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C A U Ê (Ficção)

Às quatro horas de uma tarde preguiçosa encontrei o meu amigo Conta Estrelas.

Fomos tomar a melhor garapa do mundo na Garapeira Ypiranga e combinamos nos encontrar de noite, no Bar Mascote, para molharmos as palavras com uma cervejinha moderada, como fazem os amigos.

Ele sempre tinha uma boa estória para me contar.

Depois que o garçon Ligeireza nos serviu na mesa, ele tomou um gole e ficou inspirado.

Conversa vai e vem e então me contou esta estória.

Humberto veio do Rio de Janeiro e chegou a Santarém trazendo considerável soma de dinheiro, para investir nos garimpos da região do Tapajós.

Cauê era gerente de banco e vivia reclamando do calor, da vida arrastada, da falta de opões para lazer etc.

Quando já estava de transferência praticamente consumada para o Rio, chegou o irmão endinheirado.

Resolveram montar uma sociedade comercial, onde o primeiro entraria com o capital e o segundo com seus conhecimentos burocráticos e administrativos.

Cauê vendia, tomava conta do caixa, dos talões de cheque, dos extratos bancários, fazia pedidos de mercadorias, controlava estoques, pagava, recebia etc.

Humberto não parava de dizer:

– Ó mano, se quiseres fazer futuro na empresa, tens que dar duro. Vais trabalhar até no domingo pra mostrar que tens dedicação e competência… Afinal de contas apostei em ti… É bom que tu retribuas… Agora tu és patrão e não tens mais horário de trabalho… Aqui não é o Rio de Janeiro, não.

Algemado no balcão, o boêmio Cauê vivia triste e de asas podadas.

Os dias escorriam mais preguiçosos do que os mururés na maresia do rio, ali na frente da cidade.

Aos poucos, entretanto, outra paisagem, nova e diferente, começava se desenhar e se infiltrar na alma e nos olhos de Cauê.

Quando começou a viajar de avião teço-teco monomotor para o garimpo foi descobrindo, lá de cima, que a Amazônia era uma sinfonia colossal.

Aprendeu a sentir que as aquarelas do lugar tinham quebrantos e exalavam ritmos, cores e melodias de beleza quase desconhecida.

E foi entrando no compasso do amor e do fascínio.

As madrugadas do verão em Santarém evocavam, sem qualquer exagero, certos perfumes de Paquetá, no Rio de Janeiro… Ou vice-versa.

Elas eram pintadas com estrelas, luares, saudades, serestas, rimas, violões e piracaias.

A vida naquela cidade tinha lá seus feitiços, seus estados d’alma de inevitáveis paixões pela terra, pela gente e pela natureza.

Até a rotina do balcão já estava se transformando, pouco a pouco, em uma penitência suportável.

Certa manhã aparece na loja alguém que magnetizou, de saída, o balconista.

Tinha os cabelos negros da mãe d’água, o olhar esverdeado das águas de Alter-do-Chão, feições e porte que, no conjunto, faziam lembrar uma deusa… Que nem aquelas estátuas de mármore dos museus… Talvez as mulheres da lenda das Amazonas.

Ela pergunta, com sotaque estrangeiro:

–        Vocês têm aqui mercadoria para garimpo, non?

E Cauê, sem tirar os olhos da forasteira:

–        Sim, temos… O que vai querer?

A mulher alaga a prateleira com o olhar e pergunta:

–        Vocês… Vender fiado?

Cauê quase disse que sim, mas lembrou-se da recomendação do irmão:

– Infelizmente, dona, nós não podemos vender fiado. Não neste momento…

E ela:

– Deixa pagar na volta… Eu levar coisas. Vende no garimpo, ganha dinheiro e vem pagar moço bonito, direitinho…

Cauê suava frio. Aquela mulher possuía um ímã na voz e no semblante. O devaneio começou a trabalhar:

– Ela me chamou de moço bonito. Tão linda assim, essa mulher não pode ser vigarista. O que será que ela tem que eu estou tremendo?… Um fogareiro esquisito se acendeu dentro de mim, agora… Eu nunca me senti, assim, antes… Pensando bem de onde essa dona apareceu?… Nem vi quando ela entrou na loja… Eu estava de cabeça baixa, lendo este jornal e quando me espantei ela já estava na minha frente…

A forasteira insiste, lançando seu charme felino:

– Como é, moço bonito… Vai deixar levar mercadoria?… Pago depois, quando voltar garimpo… Deixa, deixa… Por favor…

Cauê estava meio apalermado:

– Tudo bem, madame… Como é o seu nome?

Os lábios fatais sorriram, sabendo que já eram donos do devaneio do balconista:

–        Palmira!

Ele quase desmaia. Teve ímpetos de dizer: Pega, Palmira e leva tudo o que quiseres… Depois a gente vê como irás pagar… Aliás, nem precisa se preocupar com pagamentos…  Eu pago tudo, faço tudo… Fica, fica comigo, Palmira… Não vai embora praquele fim de mundo…

Quando ele despertou do delírio a freguesa já havia ido embora.

Nervoso, murmura:

– E agora?… Ela levou grande quantidade de mercadorias, esvaziou as prateleiras, não pagou nada, nem disse pra onde ia, nem quando vai voltar… Deus do céu!…

Horas depois Humberto entra na loja:

– Que é que você tem meu irmão? Está pálido, esquisito… Você está bem?Cauê disfarça:

–        Não é nada, não… É só uma indisposição passageira…

Humberto examina a loja e exclama, sorrindo:

–        Muito bem… Essas prateleiras…

O balconista parece embaraçado:

–        Prateleiras?… Ah, sim… Pois é, né?

O irmão-sócio continua revistando o ambiente:

–        Tudo arrumadinho, ambiente limpo, prateleiras com sinal de boas vendas…

Cauê mal disfarça o temor:

–        Cheias? Como… Como é?… Cheias… Estão cheias, né?

Humberto se retira.

Uma semana depois Cauê desaparece.

Procura daqui e dali, uns dizem que ele morreu afogado no rio Amazonas, outros sugerem que foi comido pelo bicho do fundo, quando saiu para tomar banho de rio, depois do almoço etc, etc…

Contrataram até mergulhadores para vasculhar o fundo do rio, em frente à cidade, sem resultado algum.

Certo dia Humberto é chamado ao banco:

– Doutor, nós estamos estranhando…

E ele, tomando cafezinho:

– Estranhando o que, homem de Deus?

Cliente e gerente conversam:

–        A sua firma… Tem alguma explicação?

–        Explicar o que, rapaz?

–        O saldo médio de vocês… Está zerado… A empresa sempre foi um ótimo depositante, mas de uns tempos pra cá…

–        Sim, sempre depositamos nosso dinheiro aqui no teu banco… Algum problema?

–        Doutor, nós estamos com mais de vinte dias que ninguém deposita nada na conta de vocês e ainda rasparam poupança e tudo.

–        Está me dizendo que deram desfalque na nossa conta corrente aqui no banco?

–        Acho que sim… Fizeram dois cheques grandes…

–        E aí secaram a conta…

–        Isso mesmo…

–        Ah! Patife…

–        O que?

–        Nada, não… Estou falando sozinho…

Humberto, segundo nossos arquivos só quem movimenta a conta da firma, além de você é o seu irmão, o Cauê…

–        Isso mesmo…

–        Quer dizer que…

–        Deduziste certo. Não há outra explicação.

Cauê foi embora para o garimpo, na região de Itaituba, em busca da mulher misteriosa que o enfeitiçara no balcão da loja.

Lá chegando, procurou Palmira e ninguém a conhecia.

–        Nunca vimo essa tal mulé, por aqui, não sinhô!

Apaixonado, ainda chegou a percorrer uns três ou quatro garimpos, sem sucesso.

Em pouco tempo o baralho sugou todo o dinheiro que levara.

O menino bronzeado das praias do rio, o gerente de banco respeitado, freqüentador dos chopinhos da zona sul carioca, agora trabalhava como garçon no cabaré “Curral das Égua”, esquecido no meio da mata amazônica.

Bebia mais do que os fregueses. Aprendera com os garimpeiros que na falta da cachaça, podia tomar biotônico, perfume, álcool puro, qualquer coisa servia.

Murchava, pouco a pouco, de malária, tuberculose, alcoolismo e fome.

Estava endividado nas bancas de jogo. As prostitutas pagavam, vez por outra, um prato de comida.

Tentou ser mergulhador de balsa, mas o fôlego não ajudava mais.

O mais grave era que uma das oito mulheres do Chico Fedegoso, dono de várias balsas nos garimpos, uma piauiense de mais ou menos dezesseis anos, a favorita, vivia se insinuando para ele e o marido, nos seus cento e poucos quilos de banha e ferocidade, já estava desconfiado.

Fedegoso tinha fama de pistoleiro.

Costumava dizer:

–        O bicho mais milhó de se matá é o homi… Os viado corre, as onça corre, as capivara corre e os homi, não… Fica tudo paradinho… Quietinho, esperando as bala do meu revólvi…

Certa noite, depois do jantar, sentado na cadeira de embalo, na porta de casa, apreciando o luar, Humberto escuta a mensagem pelo rádio:

–        “Alô, alô, familiares do senhor Cauê Anastácio, avisamos que o mesmo faleceu ontem no garimpo, vítima de tiro. Não se sabe quem é o matador. Quem ouvir esta mensagem, favor retransmitir aos destinatários”.

Cauê ainda teve sorte. Garimpeiro quando morre comido por onça, de malária, de tiro ou de faca, é enterrado por lá, mesmo. Sem reza, sepultura ou mensagem de rádio.

Vai para a vala comum ou é jogado no rio, para alegria dos peixes comedores de cadáveres.

Depois cai no esquecimento…

Humberto Anastácio mandou buscar os despojos do irmão num avião teco-teco, que também trazia pepitas de ouro e balata.

Cauê foi para o cemitério, numa rede carregada por alguns amigos que vieram junto com o corpo, no avião monomotor.

Antes dos restos mortais do irmão descerem para a sepultura, Humberto murmurou bem baixinho, chorando:

–        Meu mano Cauê, já não me interessa se tu furtaste o dinheiro da firma…  Não faz mal… Eu fiquei com oitenta por cento da tua parte na herança do papai… Nunca soubeste desse fato… Com esse dinheiro sujo eu vim arriscar fazer fortuna aqui. Agora eu te confesso… Perdoa-me… Agora tu tens cem anos de perdão…

O fantasma de Cauê, que acompanhava o féretro, invisível para os presentes, escutou aquela confissão, deu um leve sorriso, virou de costas e seguiu rumo ao desconhecido.

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