Publicado em: 7 de maio de 2026
Lembro que, no início dos anos 2000, observava pela primeira vez com atenção a praça da Sereira, na Presidente Vargas. Naquele momento, restaurada pela SOL Informática. Eu ainda não compreendia a força daquela iniciativa, onde empresa privada entrega um espaço público qualificado, numa cidade onde é raro vermos empresas cuidarem sequer da própria calçada.
Anos depois, na Braz de Aguiar, houve uma iniciativa de adoção de canteiros por empresas. Também não prosperou.
Com o tempo, ficou claro que o caso da SOL era exceção. E havia uma razão. Um dos sócios transitava no meio artístico e era alguém com afeto pela cidade.
Mas isso basta para concluir que os capitalistas não amam a cidade?
Antes, é preciso esclarecer que nem todo empresário é capitalista, nem todo capitalista é empresário. A maioria dos empreendedores está ocupada sobrevivendo à burocracia da máquina estatal de moer sonhos.
Capitalistas, por outro lado, operam com capital acumulado. Investem para multiplicar rendimentos. E as cidades são o ambiente ideal para isso.
No entanto, existem cidades onde esse processo costuma gerar retorno urbano. Parte dos ganhos volta na forma de equipamentos públicos, investimentos sociais ou filantropia. Há interesse de imagem, evidentemente, mas também pertencimento. Quando isso ocorre, forma-se um ciclo em que cidade e capital se retroalimentam.
Feito esse enquadramento, pode-se concluir que não, os capitalistas de Belém não a amam. Um sinal disso está no padrão imobiliário. Enquanto no Porto, casarões antigos são convertidos em habitação, preservando patrimônio e requalificando áreas. Em Belém, o padrão ainda é demolir 4 ou 5 lotes e erguer uma torre isolada por muros.
Mas a responsabilidade não é exclusiva.
Uma das causas está na regulação e na burocracia, que encarecem o investimento e pressionam pela maximização de retorno. Desta forma, em uma cidade onde a câmara é formada por “despachantes de luxo”, e no caso da oposição, por “militantes remunerados”, não são apenas os capitalistas que não amam Belém.
O amor pela cidade provavelmente ficou para trás. Provavelmente lá nos tempos da SOL Informática.





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