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A universidade é portadora de inúmeros sonhos de jovens, sobretudo, para alterarem a trajetória de suas vidas. Isso está para além do senso comum. O pioneirismo da Universidade Federal do Pará em ter proposto na década de 80 o projeto de interiorização, aberto em cinco cidades consideradas polos das regiões paraenses, é representativo do quão relevante foi esta iniciativa para qualificar a formação do capital intelectual a ser a ser introduzida na rede de educação básica, aquela época Primeiro e Segundo grau, dispondo os cursos de licenciatura em Letras, Matemática, Biologia, Geografia, História e Pedagogia, deram o tom de uma extensão do ensino superior público e gratuito até onde parecia inacessível, criando uma vasta transformação nos lugares que foram atingidos por este programa.

Lá se vão mais de 35 anos de inserção da organização social desses territórios que passaram a contar com a presença física da UFPA, ramificando a sua intervenção por esses interiores. No momento mais extraordinário chegou a alcançar mais de 40 pontos de ofertas de curso de ensino superior, causando um satisfatório desejo nos outros municípios que não tinham esta oportunidade pudessem alimentar a ambição de abrigar em seus territórios qualquer semente de nossa instituição. Posteriormente, em muitos outros lugares foi confirmado o estabelecimento de uma unidade UFPA. Esse crescimento exponencial foi cada vez mais alargado com a expansão de outros cursos como, Química, Física, Ciências, Engenharias, Enfermagem, Etnodesenvolvimento até alcançar os tradicionais cursos de Direito e Medicina. Hoje a oferta da UFPA, conforme seu portal de 6/10/2022, é um colosso expressivo, ofertou de 7.188 vagas, além de 192 vagas para atender a inclusão de pessoas com deficiência (PcD), distribuídas em 192 cursos de graduação, nos atuais 12 campi demonstra o crescimento e muito ainda por avançar diante dos quase 70 mil inscritos pleiteando uma vaga. Nossa pós graduação também é robusta com seus mais de 100 cursos de mestrado e doutorado acadêmico e profissional stricto sensu, sendo 18 deles sediados nos campi fora de Belém, sem mencionar as especializações regulares e intermitentes ofertadas; fruto dessa marcha acelerada, corretamente definida como uma estratégia de desenvolvimento regional, calcada na consolidação da formação de um capital intelectual necessário para refletir e propor variados percursos sobre as possibilidades, e quais as alternativas para alterar a relação, ainda vigente, de profunda subordinação em relação ao conjunto do Brasil e aos desafios da mundialização em curso, adicionemos a importância de estabelecermos formas compartilhadas de promoção da preservação e desenvolvimento da Panamazônia.

Neste processo de expansão, a universidade se fez multicampi. Por isso precisamos observar o cuidado para assegurar o crescimento dessas ações considerando as diferentes necessidades. O investimento em cada aluno não é nada desprezível como bem observou o professor Romero Ximenes, entusiasta da interiorização, ao mencionar em diferentes momentos que um estudante que cursou o ensino superior na sua cidade, muito embora ele não tenha assumido propriamente uma atividade vinculada ao seu curso, este teve a oportunidade de ganhar tantas competências que ultrapassam, em larga medida, a importância do objetivo imediato ao qual havia se proposto ao receber a qualificação profissional. Essa percepção fica muito mais saliente quando considerado, por exemplo, um aluno que tenha cursado Ciências Sociais e que continuou a trabalhar na sua atividade originária em paralelo, fosse de pescador, de feirante, de assistente administrativo, de agricultor, de pedreiro, ou outro ramo diferente, este adquiriu a capacidade de questionar e interrogar como os recursos da município são aplicados? Quais são as políticas públicas que têm efetividade para responder os dramas sofridos por comunidades e distritos? Se as propostas de implantação de empreendimentos econômicos são sustentáveis e redistributivas na geração de renda? Até que ponto o modo de produzir a vida das populações tradicionais não está sendo subtraído sem ter as efetivas compensações? Tudo isso serviu a todos que tiveram a experiência de passar pelos bancos da universidade, bem como ofereceu a perspectiva de alavancar sua própria condição e ressignificar sua experiência no mundo, mobilizando sua capacidade crítica para ocuparem postos do parlamento, da administração pública, da justiça, de organizações sociais e empresas privadas, não apenas como técnicos, mas como corpo dirigente na gestão, e às vezes, conformando uma intelligentzia superlativa para redesenhar os caminhos da sociedade.

Isto não estava necessariamente previsto quando do processo de expansão da universidade. Acabou se revelando uma conquista significativa que extrapolou a implantação do projeto de interiorização e solidificou o terreno para implantação das novas universidades. Estamos na expectativa da criação da Universidade Federal do Marajó, da Universidade Federal do Nordeste Paraense, da Universidade Federal do Xingu e da Universidade Federal do Baixo Tocantins, pelo menos.

Se o ensino liderou essa expansão, logo pesquisa e extensão reivindicaram sua participação nesse processo, fazendo com que aumentássemos nossa capacidade de conhecer, formular e intervir sobre a realidade.

Um passo atrás para dois para frente não é apenas um exercício de retórica, representa um efetivo reconhecimento de intervenções geradas anteriormente e que devido a algumas dificuldades de monta não puderam ser colocadas em prática no momento. Refiro-me a tentativa de tornar a UNAMAZ, sociedade civil a agrupar instituições de ensino superior fincadas na Pan-amazônia, um efetivo complexo de organização das universidades, permitindo a elaboração de conhecimento, ciência, tecnologia, inovação, arte e crítica em rede, possibilitando maior substância para as propostas que estão longe de se esgotar na categoria desenvolvimento. Na verdade, são o cerne para melhor explicarmos como os processos historicamente afetam esse nosso bioma comum de nossos oito países: Brasil, Bolívia, Colômbia, Venezuela, Guiana, Suriname, Equador, Peru e a província do ultramar da Guiana Francesa.

As ameaças sobre a preservação da floresta estão pululando por todos os lados e chegou o tempo de reconhecer que algumas saídas não podem ser restritas ao domínio do território nacional, ou correm risco de se esterilizarem no esforço local. Precisamos construir universidades panamazônicas e a UFPA tem muito a contribuir ao revitalizar essa proposição adotando a intensificação de intercâmbio, sobremaneira entre o Pará e os países no qual está a fronteira, efetivando a cooperação em programas que abordem problemas específicos, a efeito de exemplo a questão do extrativismo mineral e agroflorestal nos obriga pensar soluções para não repetimos as insuficiências geradas como foi o caso do sistema de aviamento.

Temos um corpo proeminente para executar esta tarefa em um novo reitorado. Como pré-candidato a reitor da UFPA coloco essa contribuição ao debate para P&D de nossa instituição.

Fernando Neves
Fernando Neves é Doutor em História pela PUC/SP, Mestre em Desenvolvimento Sustentável do Trópico Úmido e Licenciado em História pela UFPA, da qual é Professor Associado, tendo exercido o cargo de Pró-reitor de Extensão, Diretor Executivo da FADESP e Diretor do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas. É membro do Instituto Histórico e Geográfico do Pará e da Sociedade Cinco de Agosto. Atua principalmente nos temas igreja, ultramontanismo, história das religiões, crítica ao desenvolvimento, semiótica, humanidades digitais e teoria da História.

Prossegue a saga do tratamento de lixo em Belém 

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