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A tarde vai se diluindo no ocaso.

A natureza abre o álbum de nuvens multicores e o rosto do anoitecer vai se acinzentando, amarelando, avermelhando, alaranjando e ficando roxo.

A voz da ventania parece espalhar e espelhar nos arredores os rugidos de todas as onças do matagal.

O infinito fica pertinho quando se contempla o sol descansando seu olho de fogo por trás da silhueta da mata.

A noite já vem cobrindo a tarde e a epiderme do rio vai refletindo cada vez mais, o holofote da lua cheia.

Dentro de pouco tempo a noite vai amadurecendo, com as suas sardas de estrelas.

O vento lambe a paisagem e sacode as igarités no rebojo da maresia.

Horas depois, a natureza vai ficando mal humorada.

Nuvens começam a cobrir a lanterna da lua com lençóis de fumaça e a paisagem vai se calando.

Só se escutam jacumãs cavando o banzeiro e o lamentar dos pescadores recolhendo a tristeza e o vazio nas tarrafas.

O terral vai se encorpando e atiça a correnteza que chicoteia o lombo do rio a esbravejar nas margens, com fragor de boiúnas descontroladas.

Pouco a pouco o céu começa a despejar a hemorragia de águas sem freio.
Melhor seria uma chuva de canivetes, que não afogam nem desmontam raízes, sonhos, esperanças ou corações.

…E o temporal rufa os tambores, riscando o firmamento com espadas flamejantes: raios e trovões ameaçam as portas de japá e ensurdecem a barraquinha de palha, que tenta segurar-se, desesperada e sem alternativa, na orla do barranco, para não ser macerada pelos dentes da procissão das águas ferozes do rio Amazonas, nessa noite de tempestade.

O rio vai chupando o barranco. O tejupá começa a escorregar e sucumbe, desfazendo-se na fome da correnteza, abandonando ao relento um casal de caboclos e sua cunhã, repartindo entre si as desesperanças, miséria e solidão…

Quando a manhã vem saindo, os matupiris já estão nadando, tranqüilos, pela orla do rio, como se nada tivesse acontecido.

O Amazonas já bebeu toda a chuvarada e sossega, satisfeito, como as sucuris de barriga cheia.

Estamos na década de mil novecentos e cinqüenta.

Saqueada pelas águas, sem teto e sem chão, sem eira nem beira, aquela família castigada pelas águas resolve mudar o destino.

O pai foi para o garimpo, de onde nunca mais voltou nem deu notícias.

A mãe, depois de entregar a cunhã naquela mansão, também sumiu no mundo sem deixar nem ficar com saudades.

A menina tornou-se uma cabocla bonita, conhecida como Valentina.

Ficou para sempre com a família do Sr.Manoel Francisco, descendente de um português que se enfiou nos interiores da Amazônia, no século dezenove, para desafiar a sorte e, tendo feito fortuna, jamais regressou à pátria natal, tornando-se o tronco de uma samaumeira genealógica que cresceu e se espalhou pela região: Nunca teve filhos com a mulher. Mas ele era um garanhão afamado e um dos “botos” que engravidavam muitas donzelas, rios abaixo e acima.

Valentina ingressou naquele sobrado de paredes de azulejo lusitano, quando não passava das oito invernadas.

Veio fugida das garras da pobreza e das enchentes, para ser cria da casa e ajudar na cozinha.

O tempo foi passando e ela foi ficando. Nunca foi à escola, mas era uma doutora nas ciências culinárias.

Com quatorze anos, quando já podia carregar um pote, perdeu a virgindade, ganhou uma criança e morreu do parto.

Ela nunca se revelou quem era o pai daquele pirralho que nasceu e cresceu no sobrado como gente da família.

Manoel Francisco e esposa serviram de padrinhos e escolheram o nome do menino: Antonio Joaquim.

Papagaios, peteca, peladas nas areias quentes da praia, mergulhos no rio e outros folguedos eram as cortinas que encobriam e disfarçavam a voracidade do tempo “parece-que-foi-ontem-e-já-passou-tão-rápido”…

O menino fez-se adulto e foi abrir um comércio bem sortido, na região do Lago Grande, com ajuda dos padrinhos.

Quando Manoel Francisco e esposa faleceram deixaram toda a fortuna para Antônio Joaquim.

Como não havia sofrido para amealhar aquela riqueza, não sabia o preço.

Conheceu a Mundaia, prostituta que veio do garimpo, cheia de sífilis e de gonorréia.

Apaixonou-se. A mulher, acostumada a muitas camas e redes, logo começou a sair com todo mundo, a gastar dinheiro e a arranjar vários amantes, colocando no pobre Joaquim uma coleção de chifres imensos.

Para tentar disfarçar a dor de corno começou a beber e a jogar baralho.

Dentro de poucos meses estava também sifilítico.

A mulher, o jogo e a bebida acabaram com toda a fortuna que havia herdado.

Ficou na miséria e virou pescador para sobreviver.

Mundaia foi embora com um mergulhador de balsa do garimpo do Pacu e nunca mais deu notícias.

Só, corneado, sem dinheiro, Antônio Joaquim sumiu.

Dizem que foi comido pelas piranhas.

Depois que o Conta Estrelas me narrou essa estória ele me surpreendeu.

  • Sabe mano velho, se eu te disser que minha mãe, a modo, ainda dizia que era prima desse pessoar, eu acho que tu nem acredita, mas é sério, seu minimo…
    E ficou molhando o olhar perdido no azul do Tapajos …
José Wilson Malheiros
Magistrado do Trabalho Aposentado, Advogado, Músico, Poeta, Compositor, Instrumentista, Professor, Jornalista, Diácono e Escritor.

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