Publicado em: 30 de abril de 2026
Pequim, a capital da China, enuncia ordem e poder. Prédios monumentais, uma arquitetura contemporânea que se alterna com símbolos e alegorias do passado, avenidas organizadas e imensas, fluxos de pessoas e veículos em todas as direções. Tudo impressiona e parece encenar a potência econômica, social e política da China, mas nada, absolutamente nada, chama minha atenção, tanto, como o perfeito contrário de tudo isso: os hutongs.
A palavra hutong (胡同, hútòng) é um desses vocábulos que impedem a tradução direta. Na prática, são bairros antigos, formados por pequenas casas, fachadas estreitas, com um pátio interno, chamamdo siheyuan e os cômodos dispostos ao redor desse pátio, o que lembra uma “vila” romana, mas em proporções bem menores. Casas coladas umas às outras, em ruas estreitas, ocupadas por moradores antigos. A gente dos hutongs vive nessas casas há muitas gerações. Na verdade, há séculos.
Tal como em outros padrões de aglomeração urbana, ao redor do mundo, a vida comunitária é, nos hutongs, intensa. Há muita solidariedade entre vizinhos, muitas trocas, muita cooperação. No Brasil, compreendemos esse padrão nos termos de “comunidade”, mas, essencialmente, se trata de um aglomerado urbano marcado pela solidariedade.
Diversos deles já foram destruídos, “modernizados”, mas muitos, também, resistem ao tempo. Estima-se que ainda haja cerca de 4.700 ruelas nos hutongs, o que pode parecer muito, mas que é cerca de quarto do que havia há apenas trinta anos. Isso porque o Estado chinês tenta substituí-los por ruas e prédios modernos, tentando substituir a história real da vida comum pela história enunciada das narrativas atuais, peremptórias.
(Por sinal, a maior destruição de hutongs ocorreu há poucos anos, durante a preparação de Beijing para os jogos olímpicos…)
O tema é ainda mais sensível porque os hutongs cresceram ao redor da Cidade Proibida (o centro do poder), formando labirintos de ruelas e becos onde não apenas a vida comunitária resiste à modernização, mas, também, o poder é, e sempre foi, confrontado.
Na prática não são apenas bairros, os ruas, os hutongs, e nem mesmo casas: são unidades associadas de vida social. Nas línguas do ocidente o termo costuma ser traduzido como algo empírico: rua, bairro, casa. Em chinês, aprendo, a palavra é mais fluida e evoca modo de vida. Não se trata, simplesmente, portanto, de um espaço físico, mas de uma forma de organização social.
Pesquisando cá e lá, descubro que a palavra não é han, mas mongol – ou seja, há um fato político que a reveste: a sua origem não-han, ou seja, fora do padrão vernáculo clássico e, portanto, uma palavra que contém certo grau de insubordinação, de insubordinação histórica e social. De fato, historicamente, os hutongs, por mais que cercassem a Cidade Proibida, eram o espaço de toda insubordinação e, nesse sentido, de muita liberdade.
Converso com o senhor Tiyuan, o guia que contratamos para nos acompanhar na Cidade Proibida, que, embora atiçado por minha curiosidade, se mostra, também, temeroso dela, diz-me que hutong é um vocábulo que provém do mogol khudag, que quer dizer poço. E me revela que, durante o tempo da dinastia Yuan (a mítica dinastia mongol que conquistou e governou a China por muitos anos), o termo passou a designar áreas urbanas organizadas em torno dos poços de água partilhados – áreas de partilhas, generosidade e comunhão dos recursos.
Isso sugere algo importante: o hutong nasce como um ponto de vida compartilhada, como um ponto de sociação e partilha de recursos.
Não há como traduzir. Pesquisando nos tradutores da internet, descubro que tentam traduzir hutong, em inglês, como alley, ou lane. Em francês, muito precariamente, como ruelle (melhor seria, penso, sentier) e, em português, como beco e rua estreita.
Nada disso traduz hutong. Essas traduções enfatizam apenas a forma física, ignoram a dimensão social e cultural. O termo “beco”, em português, remete, por exemplo, a algo marginal e perigoso, mas um hutong é o contrário disso, é um lugar habitado, usado, vivo, socializado.
Na língua da antropológica, eu traduziria hutong como um espaço urbano de proximidade social. Ou, ainda, como um lugar de convivência cotidiana. Ora, justamente por ter esse olhar antropológico, que não me deixa desgarrado neste vasto mundo, penso que a intraduzibilidade do termo revela que o hutong é uma experiência social que precisa ser compreendida em si mesma. O termo hutong expressa uma forma de vida que não tem equivalente direto nas categorias europeias modernas.
E isso, penso, tem muito a ver com experiências sociais não-modernas que atravessam a história do planeta, inclusive, e mesmo sobretudo, na contemporaneidade.
Na própria Amazônia, na nossa Amazônia, percebo como experiências sociais comunais se fazem presente, na partilha do espaço e da história. Pois, afinal, onde os europeus falam em “espaço de circulação”, o hutong, e as comunidades amazônicas (guadadas as devidas diferenças), falam em espaços de permanência. Onde a sociologia urbana ocidental clássica fala em anonimato urbano, os hutongs, bem como a experiência social amazônica, fala em proximidade social, em convívio, em estar-junto. E, por fim, onde o referencial analítico-teórico clássico fala em “função”, os hutongs, e nós, no mundo da vida da Amazônia, falamos em “convivência”.
Do que conheço do modo de vida ribeirinho, há coisas interessantes a dizer, em comparação, a respeito dos hutongs: lá as ruelas, e cá os rios e furos, há, em ambos, um regime de tempo: a palavra hutong, como a palavra (no sentido amazônico) “rio”, não remete a fluxo (como “avenida”, “rua”, “boulervard, via”, etc), mas, sim, a repetição, convivência, continuidade. Ou seja, tanto o hutong como o rio não são um lugar por onde se passa — são um lugar onde o tempo se acumula.
O hutong não nomeia apenas um lugar — nomeia uma relação entre espaço, tempo e vida social. De um lado, o tempo compartilhado e, de outro, o tempo como circulação.
(Acho que essas coisas nos reensinam a pensar as cidades).
* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista










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