0

Experimente perguntar a uma pessoa o que ela quer da vida, e a resposta dificilmente será diferente disso: ser feliz! Por um lado as pessoas aspiram à ausência da dor e desprazer, por outro, o alvo é a vivência de sensações intensas de prazer. Entretanto, esse desejo de alcançar a felicidade e assim permanecer, nessa exuberância de deleite, que é o sentido estrito do que é “felicidade” para a maioria, só poderia ser alcançado se todos os desejos reprimidos fossem satisfeitos. Mas o mundo nos confronta com a falta e se nega a satisfazer nossas demandas.

A possibilidade de experimentar a infelicidade é mais fluida e está por todos os lados, a tal ponto que alguns já se consideram felizes só pelo fato de haverem escapado de algumas agruras da vida. Daí pessoas optarem pela solidão voluntária. Ora, se o outro é o que me causa mais sofrimento, então, melhor me afastar dele… Triste ilusão, o máximo alcançado será a calmaria.

A questão é que isso que chamamos de felicidade, quando ocorre, apenas nos dá uma sensação tépida de bem estar. Uma das crianças mais felizes que conheci, um dia, por volta dos seus 8 anos de idade, abriu um berreiro dizendo que não queria crescer. A razão veio de forma contundente: “ser adulto é chato!”. Ele se deu conta de que a pressão que os adultos sofrem iria acabar com aquilo que tinha como felicidade. O menino tinha lá suas razões. Com o tempo vamos perdendo a espontaneidade e, para sobreviver, somos compelidos a ceder às coerções da vida adulta. Depois a felicidade vira quase um lampejo.

Se formos fazer uma “caça às bruxas” veremos que alguns culpam os protestantes, e outros, o sistema. Logo, se o sujeito não tem “sucesso”, é porque não é merecedor ou porque é incompetente, improdutivo. Há uma ambivalência no capitalismo. Ao mesmo tempo que gera oportunidade de criação também nos esmaga. E detalhe, consegue colocar a culpa no sujeito. Por isso, vivemos a neurose da produtividade. A ideia “vendida” é que o sujeito precisa ser empreendedor, ver na crise uma oportunidade, colocar sua capacidade produtiva em primeiro lugar e ter uma boa networking, porque amigos já não é importante, o “negócio” é ver e ser visto. Não é à toa que as pessoas vivem mendigando aprovação, elogio, reconhecimento e amor dos outros.

Acontece que felicidade não depende da quantidade de aprovação ou like dos demais e nem do avanço da ciência e tecnologia, visto que, mesmo após chegarmos onde parecia inalcançável, ainda nos deparamos com a falta. Essa sensação de incompletude lembra o personagem Fausto, de Goethe, que vende sua alma a Mefistófeles em troca de conhecimento. Fausto buscava incessantemente compreender o mundo. No pacto, Mefistófeles serviria a Fausto durante toda sua vida, mas, depois o levaria ao inferno. Porém, havia uma condição: se um dia se sentisse completamente infeliz e desejasse que o momento fosse eternizado, o diabo venceria o pacto. Após selado o contrato, Mefistófeles começa a conceder inúmeras coisas a Fausto, como juventude, mulheres, prestígio, dinheiro, poder, etc. Mas nada trazia a plena satisfação. Até que um dia, após ficar cego por castigo dos deuses, Fausto, dominado pela culpa, conscientiza-se dos seus atos e deseja que aquele momento de lucidez perdure para sempre.
​Então não são os ignorantes os mais felizes? Ignorantes ou os iluminados, o certo é que a felicidade não está no excesso de conhecimento, nem de fé, nem de parceiros sexuais, nem de riqueza material. Ela está na subjetividade de cada um.

Freud, em O mal estar da cultura, diz que a felicidade advém da satisfação de necessidades represadas em alto grau. Alguns psicanalistas também dizem que a mãe, no exato momento que toma seu filho nos braços ao nascer, tem essa sensação de completude. O que sabemos é que cada um vai sentir de um jeito e por diferentes razões esses momentos de intenso prazer.​

Acredito que uma das melhores coisas que podemos fazer para, no mínimo, diminuir as chances de infelicidade, é sempre tomarmos nossas próprias decisões. Certas ou erradas, é importante que sejam nossas. Não existe regra para a busca pela felicidade, mas Freud se arriscou a dizer que alguns caminhos podem nos levar a ela. Busque alentar um amor, zelar pela família, dedicar-se a uma atividade com prazer, cultivar amizades e reconhecer que somos seres perfeitos na nossa imperfeição, portanto, suscetíveis de erros. Isso pode nos servir como bússola na grande jornada da vida.

France Florenzano
France Florenzano é psicanalista, pós-graduada em Suicidologia pela Universidade de São Caetano do Sul. Whatsapp: (091)99111-5350 Instagram: psifrance2023

“Tó: Violão Mestre”

Anterior

Enfrentamento à violência nas escolas 

Próximo

Vocë pode gostar

Comentários

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *