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Era uma tarde friorenta no bairro da Bela Vista, em São Paulo, naquele ano de 1942, quando a menina Vitória Bonnaiutti De Martino abriu o jornal e leu o anúncio: “Estudantes de São Paulo! Juntem-se a nós! Vamos formar a nossa federação. Venham se inscrever”. Sem entender bem do que de tratava, a menina foi assuntar. Percebeu que o movimento poderia lhe dar oportunidade de fazer aquilo para qual nascera para fazer: cantar. Inscreveu-se. O movimento estudantil criado a partir daquele anúncio acabou conseguindo emplacar um programa de rádio – “A Hora do Estudante” – na Bandeirantes e, nele, a menina Vitória estreou.

Ah, mas mudou de nome. Tinha que se esconder da família, evangélica e que não admitia em casa senão os hinos da igreja. Adotou o nome de Marlene, em homenagem a Marlene Dietrich.

Iniciou-se na clandestinidade. Fez sucesso. Acabou sendo contratada para o elenco da rádio Tupi. E isso tudo sem a família saber. Dona Antonieta, sua mãe, todo dia pregava contra o samba – sem ter a menor que a filha estava se tornando uma das maiores cantoras do país de… samba.

E aí, um dia, para a desgraça geral, a rádio Tupi resolveu fazer um desses real life reports que pecam pela inconveniência: foi visitar, de surpresa, a casa de Marlene.

Dona Antonieta quase teve uma síncope. Expulsou a filha de casa ao vivo.

E o episódio turbinou a carreira da moça. Definitivamente, surgia Marlene, uma das maiores cantoras populares que o Brasil já teve.

Aos 19 anos, em 1943, expulsa de casa, ela tomou o trem e foi morar no Rio de Janeiro.

Começou a cantar no Cassino Icaraí acompanhada pelo piano de Vicente Paiva – o autor de “Mamãe eu quero” e “Disseram que eu voltei americanizada” – e, logo, a convite do lendário Carlos Machado, foi contratada pelo Cassino da Urca. Era só o começo. O Copacabana Palace a disputou encegueirado e a levou. Nele, Marlene encontrou o luxo de um palco com três orquestras, três maestros e onze crooners, dentre os quais grandes nomes da música brasileira nos anos seguintes: Nora Ney, Dóris Monteiro, Marisa Gata Mansa e Ivon Curi, dentre outros.

Em 1948 Marlene foi contratada pela Rádio Nacional e, bem, fez as pazes com a mãe, que veio morar com ela para cuidar da sua carreira…

Cedo marcou um estilo: o de cantora teatral, dessas que gesticulam e jogam os cabelos para o lado. Faleceu em 2014, aos 91 anos. Ao longo da carreira, gravou mais de quatro mil canções e foi um dos maiores mitos do rádio brasileiro, em sua época de ouro. Também atuou como atriz, estrelando doze filmes. Em 1949 venceu o concurso Rainha do Rádio, desbancando as irmãs Linda e Dircinha Batista, que revezavam esse posto havia anos. Foi Rainha do Rádio por três anos, até ser sucedida, em 1952, por Dalva de Oliveira.

Mas cabe dizer que, para vencer o concurso de 1949, Marlene contou com um apoio empresarial forte: a Companhia Antarctica Paulista. A empresa de cerveja estava programando o lançamento de um novo produto, o Guaraná Caçula, e, atenta à popularidade do concurso, conceberam associar a marca à imagem da nova cantora, ainda desconhecida pelo grande público mas bastante comentada nos círculos especializados.

Foi uma das primeiras associações do grande capital empresarial brasileiro a uma artista.

Mas não da sua associação com a arte.

Refiro-me a Ernesto de Souza. Talvez nunca tenham ouvido falar nele, mas foi um nome muito conhecido bem antes dos tempos de Marlene. Sua presença na mídia brasileira iniciou na década de 1910 e continuaria importante por mais 40 anos. Ernesto de Souza foi um sujeito realmente incrível. Era farmacêutico, mas também compositor, instrumentista, teatrólogo e empresário. E uniu todas essas habilidades para fazer uma publicidade envolvente de um produto que ele mesmo inventou e que se tornou um dos marcos, tanto da indústria farmacêutica como do marketing brasileiro: o Rhum Creosontado.

Compôs uns versinhos para esse produto e arranjou de afixá-los nos bondes das principais cidades do país – além de reproduzi-lo, seguidamente, nas rádios brasileiras:

“Veja ilustre passageiro

O belo tipo faceiro

Que o senhor tem a seu lado

E, no entanto, acredite

Quase morreu de bronquite

Salvou-o o Rhum Creosotado”

O impacto desses versos foi imenso no imaginário pop nacional. Alguns os atribuem a Bastos Tigre, outros a Ernesto de Souza – mas se sabe que os dois foram parceiros em diversos textos. Ernento de Souza ficou rico como empresário – o país inteiro tomou, durante uns 30 anos, diariamente, o Rhum Creosotado – e famoso como músico. Construiu um teatro nos fundos da sua fábrica e patrocinou vários artistas, além de compor “cançonetas”, como ele mesmo chamava, que, cheias de ironia, ridicularizavam a elite nacional.

Dentre suas “cançonetas” famosas, cabe lembrar o grande sucesso de “O angu do barão”, “Roda yayá” e “Que calor”, sucessos nas décadas de 1910 e 1920. Mesmo depois do seu falecimento, em 1928, continuou muito conhecido. Seus remédios foram vendidos até os tempos do Estado Novo e hoje nomeia uma rua do bairro do Andaraí, no Rio de Janeiro. Foi pai do poeta Gastão Penalva e avô e bisavô de artistas famosos.

Ah, mas antes de terminar acho que cabe dizer de que era feito o tal Rhum Creosotado, certo? Bom, o creosoto é uma espécie de óleo volátil, pirogêneo, incolor, obtido por destilação do alcatrão. Historicamente, foi muito utilizado como expectorante e como remediador de cárie dos dentes. Por sua vez, rhum, bem, rhum é rum (avinharam, não é?). O gênio de Ernesto de Souza estava em misturar o rum com o extrato de alcatrão.

E, talvez tenham percebido que foi a partir dele que a civilização brasileira inventou o conhaque de alcatrão – o único conhaque produzido fora da região francesa de Cognac e que, até hoje, deixa muita gente tiririca por lá. Pois bem, o conhaque de alcatrão – o conhaque brasileiro – nada mais é do que o rhum creosotado, no qual, geralmente, se mistura ingredientes secretos. A receita oficial desse “remédio” que curava “males do corpo e do coração” teve origem, por sua vez, em 1908, na cidade de São João da Barra. Inicialmente, chamava-se Conhaque de Alcatrão da Noruega e, depois, adotou o nome da cidade onde foi, inicialmente, produzido. Muitos disseram que era a mesma coisa que o Rhum Crosotado, mas com cachaça…

Fábio Fonseca de Castro
Fábio Fonseca de Castro é professor da Unversidade Federal do Pará e atua nas áreas da sociologia da cultura e do desenvolvimento local. Como Fábio Horácio-Castro é autor do romance O Réptil Melancólico (Editora Record, 2021), prêmio Sesc de Literatura.

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