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Quando eu o conheci, ele andava pela casa dos sessenta janeiros, talvez mais. Era descendente dos valentes Araújos, família nordestina que tinha rixa secular com a família Maciel, sendo membro desta um tal Antônio Mendes Maciel, depois conhecido como Antônio Conselheiro, o célebre líder de Canudos. As famílias viviam se matando, conforme descrito por Euclides da Cunha, em Os Sertões. Tio Juca Araújo nasceu em Óbidos, em 1888, e era o irmão mais moço da minha avó, Nila Araújo do Amaral, a poderosa mulher do Coronel Joaquim Gomes do Amaral. Ela, que andava com uma garrucha na bolsa, tinha a mania de dizer, sempre colocando a mão espalmada no pescoço, que no gogó dela ninguém ia. E ai de quem ousasse enfrentá-la. Tio Juca, portanto, era meu tio-avô e tinha o mesmo sangue quente da irmã, só que mais apurado.

Dependendo da intenção de quem o encarasse, ele podia até mesmo ser considerado um homem de muita paz. Não se envolvia com a vida de ninguém, mas saía de tempo e tornava-se capaz das últimas conseqüências se algum atrevido pisasse nos calos dele. E duas coisas não largava por nada deste mundo: o vício da cachaça e um punhal com cabo de madrepérola que, sem disfarce, ele sempre portava na cintura. Tio Juca sempre bebeu pinga e morreu de doença incerta aos 93 anos.

Vamos voltar um pouco no tempo: Óbidos, 1908. Nesse ano tio Juca foi iniciado na maçonaria. Dito assim não parece nem um pouco significativo, mas era. Maçonaria e Igreja Católica viviam na maior porrada, e o cara, pra ser maçom, antes de tudo tinha que ser muito do macho. Porém, nem por isso meu tio deixou de ser o mais assíduo freqüentador das missas dominicais na esplendorosa Igreja da Senhora Sant’Ana.

Pois bem. Óbidos amanhece um dia de vigário novo. Nome dele : frei Rogério. Morreu velhinho, sempre rezando a sua santa missa. No fim da vida, comentavam, parecia que frei Rogério rezava missa de corpo presente pra ele mesmo. Mas essa fragilidade era mera aparência. Ele foi o mais severo e exigente vigário a comandar aquela paróquia em qualquer tempo. Antes de iniciar a missa ele ficava de pé, na porta do templo, para fiscalizar a entrada dos fiéis. Moça sem véu, com vestido mostrando o joelho, um pouco de decote, ou blusa sem manga, era terminantemente barrada. Frei Rogério era fogo na jaca, e maçom com ele era tratado a pão e água.

O primeiro incidente ocorrido entre o difícil vigário e tio Juca, aconteceu numa missa de domingo. Frei Rogério não era o celebrante, apenas fiscalizava. Justamente na hora da consagração, quando sinalizavam aquela campainha e todo mundo se ajoelhava, tio Juca permaneceu de pé no fundo da igreja. Carecia não correr o risco de sujar o fato branco e domingueiro do melhor linho HJ. Nisso sentiu que alguém o puxava pela aba do paletó, falando com voz baixa de confessionário.

– Ajoelha, pecador, ajoelha!

Virou e viu o franciscano com olhar ameaçador, com se, à sua frente, estivesse o próprio demônio. Com toda a cozinha da igreja presenciando a cena, tio Juca abre o paletó, acaricia o cabo do punhal e diz no ouvido do confessor: – Terminou a missa nós acerta essa arenga! Fim da liturgia, frei Rogério tomou sumiço e só foi encontrado depois de um bom tempo, trancado na sacristia.

Outro incidente aconteceu por causa de uma dobrada de sino. Antigamente, quando alguém importante passava pra finado, havia, por tradição, o famoso dobrado de sino, que durava o tempo da importância do falecido, ou do dinheiro gasto. Certo dia morre, na cidade, um importante maçom. Como venerável da loja ou coisa que o valha(não manjo bulhufas de maçonaria), Tio Juca se dirigiu ao frei Rogério para encomendar a dobrada de sino, que deveria durar uma tarde inteira. De pronto recebeu um enérgico “não”, sob a alegação de que “aqui não se dobra sino pra maçom”. Contrariado, tio Juca engoliu em seco e foi embora sem protestar.

Coincidência braba, dias depois morria o Papa. Armado de uma parabela calibre 44, tio Juca entra pela lateral da igreja e sobe os degraus do campanário, onde alguns moleques sacristãos pretendiam se revezar na operação dobrada de sino. Dobrada que se prolongaria por todo o dia, dada a importância do Sumo Pontífice.

– Ei, moleque, passa essa chave pra cá!

Ante a indecisão do espantado sacristão e com o sangue nordestino dos Araújos fervilhando nas veias, meu Tio Juca saca da parabela e manda um tiro certeiro no meio do sino: Toiiimm… O sacristão e sua tropa trataram de se mandar, rebolando pela escada abaixo e deixando cair a chave do campanário pelo caminho. Demonstrando a maior calma do mundo, Tio Juca trancou a porta de acesso ao sino e já vinha descendo quando encontrou o furioso frei Rogério que subia estabanado.

– Homem do cão, o que está fazendo aqui? – berrou o sacerdote.
– Olha aqui, seu padreco, se não teve dobrada de sino pro nosso maçom, também não vai ter pro Papa.

E levou a chave pra casa, só devolvendo depois de uma semana, por especial pedido de um velho amigo e também maçom, o respeitável farmacêutico Ayres, meu avô materno.
(Ademar Ayres do Amaral)
ademar@amazon.com.br

 

Ademar Ayres Amaral
Engenheiro e Escritor.

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