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Ao caminhar pela cidade de Chengdu, capital da província chinesa de Sichuan, é difícil não pensar em outras regiões do mundo que também vivem a tensão entre centralidade e periferia. A cidade chinesa parece desafiar uma ideia muito antiga: a de que o desenvolvimento acontece apenas em determinados lugares privilegiados, enquanto outros territórios permanecem condenados à dependência.

Essa questão não diz respeito apenas à China. Ela atravessa países continentais como o Brasil.

Mas, antes de desenvolver essa ideia, permitam que eu fale um pouco sobre Chengdu. Trata-se de uma cidade com 21 milhões de habitantes. Algo como São Paulo. A cidade também é frequentemente associada aos pandas, um símbolo nacional chinês, que têm seu habitat natural rm Sichuan. De fato, a principal atração turística de Chengdu é a Base de Pesquisa de Criação de Pandas de Chengdu, um parque natural imenso, no qual se pode ver esses animais e sua vida quotidiana, numa sequência que vai do berçário à vida adulta. Evidentemente que fui até lá. Gostei muito, principalmente do que aprendi a respeito dos pancadas vermelhos, que nem sabia que existiam, mas Chengdu é bem mais que isso, evidentemente. É um dos mais importantes centros econômicos, financeiros, comerciais, culturais, de transporte, pesquisa e comunicação da China. Sua economia é diversificada, caracterizada pelas indústrias pesadas, automóveis, medicamentos, alimentos e tecnologia da informação.

A cidade é atravessada por vias expressas superpostas, todas elas cobertas por camadas de relva e plantas, que criam uma atmosfera peculiar e muito confortável, e sua rede de metrô é incrivelmente bem articulada. Além disso, preciso referir a importância de Chengdu como centro espiritual. Visitei um bairro, nessa cidade, que possui vários mosteiros budistas e, por todos os lados, havia monges, com suas vestes alaranjadas, caminhando na rua, fazendo compras, pegando o metrô, caminhando no meio da multidão e construindo uma quotidianidade que, embora para nós, pudesse, eventualmente, ser sagrada – e, portanto estigmatizada pela ideia do que nós compreendemos como sagrado – é, para eles, apenas a vida do dia-a-dia. 

(Incrível como o mundo espiritual pertence, na China, ao dia-a-dia…).

E, isto dito, retorno ao tema que, acima, comecei a desenvolver, comparando o projeto de desenvolvido da cidade de Chengdu aos projetos de desenvolvimento da Amazônia. Durante séculos, o crescimento econômico brasileiro concentrou-se em alguns poucos polos localizados no litoral ou em suas proximidades. A Amazônia, apesar de sua importância estratégica, ambiental e cultural, quase sempre foi inserida nessa dinâmica de forma subordinada. Produzia matérias-primas, fornecia recursos naturais, absorvia projetos concebidos em outros lugares, mas raramente era pensada como centro produtor de conhecimento, tecnologia ou inovação.

A história de Chengdu sugere uma possibilidade diferente.

Durante muito tempo, a cidade ocupou uma posição relativamente secundária em relação aos grandes centros costeiros chineses. No entanto, o Estado chinês compreendeu que a continuidade do crescimento nacional exigia uma redistribuição das capacidades produtivas, científicas e logísticas pelo território. O desafio não era apenas integrar o interior ao desenvolvimento já existente, mas criar novos núcleos de desenvolvimento.

A diferença parece sutil, mas é profunda.

Integrar uma região significa conectá-la aos fluxos econômicos dominantes. Criar uma centralidade significa permitir que ela própria se torne produtora desses fluxos.

Chengdu não se desenvolveu apenas porque recebeu fábricas. Ela recebeu universidades, centros de pesquisa, infraestrutura logística, investimentos em inovação tecnológica, sistemas de transporte e instituições capazes de atrair talentos de diferentes partes do país. Aos poucos, deixou de ser apenas uma cidade importante do interior para tornar-se um centro de decisão econômica e científica.

Essa experiência convida a repensar a Amazônia.

Durante décadas, os debates amazônicos oscilaram entre duas posições aparentemente opostas, mas frequentemente complementares: de um lado, a exploração econômica intensiva; de outro, a preservação entendida como contenção do desenvolvimento. Em ambos os casos, a região costuma aparecer como objeto de políticas formuladas externamente.

O desenvolvimento policêntrico propõe outra perspectiva.

Em vez de perguntar como integrar a Amazônia aos centros já existentes, a questão passa a ser: como fortalecer cidades amazônicas para que elas próprias se tornem centros de produção científica, tecnológica e cultural?

Nesse cenário, cidades como Belém, Manaus, Santarém ou mesmo Macapá poderiam desempenhar funções análogas, guardadas as devidas proporções, àquelas assumidas por Chengdu no oeste chinês.

Não se trata de reproduzir um modelo estrangeiro. As diferenças históricas, políticas e culturais são evidentes. A questão é outra: reconhecer que regiões consideradas periféricas podem tornar-se polos articuladores de seus próprios processos de desenvolvimento.

O que está em jogo é uma mudança de imaginação geográfica.

Por muito tempo, pensamos o desenvolvimento como um movimento que parte de poucos centros e se difunde para as margens. O desenvolvimento policêntrico inverte parcialmente essa lógica. Ele reconhece a existência de múltiplos centros, articulados em rede, cada um deles capaz de produzir conhecimento, riqueza, inovação e cultura.

Talvez seja justamente isso que Chengdu represente hoje. Não apenas uma cidade bem-sucedida, mas a demonstração de que o futuro de um país continental não depende de um único centro irradiador de poder. Depende da capacidade de construir várias centralidades.

Para quem observa a Amazônia, essa é uma reflexão inevitável. Afinal, uma região só deixa de ser periferia quando passa a ser pensada, e a pensar a si mesma, como centro.



* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista

Fábio Fonseca de Castro
Fábio Fonseca de Castro é professor da Unversidade Federal do Pará e atua nas áreas da sociologia da cultura e do desenvolvimento local. Como Fábio Horácio-Castro é autor do romance O Réptil Melancólico (Editora Record, 2021), prêmio Sesc de Literatura.

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