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A saliva do incêndio

Aqui, com várias cicatrizes da vida, ela segue a suturar silêncios. Perdido em uma escrita de um poema impossível, eu sondo reescrever meus abismos. 15h e o deserto da tarde, uma palavra sem rosto, o céu-carvão, um bar incerto, a cidade submersa. À margem da terra úmida a ocultar restos de pele, em nossos corpos a memória de uma floresta arde a língua de uma ausência, a falta de um corpo, a falha de um corpo. Entre mim e a mulher, esse deus da distância: o silêncio.

Penso em uma outra religião, um deus em um outro sexo, sem polícia secreta, sem armas, sem honras nem hematomas, sem nenhum patrimônio. Penso nesse deus criado sem sentenças, sem sangue e sem verbo, um deus da matéria mais simples e primeva, uma forma irredutível ao aceno de qualquer mão sedenta de poder, um deus criado da água. Ela, a água, o deus. Sem ágio nem ódio, sem devoção nem débito, sem conseguir reter, sem possuir, uma linguagem aquífera. Ela, uma nova hóstia, esse outro corpo, a Água. Aprenderíamos quando a chamar deus em feminino, a ensinar a um deus-menino sobre Ela, a inapreensível matéria. Assim, quem sabe, diante deste ser que há séculos sutura silêncios, incorpórea em todos os corpos, terrena e etérea, a magra mulher aqui, à minha frente, descosturasse agora a lombada do livro de um deus e nos libertasse de todo o sangue das páginas já escritas. Com a tinta da terra, uma única escritura viria a lume: hás de descer, hás de te descriar. Reescrevo o texto, rascunho, “hás de descer, hás de te descriar”, errante sempre o poema. A mulher, que segue a suturar silêncios, olha-me por um instante. Para o impossível de nomear, eu a escrevo Maria. Compreendi que qualquer nome, uma pessoa em anunciação de um ser, a certeza de um nome seria incapaz dos silêncios que ela transpirava. A magra Maria, a servir os outros, não se dobra a domesticações. Ela e o corpo que não cala. Na fome do dinheiro gasto de uma mão para outra, o gesto arredio, a queda do copo cheio, tentativa vã de reter algo, espasmo do corpo, estilhaços, a mulher fez-se palavras: – Escreva menos.

            Virou-me as costas. Seus ossos sob a pele movem-se como ferrolhos entre a carne. Há silêncios que são corpos impossíveis de se escrever. A tarde é esse incêndio que não sabemos enunciar. Uma descriação é sempre um outro nome.

*O artigo acima é de total responsabilidade do autor.

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2 comentários

  1. Palavras tocantes de um amor infinito, estremesse nosso ventre. Palavras… tocantes que exprime como um útero da beleza interior. Palavras tocantes… que nos traduz Marias, Marias e Marias forjadas de amor, que trouxeram ao mundo Miguel, Daniel, Raphael, e tantos outros, transbordando a presença do seu amor. Entrelaçados por cordão que mãe terra o levou, Maria, Maria, diga adeus ao menino, pois um grande homem se tornou. Um (a)deus disperso no firmamento. Firmamento serzido com linhas de horinzonte onde a saudade ninho.

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