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“Amo você, laoji, vejo você amanhã” (老吉,我爱你,明天见。)

Traduzindo: “Amo você, eu-mesmo, e vejo você amanhã”. A palavra laoji é uma versão divertida de ziji, que, em chinês, significa si-mesmo, ou você mesmo. A frase tornou-se uma das expressões mais comuns da juventude chinesa, um ato de cheio de humor, mas também de amor próprio, auto-valorização, autocuidado, autoestima e auto-encorajamento – além de autoironia. Quantas palavras para traduzir uma expressão…

A frase se tornou usual entre estudantes que, depois de um dia muito duro, se a dizem, a si mesmos, antes de dormir. Em português, seria como se eu me dissesse: “Dorme bem, Fábio, eu te amo e te vejo amanhã”.

Porém, o enunciado começou a ter outro uso: passou a ser dito também nas ocasiões em que esses mesmos estudantes resolviam se presentear com uma pequeno prazer, como um doce, um suco ou alguns minutos de descanso. Nesse caso tornando-se algo como “Vá em frente, laoji, você merece”.

Além disso, a expressão ganhou uma terceira camada de sentido, desta vez tomando um ar engraçado, pleno de autoironia, que brinca, justamente, esse ato de se oferecer um pequeno prazer fora da hora, ou indevido. Seria como se permitir comer uma barra inteira de chocolate e, em o fazendo, dizer “Amo você, laoji, vá fundo, você também merece”.

Interculturalmente traduzindo: “Ai ai, Fábio, tu não devias, mas tudo bem, tu mereces, e eu te amo!”.

A universidade de Xiangtang publicou, em janeiro deste ano (2026), uma pesquisa a respeito da expressão, seu uso e seus significados. Fazendo um levantamento nacional, por amostragem, o estudo concluiu que a expressão é empregada por cerca de 70% dos estudantes chineses e que eles a constroem como uma espécie de utopia, de utopia comunicacional, um espaço mental de descanso em meio a um ambiente altamente competitivo. É aquilo que podemos chamar de um trend, um campo cognitivo que transita entre o auto-estímulo e a auto-condescendência. Um trend com várias variações:

“Laoji, você está cansado hoje. Tire uma soneca”.

“Laoji, você devia ir ao cinema hoje! Pense nisso com carinho”

“Laoji, laoji, hoje é dia de namorar, o estudo pode esperar!”

Também é interessante perceber que a frase é mais utilizada no ambiente universitário de que no ambiente do ensino médio. Isso se deve ao fato de que – conclui o estudo de Xiangtang – enquanto este é muito mais competitivo (na China, o ensino médio é extremamente competitivo e estressante), a universidade é um lugar mais distendido, no qual os jovens podem se permitir alguma folga, como se se recuperassem do Gaokao, o vestibular chinês.

Alguns de vocês sabem que um dos meus campos de pesquisa é a antropologia da comunicação – por isso meu interesse no tema e o diálogo que iniciei com os colegas da universidade de Xiangtang a respeito dessa e de outras estratégias comunicacionais de valorização da identidade e de autoironia em relação à própria identidade. Em agosto próximo farei um seminário sobre esse assumo – o tema do laoji e outros temas análogos e conexos relacionados aos elementos e experiências de tradução intercultural e intersemiótica China-Amazônia. 

Na verdade, penso, há muitos elementos de comparação, no caso do “Amo você, laoji, vejo você amanhã”.

Por exemplo, a frase significa aquilo que, lá na universidade de Cambridge, quando andava por lá, meus colegas chamavam de downtime, um tempo para si mesmo, um self-encouragment. Um downtime é diferente de um tempo livre, um free time: é um ficar-consigo-mesmo, algo como fazer o que gosta sozinho, sem obrigação de enquadrar, aquele momento, numa dada ideia de diversão. A frase também evoca uma expressão francesa bem conhecida e muito usada pela juventude da geração de 1968 (o ano da rebelião estudantil francesa): “À chacun, son temps” (a cada qual, o seu tempo). Ela está num clássico do pop québecois, cantado por Pierre Lalande e foi resgatada por um filme francês icônico dos anos 2000, “Jet Set”, do diretor Fabien Oteniente. Nas duas versões, a expressão evoca a ideia de autopermissão e de autocuidado. Penso que isso é um dos fundamentos do estar-no-mundo (o conceito heideggeriano, In-der-Welt-sein) contemporâneo.

Fora isso tudo, é preciso perceber que, do ponto de vista psicológico, há uma importância no fato de que a expressão chinesa é enunciada, sempre, na terceira pessoa do singular. Isso permite, ao mesmo tempo, um distanciamento emocional da carga das obrigações e um ato de humor, um rir de si mesmo por meio do qual reconhecemos, admitimos e toleramos nossas próprias fraquezas.

Talvez isso seja uma lição que os jovens chineses podem dar ao mundo…

Certo, tenho muitos alunos, sobretudo na graduação universitária, que já praticam o esporte da autoindulgência – praticamente todos os dias e, alguns, durante a aula inteira – porém tenho alunos, sobretudo de mestrado e doutorado, que, talvez, precisassem se dizer a frase. 

Aliás, laoji, tu também, talvez, precisasses te dizê-la mais vezes…



* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista

Fábio Fonseca de Castro
Fábio Fonseca de Castro é professor da Unversidade Federal do Pará e atua nas áreas da sociologia da cultura e do desenvolvimento local. Como Fábio Horácio-Castro é autor do romance O Réptil Melancólico (Editora Record, 2021), prêmio Sesc de Literatura.

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