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Certa vez, meu filho me perguntou se éramos pobres. Respondi com outra pergunta. Apontei para um homem em situação de rua e disse: “Se eu fizer algum mal a ele, vou ser punido?” Ele respondeu: “Com certeza.” A conclusão veio: “somos pobres.”

No Brasil e, de forma mais ampla, na América Latina, há uma tradição de desumanização de determinados corpos. O episódio recente de estudantes que se divertiam dando choques a pessoas em situação de rua não é um fato inédito, nem o mais cruel.


Lembro quando o indígena pataxó foi queimado vivo em Brasília. À época, os responsáveis alegaram que, como atenuante, pensavam tratar-se de um morador de rua. Isso me deixou com uma percepção horrível sobre a juventude de Brasília, pois acreditava que Belém estava imune a esse tipo de crueldade. Na verdade, eu estava enganado; isso porque existem pessoas que aprendemos a não ver.


Ao longo dos anos, acumulamos casos similares, em que os crimes ficaram sem solução por conta da influência da família dos criminosos. Mas a violência naturalizada não é apenas um problema social; é também uma consequência do modelo de cidade. Está incorporada à própria forma. Está no desenho das ruas e nas escolhas aparentemente técnicas que moldam o cotidiano: faixas de pedestres atravessando vias de três pistas; asfalto que chega às periferias como substituição da vida pelo fluxo de carros; ciclovias implantadas onde não há calçada.


Cada decisão nos coloca em disputa permanente pelo espaço. Moradores de rua contra estudantes, ciclistas contra motoristas, pedestres contra tudo. A cidade deixa de mediar relações e passa a tensioná-las.


A questão central é que essa hostilidade não faz parte da nossa natureza, pois a indignação diante da violência gratuita ainda existe. Isso indica um limite. Existe uma fissura entre o que a cidade nos impõe e o que ainda conseguimos reconhecer como inaceitável. Mas enquanto uma mudança não ocorrer, a pergunta sobre ser pobre continuará a ser respondida da mesma forma. Não pela renda, mas pela forma como a vida é tratada.

Acilon Cavalcante
Arquiteto e urbanista apaixonado por cidades, histórias e pessoas. Tem mestrado em Artes, mestrado em Arquitetura e é doutorando em Mídias Digitais pela Universidade do Porto. Premiado em projetos de planejamento urbano, já atuou com governos e ONGs no Brasil, Canadá e Portugal, sempre conectando urbanismo, design participativo e sustentabilidade. Gosta de transformar dados em ideias e ideias em cidades mais humanas.

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