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A comida tem um peso enorme em nossas vidas. Os que já experimentaram viver em outro país, com certeza, concordarão comigo que a coisa que mais sentimos falta é da nossa comida. Quem nunca sentiu aquela vontade de comer pupunha, castanha do Pará ou tapioquinha com um café no meio da tarde, mas estava quilometros de casa? Porém, se a comida tem tamanha importância, o que vem ocorrendo que já não escolhemos o quê e quanto comer?

A indústria de alimentos nos bombardeia com produtos embalados em forma de saúde. Mas, será que podemos realmente chamá-los de alimento? As prateleiras nos seduzem com uma gama de “alimentos” ultraprocessados, compostos basicamente por açúcar, sal e gordura. E porque precisam de textura, extraem a proteina de uma leguminosa, em geral da soja que é mais barata, agregam a esses isolados proteícos uma tecnologia mega sofisticada, além de aditivos para torná-los super palatáveis, coloridos e aromatizados; colocam em embalagens fáceis de transportar e abastecem dos supermercados às farmácias, de forma que estarão sempre ao alcance dos olhos e das mãos.

Segundo pesquisadores do NUPENS (Núcleo de Pesquisa Epidemiológicas em Nutrição e Saúde da USP), por serem constituídos de parte de alimentos, dificultam a identificação pelo nosso organismo, deixando-o  desorientado, bem como alteram alguns hormônios relacionados com a sensação de saciedade, incapacitando o mecanismo de controle do apetite. Daí algumas pessoas comerem em poucos minutos, por exemplo, uma caixa do biscoito Bis. O assustador é que esses alimentos representam atualmente quase 40% na alimentação e seus efeitos se evidenciam nos resultados da pesquisa nacional de saúde de 2019, apontando que 6 em cada 10 pessoas têm sobrepeso ou obesidade.

Quem ganha com a obesidade? O que está por trás dela? O Brasil é o segundo país do mundo em cirurgias bariátricas. E para facilitar o procedimento, a lista de comorbidades que justificam a cirurgia aumentou. Eram 6, hoje são 21.  Antes, era usado como indicativo o IMC (índice de massa corporal) acima de 40 ou 35 para comorbidades como diabétes tipo 2, apnéia do sono e hipertensão. Atualmente inclue hérnia de disco e infertilidade. Mas, também estão levando em conta a estigmatização e a  depressão. Portanto, em alguma variável a pessoa há de se encaixar para realizar a bariátrica.

Chegamos, então, no corpo gordo estigmatizado e patologizado, que agora passará a ser bombardeado pelo discurso social de um padrão de beleza inalcançável. E novamente, lá está a indústria farmacêutica e alimentícia com a oferta de produtos capazes de modelar esse corpo que é “imperfeito” e que precisa ser modificado para tornar-se objeto de desejo do outro. Na sociedade do consumo o sujeito vira mercadoria. A pessoa se confunde com a coisa.

Entretanto, não é possível falar do corpo gordo sem falar da gordofobia. O sujeito só é saudável se estiver magro. Mas, não basta ser magro, é preciso também ser jovem. A juventude é essencial para um corpo perfeito. O sujeito só é valorizado se envelhecer sem os traços da velhice. O estereotipo do sujeito bem sucedido, saudável e inteligente é: magro, mas com massa muscular evidente; dentes mais que perfeitos; boca carnuda; nariz arrebitado e rosto sem rugas. É a estetização da saúde. Não basta coisificar é preciso também padronizar.

O ideal de beleza contemporânea se reporta ao ideal de corpo perfeito das esculturas gregas, só que não em esculturas. Dessa forma, qualquer sobrepeso remete ao não pertencimento e a experimentação da angústia. Não tendo a angústia representação, visto que é uma resposta a um perigo interno, relacionado a conflitos inconscientes, provavelmente, todas as vezes que a pessoa se sentir atravessada por ela, utilizará a comida como um recurso. Por isso, não raramente, ouvimos alguém dizer depois de um dia difícil: “vou comer aquele pedaço de torta de chocolate porque eu mereço!”.  A pessoa não percebe que faz um deslocamento de uma questão emocional para a comida, encobrindo uma forma de punição com aquilo que parece uma compensação.

Precisamos pensar mais profundamente sobre o que comemos. Há muito somos manipulados através dos nossos corpos pelos discursos culturais, étnicos, simbólicos, políticos, religiosos e econômicos. Ingerir um alimento é garantir a própria sobrevivência e a da espécie. A comida sustenta a vida em comunidade. Mas, também funciona como mecanismo de controle do corpo, com códigos de conduta e padrões de comportamentos que causam as mais variadas formas de adoecimentos, desnudando uma sociedade marcada pela valorização do individualismo, narcisismo, hedonismo e consumo.

France Florenzano
France Florenzano é psicanalista, pós-graduada em Suicidologia pela Universidade de São Caetano do Sul. Whatsapp: (091)99111-5350 Instagram: psifrance2023

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