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O fim de semana do futebol paraense foi daqueles em que o barulho das
guitarras quase abafou o som da bola rolando. Enquanto a cidade vibrava com a
passagem épica do Guns N’ Roses, dentro e fora de campo os dois maiores clubes do
Pará viveram realidades opostas no Campeonato Brasileiro de 2026. De um lado, um
Paysandu consistente, competitivo e cada vez mais seguro na Série C. Do outro, um
Clube do Remo perdido, pressionado e afundado na zona de rebaixamento da Série A.


O Paysandu, no sábado (25), foi ao interior de Sergipe e não tomou
conhecimento do Itabaiana: 4 a 1 com autoridade, atuação madura e sinais claros de
um time que sabe o que quer na competição. A vitória fora de casa reforça uma das
principais virtudes do time bicolor nesta Série C: a capacidade de pontuar longe de
Belém. Com duas vitórias como visitante e dois empates como mandante, a equipe
soma oito pontos e se mantém bem posicionada na tabela, mantendo-se no G-8, faixa
que classifica para os quadrangulares do acesso.


Individualmente, o jogo também trouxe destaques importantes. Kleiton Pego
foi decisivo no setor ofensivo, mostrando oportunismo e presença, enquanto o goleiro
Gabriel Mesquita teve papel crucial no primeiro tempo, garantindo a tranquilidade
necessária com defesas importantes. O próximo compromisso, diante do Botafogo-PB,
em Belém, surge como oportunidade para consolidar ainda mais esse bom momento e
transformar regularidade em protagonismo. Os líderes da competição, por ora, são
Amazonas-AM e Brusque-SC.


Se o Paysandu oferece confiança, o Remo inspira preocupação. Jogando em um
Baenão lotado, também no sábado, o time azulino sofreu sua sétima derrota na Série
A, ao perder por 1 a 0 para o Cruzeiro Esporte Clube, com gol de Keny Arroyo. Mais
uma vez, o clube deixou escapar pontos dentro de casa, cenário que tem sido
recorrente e decisivo para a sua situação dramática na tabela. O Remo se atrapalhou
nas suas próprias dificuldades e ficam cada vez mais claras limitações do clube, que,
efetivamente, não se preparou devidamente para disputar um certame com tanta
competitividade como a Série A. A falta de hábito de estar neste tipo de competição
vem cobrando sua conta.


Fora das quatro linhas, o contexto também não ajudou. Com o Mangueirão
indisponível por conta do megaevento musical, o Baenão virou alvo de críticas por
parte da delegação adversária, que questionou tanto o gramado quanto a estrutura.
Dentro de campo, porém, os problemas são ainda mais profundos. O time comandado
por Léo Condé apresenta fragilidades táticas, um elenco limitado e uma gestão que
segue sem resultados convincentes. Com apenas 8 pontos em 13 jogos e 20,5% de
aproveitamento, o Remo ocupa a 19ª colocação e, até aqui, mostra-se o time mais
vulnerável da competição.


Sob o som de guitarras e das torcidas, Belém viveu um retrato fiel de seus dois
gigantes. O Paysandu, afinado como uma banda em turnê de sucesso, acumula bons
resultados e alimenta expectativas. O Remo, por sua vez, desafina em campo e fora
dele, mergulhado em uma crise que parece longe de solução. E enquanto o rock
internacional mobiliza multidões e entrega espetáculo, o futebol local lembra que, sem
organização, planejamento e desempenho, não há “sons” que salvem – nem mesmo os
de plateias apaixonadas.



* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista

Rodolfo Marques
Rodolfo Marques é professor universitário, jornalista e cientista político. Desde 2015, atua também como comentarista esportivo. É grande apreciador de futebol, tênis, vôlei, basquete e F-1.

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