Publicado em: 16 de abril de 2026
Eu deveria estar apenas de férias, mas sempre encontro tempo para fugir um pouco delas. Assim foi que saímos para tomar um chá com o professor Xiushue e falar sobre o seu país. Tanto melhor para minha coluna, aqui no portal, que andava abandonada. Agora tenho assunto novo. Supondo que minhas peripécias de férias não tenham nenhum interesse para ninguém (embora rendam boas crônicas na família), não deixa de ser interessante falar sobre o que estou vendo, por aqui, em termos de costumes, organização da sociedade e outras curiosidades.
Bom, esse “aqui” é a China. Marina, minha esposa, e eu, estamos perambulando por aqui este mês. O professor Xiushue, por sua vez, é meu colega. Ele e eu ministramos, cada um em seu país, a mesma disciplina: Planejamento do Desenvolvimento Regional e Urbano. Ele com foco na China, e, eu, na Amazônia, ou melhor, no Trópico Úmido global. É claro que temos muito para conversar.
Eu tinha muitas perguntas a fazer ao professor. Dentre elas: qual a relação entre a experiência histórica de gestão, do Estado chinês, e seu atual modelo de desenvolvimento? Outra pergunta: Qual o impacto ideológico das filosofias chinesas históricas – como o confucionismo e o taoísmo – e também das grandes religiões presentes no país, como o xintoísmo, o budismo e o islamismo, sobre a maneira como as diferentes camadas da população chinesa compreendem o atual processo de desenvolvimento e os discursos do Estado a seu respeito?
Fora essas, eu tinha mais um monte de perguntas, tipo: como a China concilia (ou não) a ideia ocidental de direitos humanos com o seu modelo político? O que significa, exatamente, socialismo de mercado? O confucionismo produziu alguma ideologia sobre a burocracia de Estado que até hoje perdura? Qual a importância da ideia de nacionalismo para o modelo chinês de desenvolvimento? O conceito ocidental de “modernidade” faz algum sentido aqui?
Bom, eu teria mais umas trinta questões desse tipo a fazer, mas não vou aborrecer vocês com as coisas que me intrigam neste país. Só acho interessante dizer, para contextualizar, que o que me interessa, como pesquisador, não são, exatamente, as estratégias de desenvolvimento de um país ou região, mas as ideologias, imaginários sociais, representações, narrativas e usos da ideia de desenvolvimento nas diferentes camadas da população de um território – inclusive por seus políticos, intelectuais e burocratas.
Poupei vocês das minhas perguntas, mas não ao professor Xiushue – a ponto da Marina ter precisado dar dois tapinhas e um toque com o indicador nas minhas pernas por debaixo da mesa – o velho sinal de “menos, Fábio”, há muitos anos pactuado entre nós. Assim alertado, deixei, enfim, o professor Xiushue falar. E ele, como a me ensinar o Tao e o Te, respirou fundo, tomou um gole de chá, pensou um pouco e disse:
– Nem todas as teorias ocidentais do desenvolvimento alcançam, ou explicam, a China. Os espelhos não são recíprocos.
(Uma coisa que já aprendi é que, na China, é de bom tom começar uma fala com o apoio de uma frase aberta e autorreflexiva).
Resumindo o que o professor disse em seguida, todos nós, que pensamos na China, temos que lembrar que ela se constitui como um contexto sociobiológico há 8 mil anos; como civilização há 5 mil anos; como espaço comercial de trocas há 3.800 anos; como Estado há 2.200 e como gestão pública comprometida com a arregimentação de quadros mais competentes para para a burocracia, num processo contínuo, inclusive por meio de concursos públicos, há 1.500 anos – aliás, o registro do primeiro concurso público da China data de 1.535 anos atrás.
– Isso quer dizer alguma coisa em termos de planejamento de Estado, não? – pergunta-me o professor.
Evidentemente que sim. Porém, o que me intriga é perceber a longa duração desse processo, ou melhor, como práticas de mais de cinco mil anos, continuam presentes e moldando as razões práticas do presente.
– O socialismo chinês não é um modelo econômico simplesmente importado, como um bloco de ideias fechado – diz o professor – mas o resultado concreto e dialético da leitura de ideias ocidentais pela nossa civilização.
Em relação ao modelo chinês de desenvolvimento, acho melhor partir do que estou vendo; ou seja, do mundo da vida e da prática. Ao meu redor vejo diferenças sociais, mas não vejo miséria, não vejo gente abandonada e, nenhuma, absolutamente nenhuma, violência (bem entendido que toda violência surge da exclusão e da falta de perspectivas sociais).
Estou em um país que 1,4 bilhão de habitantes (ou seja, sete vezes a população do Brasil), que precisa criar 12,3 milhões de empregos a cada ano, que tem 340 milhões de operários, que tem o maior número anual de greves operárias de todo o planeta, que precisa criar cinco milhões de moradias por ano, que tem que manter escolas eficientes para 230 milhões de crianças na educação básica e para 45 milhões de universitários e que tem que dar comida para 1,4 bilhão de pessoas, que, por sinal consomem em média, cada uma delas, por ano, 300 kg de vegetais, 140 kg de frutas, 130 kg de arroz, 80 kg de trigo, 40 kg de peixes e frutos do mar, 35 kg de carne suína, 15 kg de carne de frango e 8 kg de carne bovina.
E tudo isso organizado pelo Estado (cá entre nós, o mercado é incapaz de dar conta disso sem produzir miséria e violência). Digam se não é fascinante pensar em como isso é feito e em como esse processo é compreendido pelas pessoas.
O professor Xiushue me explica detalhes de tudo isso e me pergunta, igualmente, a respeito de como as coisas ocorrem na Amazônia. Aos poucos, vamos comparando as experiências e entrevendo possibilidades, ausências, soluções em comum.
Sigo tentando entender a China, ainda que vozes, de Belém, tentem me lembrar de que eu estou aqui de férias e que, ao menos na sua ideia clássica, “estar de férias” significa não fazer e nem pensar em muitas coisas… Meus filhos me enviam mensagens: “menos, pai!”. Ocorre que não é possível associar férias a um estado vegetativo-dionisíaco enquanto tanto mundo acontece do nosso lado.
Na verdade, tem muitas coisas, a respeito da China, para além dessas questões sobre o desenvolvimento, que eu queria entender. Por exemplo: por que eles bebem suco de laranja quente? Por que os prédios não têm o 4o andar – colocando duas vezes o 3o? Por que os adolescentes penduram bichinhos de pelúcia nas suas mochilas e roupas? Por que tantas pessoas se vestem com trajes tradicionais e por que a história do país está tão presente na vida quotidiana? Por que tantas placas indicativas e nomes de estabelecimentos estão escritas também em russo? Por que as velhinhas chinesas são obcecadas por furar filas e por que elas furam filas mesmo quando não precisam entrar nas filas? Por que as pessoas (inclusive as velhinhas chinesas) são tão disponíveis e gentis com os estrangeiros?
Bom, para tentar responder algumas dessas questões – que, eventualmente, são também de vossa curiosidade, amáveis leitores – seguem algumas cartas da China.
* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista







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