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É corriqueiro, diante de um grande mistério, pessoas fazerem de forma jocosa a afirmação: Freud explica! De fato, ele não tinha resposta para tudo, mas a impressão é que para tudo ele tinha um questionamento. Não sem razão, isso o fez estar à frente de seu tempo em diversos tópicos.

Freud nasceu em 6 de maio de 1856. Vivenciou, portanto, a primeira guerra mundial (1914-18) e morreu em 23 de setembro de 1939, após o vigésimo terceiro dia do início da segunda guerra. A Primeira Guerra Mundial marcou de forma indelével a vida da humanidade. E, diante do aterrorizante cenário que a guerra havia promovido, de acentuado declínio da economia mundial, do agravamento de tensões sociais, da consolidação do totalitarismo e da iminente ameaça a paz mundial, o Instituto de Cooperação Intelectual convidou, em 1932, o renomado físico Albert Einstein para uma troca interdisciplinar de ideias sobre política e paz, oferecendo-lhe a prerrogativa de fazê-lo com uma pessoa de sua escolha. Então, o pai da Física moderna envia a Freud um convite para uma troca aberta de correspondência. O que foi aceito.

O convite a Sigmund Freud não foi desproposital. O pai da psicanálise não se interessava apenas pelas doenças mentais e pelos neuróticos. Era um questionador de toda a civilização. Analisou desde o particular do sujeito até o coletivo. Portanto, um homem de significativa estatura intelectual e que já havia escrito, alguns anos antes, dois artigos sobre o tema: “Pensamentos para os tempos de guerra e morte” e “Sobre a transitoriedade.

O objetivo da discussão seria o de encontrar uma maneira de lograr a paz mundial. As conversas iniciam com Einstein perguntando a Freud: “existe alguma maneira de libertar a humanidade da ameaça de guerra?”. Em seguida apresenta como uma possível solução a associação livre de homens – que implicaria na entrega incondicional por parte de cada nação, em certa medida, de sua liberdade de ação, ou seja, de sua soberania. Esse órgão legislativo e judiciário internacional resolveria todos os conflitos por consentimento mútuo. Entretanto, reconhece que a sede de poder político é, em geral, apoiada por grupo cujas aspirações visam unicamente vantagens econômicas e que, ainda que essa classe dominante seja a minoria, a serviço de suas ambições, subjugam a vontade da maioria, que são os que mais sofrem com a guerra. Intrigado com a forma de agir dos homens, Einstein questiona: “é possível controlar a evolução mental do homem para torná-lo à prova das psicoses do ódio e da destruição?”
Freud respondeu, bem a seu modo: “toda minha vida tive que dizer às pessoas verdades difíceis de engolir. Agora que estou velho, certamente não quero enganá-las.” Foi deste diálogo que surgiu seu texto “Por que a guerra?”, onde de forma bastante honesta lembrou que os conflitos de interesses dos homens sempre foram resolvidos pela violência. No início, era a superioridade da força muscular que determinava a quem cabia a posse ou teria suas vontades satisfeitas. Com o tempo, a força bruta passa a ser substituída pela supremacia intelectual, ao surgirem as armas. Depois, com a percepção que a força superior de um indivíduo podia ser derrotada com a união dos fracos, surge a lei como força de uma sociedade. Porém, ainda é violência, pronta a se voltar contra qualquer indivíduo que a conteste; opera com os mesmos métodos e persegue os mesmos objetivos. O que prevalece então é a violência da comunidade”.

Apesar de Freud acreditar que só será possível evitar guerras se a humanidade se unir para estabelecer uma autoridade central e conferir a ela o direito de deliberar todos os conflitos de interesses, reconhece que as possibilidade são mínimas, pois a dificuldade de uma ideia unificadora e os ideais nacionalistas inviabilizam sobremaneira a concretização. Portanto, substituir a força bruta pelo poder de um ideal está predestinado ao fracasso.
Em um momento mais otimista, Freud deposita suas esperanças no fortalecimento do intelecto e no entendimento da importância de conter os impulsos agressivos. Acreditava haver possibilidade através da educação, de dar condições para que os homens criem pontos de identificação de interesses e, com isso, surja uma “comunidade de sentimentos” que leve à paz. Porém, conclui dizendo não ver chances de suprimir os instintos violentos e estabelecer uma sociedade pacífica. Mas mantém a esperança de que a atitude cultural e o temor das consequências impeçam de começá-las.

O paralelo traçado entre os textos de Freud e a realidade atual mostra que as mesmas questões persistem assombrando o sujeito frente à civilização pós-moderna. Continuamos os de sempre, sofrendo com as perdas por morte ou separações, lançados no desamparo, afogados na angústia, buscando o sentido da vida – especialmente quando deparados com a finitude e atingidos violentamente pelas relações humanas.

O que sabemos é que a guerra já destruiu tantos preciosos bens comuns à humanidade, confundiu tantas inteligências iluminadas, aviltou muito do que é mais elevado do homem e revelou escassez de moralidade e selvageria protagonizada por indivíduos supostamente com elevado grau de civilização, dos quais jamais poderíamos supor tal comportamento. A guerra nos desnuda do “banho de civilidade” e escancara o primitivo que habita em nós. Talvez a iminência da destruição seja a única força transformadora capaz de nos salvar de nós mesmos.

France Florenzano
France Florenzano é psicanalista, pós-graduada em Suicidologia pela Universidade de São Caetano do Sul. Whatsapp: (091)99111-5350 Instagram: psifrance2023

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