0

Certo, bem falado falei a respeito do filé à Oswaldo Aranha na edição anterior destas crônicas. E, daí para cá, já aparece quem me cobre dizer algo a respeito da sopa Leão Velloso – o que farei, embora não imediatamente, porque, de imediato sinto mesmo é que deva falar de uma outra sopa: a sopa de pedras.

A história é muitíssimo conhecida. Faz-se presente em todas as culturas indo-europeias, com as devidas variações. Acaso haja quem não a conheça, o conto básico é o seguinte: um casal de mendigos chega a uma vila e, no meio da praça, acende um caldeirão com água. Logo aparece quem indague o que fazem e eles dizem que fazem uma sopa de pedras, o que surpreende o curioso, que nunca ouviu falar de tal iguaria. O casal de mendigos, então, joga umas pedras na água quente e comenta que a sopa de pedras ficaria melhor se tivessem algumas cenouras. O curioso, rapidamente, as providencia. Outras pessoas vêm ver o que se passa e os mendigos vão dizendo que a sopa de pedras ficaria melhor, mais gostosa, se tivessem batatas – rapidamente providenciadas – acelgas, cebolas, coentro, toucinho, alho-poró e pedaços de carne. E tudo vai sendo providenciado, conforme aumenta a curiosidade das pessoas e todos vão se juntando, muito interessados em conhecer o sabor da tal sopa de pedras. Por fim, ela fica pronta. Todos a partilham. E, advinhem… era uma delícia a tal sopa de pedras!

A lição é elementar: caldo engrossado por todos, mesmo que parta de pedras, fica uma delícia.

E muitas são as versões do conto. Na Baviera os dois mendigos são substituídos por um peregrino a caminho de Jerusalém – Der schlaue pilgrim, na versão de Johann Peter Hebel, de 1811. Já em Portugal, a sopa de pedras vem de Almeirim, e existe de verdade. Comi-a em Londres, havendo-a comprado, em grande lata de conserva, num supermercado em Willesden Junction. A embalagem dizia, em bom português: a legítima sopa de pedras de Almeirim. Sua base era uma porção de 1 kg de feijão vermelho mediada por 1 kg de orelha de porco, além de muita cebola, muito alho, louro e azeite.

É preciso entender que “sopa de pedras” significa um alimento abundante feito na penúria, com ingredientes inusitados e generosamente partilhado. Pobre de quem nunca provou; provei-a eu. E estava muito bom.

O que remete a uma outra sopa de grande sustança, o goulash, a sopa de carne, legumes de pimentões vermelhos tradicional da Hungria. Aliás, a Hungria é conhecida por suas sopas, como a halászlé, sopa de peixe; a meglevesh, sopa fria de cereja; o borscht, sopa de beterrabas e o bograch, a muito apimentada sopa de páprika.

Aliás, falar sobre a Hungria remete a Puskás (se pronuncia Púchcas), grande divulgador da comida de seu país e, como se sabe, um dos maiores jogadores de futebol da história.

Certo é que não teria havido futebol brasileiro se, acaso, não tivesse havido a seleção húngara na Copa do Mundo de 1954. E isso porque o esquema 4-2-4 na seleção brasileira, na Copa de 1958 não teria existido se não fosse o esquema WW da Hungria (FU, 2021), de anos antes.

Vou explicar direitinho. Até os anos 1940 se jogava futebol na garra dos jogadores, sem esquemas táticos e até sem treinamento. Aí, de repente, o Arsenal, o time de futebol londrino, inventou um truque: um esquema, o histórico WM, com dois zagueiros, três volantes, dois meias e três atacantes (Fu, 2021). Até aí tudo bem, o esqueminha WM começou na ser seguido por todo mundo, mas, de repente, o treinador da seleção húngara, Gusztáv Sebes, moço muito inteligente, resolveu inventar um outro esqueminha, o WW, marcado por inusitada movimentação de bola e pelo efeito surpresa no ataque (Fu, 2021), colocando um meia-atacante no avanço de centro, o que acabava atraindo os zagueiros adversários, permitindo, com isso, um avanço dos atacantes. E isso com muita preparação física e uma novidade: o esquentamento, antes das partidas.

Bom, esse meia, um falso centroavante, chamava-se Hifegkuti e os dois atacantes eram Puskás e Kocsis (Sciarrota, 2010). E esse trio era um achado! O mais danando deles era Puskás, palavra que traduzida do húngaro significa, apropriadamente, atirador – a não confundir com a puchka, tradicional comida de rua de Calcutá, um puri (pãozinho local, frito e sem massa) com recheio de massa de batata e massala, e regado com o paani, uma espécie de caldo saborizado (para voltar ao universo das sopas, sempre presente por aqui).

Permanecendo, no entanto, no tema do futebol húngaro, cabe dizer que essa trinca inspirou duas coisas maravilhosas da história do futebol: a agilidade de passes de bola na seleção brasileira de 1958 e o “carrossel holandês” de 1974. Alguém já disse que foi com a seleção húngara de 1952 que começou o futebol contemporâneo. Nesse ano, durante as olimpíadas de Helsinke, o mundo conheceu o esquema húngaro, que foi para a final com a poderosa seleção da Iugoslávia, batendo-a por 2 a 0. E, dois anos mais tarde, na Copa do Mundo de 1954, na Suíça, a Copa com a maior média de gols por jogo da história, 5,38 – 140 gols em 26 jogos – os húngaros tiraram do torneio o Brasil, nas quartas de final, o Uruguai nas semifinais mas e foram à final com os alemães, perdendo para estes, no entanto, por 3 a 2 (Estadão, 2018).

Perdendo porque foram roubados! Apenas em 2010 viria à tona o doping de jogadores alemães que, com apoio de seu governo, para essa final dramática, se doparam com injeções de pervitina, uma metanfetamina poderosa, aplicada pelo III Reich nos seus soldados antes dos combates e utilizada pela dita “democrática” república federal alemã pelas décadas seguintes (Deutsche Welle, 2010).

Um caldo tóxico que bateu a todas as sopas húngaras. E, dizendo isso, acabei de lembrar que prometi falar, também, da sopa Leão Velloso. Falei tanto de sopas que esqueci do tema que motivaria a crônica de hoje. Vai ficar para uma próxima vez, porque muito aqui já falamos de sopa. Semana que vem falo sobre ela. Inté.

Fotos: site imortais do futebol – seleção da Hungria (1950-1954)

Fábio de Castro
Fábio Fonseca de Castro é professor da Unversidade Federal do Pará e atua nas áreas da sociologia da cultura e do desenvolvimento local. Como Fábio Horácio-Castro é autor do romance O Réptil Melancólico (Editora Record, 2021), prêmio Sesc de Literatura.

Por Universidade Panamazônica

Anterior

Por que a guerra? Freud explica

Próximo

Vocë pode gostar

Comentários

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *