regras cosmológicas siderantes. Mas vou deixar para desenvolver essa ideia na próxima crônica, que está já vai longa



* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista

Fábio Fonseca de Castro
Fábio Fonseca de Castro é professor da Unversidade Federal do Pará e atua nas áreas da sociologia da cultura e do desenvolvimento local. Como Fábio Horácio-Castro é autor do romance O Réptil Melancólico (Editora Record, 2021), prêmio Sesc de Literatura.

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