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Em tempos de eleição, é comum que pré-candidatos explorem as vulnerabilidades das cidades para, ao expor seus problemas, apresentarem-se como solução. Muitas vezes, fazem isso de forma tosca — quem não se lembra do “eu sou apenas um repórter”? E, à medida que nos aproximamos de mais um pleito, a cena se repete.

Desta vez, porém, Belém ganhou protagonismo nacional. Isso ficou mais evidente com a vinda do pré-candidato à presidência Renan dos Santos, que percorreu a capital e outras cidades do Pará apontando problemas que nos acompanham há décadas.

Para ser justo, Renan apresenta propostas, como, por exemplo, um grande programa de desfavelização. A questão é saber se as soluções são tão simples quanto ele as faz parecer. Iniciativas semelhantes já foram tentadas, mas, por se tratar de um problema de raízes sociais e econômicas profundas, nunca se conseguiu, de fato, desfavelizar plenamente essas áreas.

O geógrafo Milton Santos ajuda a compreender esse quadro ao afirmar que há três tipos de brasileiros: os que se servem do Estado; os cidadãos, que têm alguns direitos e muitos deveres; e aqueles que nem cidadãos são. Neste último grupo estão as pessoas que precisaram conquistar, com sua própria força, um lugar para morar. Daí surgem as favelas.

É evidente que o debate eleitoral não é técnico. As narrativas são empacotadas de forma simplista, apontam inimigos e prometem soluções. Dito isso, Belém não está como está por causa dos Barbalhos, como Renan sugeriu. Ao mesmo tempo, apontar os problemas da cidade não torna o pré-candidato xenófobo, como afirmou recentemente um vereador na tribuna da Câmara. Essas acusações fazem parte do jogo eleitoral, mas resolvem nossos problemas?

A verdade é que, em Belém, normalizamos o anormal: o lixo acumulado, as marcas do CV pintadas, a precariedade habitacional e tantos outros sinais de abandono. Portanto, nobre vereador, se a intenção é defender nossa cidade, cuide para que um pré-candidato à Presidência não tenha nada a dizer sobre ela.

Por enquanto, porém, Belém não está nada bem, Renan.

Acilon Cavalcante
Arquiteto e urbanista apaixonado por cidades, histórias e pessoas. Tem mestrado em Artes, mestrado em Arquitetura e é doutorando em Mídias Digitais pela Universidade do Porto. Premiado em projetos de planejamento urbano, já atuou com governos e ONGs no Brasil, Canadá e Portugal, sempre conectando urbanismo, design participativo e sustentabilidade. Gosta de transformar dados em ideias e ideias em cidades mais humanas.

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