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A Escolha de Sofia, filme lançado em 1982, tendo como atriz principal Meryl Streep ainda muito jovem, numa brilhante interpretação que já nos apontava a grandeza de sua estrela e que merecidamente lhe rendeu o Oscar de melhor atriz, é um longa metragem que nos deixa ligados na tela em suas duas horas e meia de filmagem e que pode ser analizado sob vários pontos: sociológico, antropológico, filosófico e psicanalítico. Vou deter-me ao último.
Trata-se de um drama denso e emocionante no qual Sofia, filha de um renomado professor universitário, após seus pais serem presos durante a invasão da Polônia, Segunda Guerra Mundial, é levada junto com seus filhos ao campo de concentração de Auschwitz por ter sido encontrada com um presunto que levaria para a mãe comer, mesmo garantindo que não era judia e seu pai defensor ativo do nazismo. Os momentos de horror passados lá marcaram a vida de Sofia de maneira indelével. Por sorte, consegue sobreviver ao holocausto e, tentando fugir das tristes lembranças, decide reconstruir sua vida em Nova Iorque.

Ao chegar em Nova Iorque conhece Nathan, um judeu americano esquizofrênico atormentado por frequentes delírios persecutórios, com o qual passa a ter uma relação instável, destrutiva e de codependência. Ele, um psicótico que vivia num mundo à parte, e ela recém chegada da Polônia, sem estrutura nenhuma, além de doente psíquica e fisicamente. Atam-se um ao outro em busca de salvação. Ele criando as fantasias e ela embarcando no mundo irreal.
As primeiras cenas mostram um rapaz de nome Stingo chegando à pensão onde Sofia morava com seu namorado. Os três, aos poucos, vão estreitando amizade e, com isso, o jovem sulista aspirante a escritor vai recebendo os respingos das brigas entre o casal. Entretanto, apesar do filme abordar um triângulo amoroso, o tema principal não é o romance, e sim a história pessoal de Sofia. À medida que o drama avança, a história dela na Polônia e sua terrível experiência no campo de concentração de Auschwitz vão dando sentido ao título do filme.
O espectador, a princípio, pode imaginar que se trata de uma narrativa construída sobre mentiras com o intuito de confundi-lo. Mas, com o desenrolar do enredo, podemos observar que se trata de mentiras carregadas de verdades, como a da conversa na qual Sofia confessa que o barulho da máquina de escrever de Stingo trazem recordações felizes da infância onde as noites eram embaladas pelo som do piano da mãe e o ruído da máquina de escrever do pai. Felicidade que foi destruída definitivamente com a invasão da Polônia pelos nazistas e o assassinato de seu pai, em razão de sua luta a favor dos judeus.
O real da história dita por Sofia começa vir à tona quando, após descoberta uma mentira na versão contada em uns fatos sobre seu pai, Stingo pressiona-a. Indagada pelo amigo, mesmo muito constrangida, ela decide falar do sofrimento vivenciado e confessa que sua intenção ao criar diversas versões e mentiras era para se desvincular de um passado trágico e preservar atitudes que lhe causavam vergonha, inclusive a de haver escrito os pronunciamentos antissemitas ditados pelo pai. Mais adiante, em outra ocasião durante um drink com o amigo, Sofia revela toda a covardia e crueza da terrível passagem por Auschwitz. Conta que a caminho do campo de concentração foi abordada por um soldado e, tentando aproveitar a chance que imaginava ter, disse a ele que não era judia e sim cristã, na tentativa de salvar a si e a seus filhos. O soldado, então, utilizando-se de uma passagem bíblica, oferece-lhe o “privilègio da escolha”: escolher com qual de seus filhos ficaria e qual morreria. Ela se recusa a escolher. O soldado pressiona dizendo que se não escolhesse levaria os dois para morrer. Sob intensa pressão, ela escolheu a filha caçula, pois achava que seu filho teria mais chances de sobreviver.
A partir desses relatos, é possível descobrirmos a lógica de funcionamento que amarrava a relação destrutiva que mantinha com o namorado, repleta de constantes humilhações e acusações de nazismo, evidenciada de forma brilhante na cena em que Nathan a acusa com crueldade e ela continua se desculpando e acariciando-o. O quadro escancara a difícil realidade de individuos que não têm forças para sair de relações abusivas porque carregam culpas. No filme, ele fantasia para sobreviver e ela precisa da loucura dele para escapar de sua realidade miserável e amenizar seu sofrimento. Por isso, mesmo diante dos frequentes delírios persecutórios envolvendo-a, mantinha-se paciente e fiel ao namorado.
Nas últimas cenas Sofia e Stingo estão fugindo de Nathan que, num surto psicótico, havia decidido matá-los. Stingo pede Sofia em casamento e promete-lhe uma vida tranquila a seu lado numa fazenda ao sul dos Estados Unidos, apenas cuidando dos filhos. Entretanto, Sofia não suporta a ideia de casar e ter filhos com a única pessoa que conhece seus segredos mais íntimos. Assim, na manhã seguinte, volta à pensão. Mas, não suportando a dor de entrar novamente em contato com suas terríveis lembranças, decide morrer envenenada com cianeto. A cena final, os corpos dela e Nathan abraçados na cama, leva-nos a inferir a simbiose existente entre os dois.
​O título do filme A escolha de Sofia não remete somente à pergunta feita pelo oficial nazista, mas também às escolhas que de forma inconsciente passaram a nortear suas decisões a partir de trágicos acontecimentos. Na trama, o trauma foi de tal intensidade a ponto de embotar-lhe a compreeensão de que não importava quem escolhesse, os dois filhos morreriam, pois a intenção do nazista era tão somente causar-lhe o máximo de desespero e terror. A ferida aberta pela perda de seus filhos fez com que deixasse de perceber a proibição auto imposta de desfrutar qualquer felicidade. A pulsão de morte era tão intensa e, nas palavras de Freud, “realizava seu trabalho discretamente”, que Sofia sequer se dá conta que deixará de ser senhora das suas decisões, passando a viver apenas para expiar sua culpa. Esse “estranho que habita em nós, chamado inconsciente, faz escolhas sem que saibamos.
Nossas vidas, também com frequência são pautadas a partir de eventos que nos capturam marcadamente. É comum sermos afetados por um acontecimento e a partir dele passamos a agir ou reproduzir comportamentos, bem como aceitar e permitir ingredientes que provoquem sofrimento com o intuíto de purgar o imaginário erro, culpa ou covardia. Muitas vezes “mentiras” são apenas formas de tamponar intensos sofrimentos. São arranjos que precisam ser feitos para conseguirmos sobreviver a uma realidade da ordem do insuportável. As fantasias servem como recursos utilizado pelo inconsciente para escapar daquilo que nos faz entrar em contato com uma profunda dor.
De acordo com Freud, “o indivíduo não recorda coisa alguma do que esqueceu ou reprimiu, mas expressa-o pela atuação ou atua-o. Ele reproduz não como lembrança, mas como ação, repete-o, sem naturalmente, saber que o está repetindo”. O esquecer se torna ainda mais restrito quando examinamos o valor das lembranças encobridoras que, em geral, se tornam presente.
​A verdade é que nem todos fatos inesquecíveis se referem à dias felizes. A atrocidade também invade a memória e nos faz reféns do passado, fazendo com que habitemos um presente que não se reduz ao aqui-e-agora, mas a um passado que mesmo recalcado não cessa de se impor.

France Florenzano
France Florenzano é psicanalista, pós-graduada em Suicidologia pela Universidade de São Caetano do Sul. Whatsapp: (091)99111-5350 Instagram: psifrance2023

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