Publicado em: 22 de junho de 2026
Sob o asfalto, as praças e os casarões coloniais de Santarém do Pará, que hoje (22) completa 365 como cidade, repousa uma das páginas mais fascinantes — e ainda subestimadas — da história das Américas. Séculos antes de os jesuítas estabelecerem a Missão dos Tapajós, a foz do rio Tapajós já era uma metrópole da floresta. Longe de ser o “vazio demográfico” ou a “natureza intocada” que a historiografia eurocêntrica romantizou, o território abrigava a cultura tapajônica, uma sociedade de complexidade política, densidade demográfica e refinamento estético que rivalizava com os centros urbanos da Europa medieval.
Pesquisas arqueológicas confirmam o que os primeiros cronistas espanhóis, como o dominicano Gaspar de Carvajal em 1542, já sugeriam com espanto: a região do Baixo Amazonas era densamente povoada. Estima-se que milhares de pessoas habitavam a grande Aldeia dos Tapajós, o centro político e econômico de uma vasta rede de cacicados interligados.
O território era profundamente estruturado. Estradas largas e bem delineadas cortavam a mata, conectando a aldeia central a assentamentos satélites no interior e nas várzeas. Longe de apenas coletarem o que a natureza oferecia, os povos tapajônicos domesticaram a paisagem. O maior testemunho desse manejo sofisticado é a presença de extensas manchas de Terra Preta (antropogênica) — solos de altíssima fertilidade criados pelo descarte planejado de biomassa, carvão e resíduos orgânicos ao longo de gerações. Esse modelo agrícola sustentável permitia fixar populações massivas em assentamentos permanentes, subvertendo a tese tradicional de que o solo amazônico não suportaria grandes civilizações.
A monumentalidade da cultura tapajônica começou a ganhar contornos científicos definitivos na década de 1920, graças ao olhar obstinado do etnólogo e arqueólogo teuto-brasileiro Curt Nimuendajú. Ao mapear e escavar os sítios da região ele revelou ao mundo a singularidade da cerâmica Santarém. Diferente da geometrização simétrica da cultura marajoara, a tapajônica é celebrada por sua exuberância plástica e tridimensionalidade. Trata-se de uma arte de extrema sofisticação técnica, caracterizada pelos vasos “gargalo” e “cariátides”, peças sustentadas por pequenas figuras humanas ou antropomorfas. O naturalismo e a profusão de detalhes de sua iconografia, que funde elementos humanos a animais da fauna amazônica (jacarés, onças e urubus-rei), demonstram virtuosismo artesanal e uma cosmologia complexa.
Para além das funções utilitárias ou do comércio que fluía pelos rios da bacia amazônica, a cultura material de Santarém estava intrinsecamente ligada ao universo espiritual. O coração ideológico e social dessas comunidades batia sob a liderança dos xamãs, que atuavam como pontes entre o mundo visível e o invisível, os vivos e os ancestrais. Documentos etno-históricos relatam que os Tapajós mumificavam os corpos de seus líderes e antepassados ilustres, preservando-os em recintos sagrados onde eram consultados em rituais xamânicos. Muitas das peças de cerâmica sobreviventes, como pequenas estatuetas sentadas e os cachimbos ricamente decorados, eram instrumentos de uso ritualístico, destinados ao consumo de plantas sagradas e substâncias psicoativas que permitiam ao xamã transcender o corpo físico, metamorfosear-se em animais de poder e garantir o equilíbrio ecológico e político do cacicado.
A ancestralidade milenar de Santarém do Pará impõe uma revisão urgente da história do Brasil. Compreender a cultura tapajônica não é apenas um exercício de erudição arqueológica, e sim o reconhecimento de que a Amazônia já foi o berço de uma das maiores experiências de urbanismo tropical do planeta. Preservar os sítios arqueológicos que ainda resistem sob o avanço urbano contemporâneo é dever de soberania histórica, garantindo que as vozes daquela que já foi uma das mais vibrantes sociedades das Américas continuem a ser ouvidas.






Comments