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Vou começar pelo ano de 1917, com o governo de Ahmad Shah Qajar. Ano no qual a Grã-Bretanha usou a Pérsia, antigo nome do Irã, como entreposto para atacar a URSS, em uma tentativa fracassada de conter a Revolução Bolchevista, ao que essa respondeu anexando parte do norte da Pérsia. Após a ocupação, os soviéticos estabeleceram concessões humilhantes ao governo, e Shah Qajar foi incapaz de se opor. A fraqueza do governo diante de uma potência estrangeira ateísta, gerou revolta, especialmente da ala tradicional da qual fazia parte o jovem Ruhollah Khomeini, para o qual tudo que se referia a direito das minorias e secularização sempre foi repelido com violência. Por essa e outras razões, com um golpe militar apoiado pelo parlamento (Majlis), Qajar foi destituído do poder enquanto visitava a França e substituído por Reza Shah Pahlavi, nomeado o novo rei do Estado Imperial da Pérsia. 

Reza Pahlavi fez da ocidentalização o principal traço de seu governo. Convicto que os clérigos representavam um estilo de vida arcaico, declarou guerra a eles. Baniu o uso do véu em locais públicos e as vestimentas tradicionais masculinas; eliminou os tribunais de sábios islâmicos; implantou um sistema jurídico aos moldes do ocidente; editou manuais escolares com o intuito de eliminar o Alcorão, livro usado como fonte de conhecimento; construiu muitas escolas particulares laicas e proibiu a população de realizar procissões xiitas e de peregrinar à Meca. Entretanto, uma das decisões do imperador que mais revoltou os fanáticos religiosos, foi um plano de emancipação feminina intitulado “Despertar da Mulher”, com o intuito de convencer a população de que as tradições islâmicas eram entraves para o desenvolvimento social. Foi o primeiro monarca iraniano a visitar oficialmente a comunidade judaica e permitiu que os judeus pudessem construir casas fora dos guetos. Promoveu grandes transformações sociais através de reformas, inclusive econômica; mudou o nome do país de Pérsia para Irã; construíu a Universidade de Teerã e o Banco Nacional do Irã. 

Com a descoberta de petróleo no país, os ingleses e russos viram na recusa de Pahlavi, para que o Irã servisse de base logística às tropas americanas, uma desculpa para invadir o Irã e obrigá-lo a abdicar em favor do seu filho Mohammad Rezâ Šâhe Pahlavi, na época com apenas 21 anos. Mas, somente em 1943 as potências reconheceram a soberania do Irã e, então, o segundo xá da dinastia Pahlavi assumiu o poder. Seguindo os mesmos passos do pai, Mohammad começou com o que chamou de “Revolução Branca”, no intuito de transformar o Irã em uma potência mundial, através da modernização, ocidentalização e estatização de empresas.

              Pahlavi, aboliu o uso do véu em público – como seu pai;  permitiu às mulheres o direito ao voto e a candidatura em eleições locais; implantou novas leis civis, dificultando a poligamia; concedeu às mulheres o direito do divórcio, a possibilidade de obter a guarda da prole e elevou, de treze para dezoito anos,  a idade mínima para meninas casarem. Nesse período, era  possível ver mulheres de minissaias nas ruas de Teerã e frequentando bares. O Irã era o país mais aberto e tolerante do Oriente Médio. Na década de 70 era comum ocidentais vivendo no país. Só em Teerã havia cerca de 50 mil americanos. Existiam até pastores evangélicos difundindo a doutrina.

               Os fanáticos islâmicos vendo nessas reformas a corrupção moral da sociedade, iniciaram um movimento que começou a crescer em Teerã, insuflado pelo aiatolá Khomeini que pregava abertamente uma revolução. Khomeini havia dedicado toda sua existência na defesa de uma interpretação estrita e ultraconservadora do Alcorão. Suas ideias eram completamente opostas ao secularismo iluminista. Sua intenção era regular toda a vida cotidiana. Também era favorável a que meninas casassem a partir dos 9 anos e defendia a pena de morte para quem deixasse de seguir as leis islâmicas. 

Quando Reza Pahlavi iniciou caçada a todos que se opusessem a seu governo, sobretudo aos clérigos, mandando prender e eliminar oposicionistas laicos, comunistas e centenas de mulás, o mais famoso dos mulás, Aiatolá Khomeini, pediu exílio na Turquia. Acusando o xá de corrupção e de se afastar do alcorão, liderou de longe o movimento contra o xá que culminou, no ano de 1979, no que chamou de “Revolução cultural”, que na verdade era uma revolução islâmica altamente retrograda e cruel. 

Obviamente que são muitos os fatores que contribuiram para que culminasse com a revolução islâmica. Mas, optei por me ater a questão cultural a partir das ideias de Freud, lembrando que para ele cultura e civilização são as mesmas coisas e que o termo cultura se refere a tudo que no homem o eleva a uma condição acima dos animais e os diferencía desses. Se por  um lado para Freud a cultura (Kultur) abrange todo o conhecimento e a capacidade do homem de conseguir controlar as forças da natureza e extrair dela o máximo de proveito para satisfazer suas necessidades, por outro lado, abarca todas as instituições necessárias para regular as relações, especialmente no que tange a divisão dos bens acessíveis.  

Dessa forma, a distinção entre homem e animalidade acontece através da apropriação de técnicas de extrair o que a natureza oferece, conquistar bens, mas também, do convívio social. É através das nossas relações sociais quando crianças, com pessoas que compartilham dos mesmos objetivos, interesses, valores e raízes étnicas (raça, ancestralidade, idioma, religião, vestuário, costume, etc) que somos introduzidos no mundo e formamos uma base com a qual nos identificamos. Logo, os círculos se agregam por identificação. Esse incentivo a rechaçar o diferente é a saída que encontramos  para agir de acordo com a nossa cultura, com o nosso narcisismo. Daí criarmos barreiras à demanda do outro, aos valores morais e as convicções políticas, como uma maneira de manter a zona de conforto. 

As pessoas tende a incluir entre as virtudes psíquicas de sua cultura o que lhes é mais caro a ponto de não medir esforço para obter. Esses ideais se estruturam baseados nas primeiras realizações e se concretizam através de uma conjunção das características internas da cultura e do cenário externo. Assim, essas primeiras realizações são elevadas pelo ideal a algo imprescindível. Daí dizer que a satisfação que o ideal oferece é de natureza narcísica. Portanto, o narcisismo é a razão impeditiva de a sociedade melhorar, pois, o desejo é individual. Cada um de nós tem a questão do primitivo muito forte por isso vivemos sempre no conflito.

 A Perda desses parâmetros de identificação, certamente, foram fatores desestruturantes do alicerce psíquico de muitos iranianos. Perceberam-se despojados de uma hora para outra de tudo o que tinham como referencial e foram forçados a se aculturar. Ainda que o confronto com a diferença houvesse produzido novas formas de ver o mundo, ampliando o horizonte, tudo o que foi idealizado por Pahlavi era um desejo seu e de seu pai, não foi dado à população o benefício da escolha. E, o mais grave, foi não haver sido essa cultura ofendida e combatida por estrangeiros, mas, por seu próprio monarca. Era de se esperar que isso gerasse um sentimento de traição na população. Ainda que, sem dúvida,  o governo de Pahlavi houvesse trazido grandes avanços, não foi capaz de imaginar o quanto é difícil ao povo libertar-se de seus valores e convicções.

France Florenzano
France Florenzano é psicanalista, pós-graduada em Suicidologia pela Universidade de São Caetano do Sul. Whatsapp: (091)99111-5350 Instagram: psifrance2023

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