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Quem faz vídeo game no Brasil?

Após algum tempo estudando Game Design aqui na Alemanha, notei algo que, apesar de natural, me chamou a atenção: tanto na universidade como na internet, várias empresas anunciando vagas para “game designer Jr.”, “designer de narrativa” ou “lead designer”. Foi quando me dei conta que nunca tinha visto vagas semelhantes serem anunciadas no Brasil. E aí pensei: quem são e onde estão os game designers brasileiros?

É claro que a diferença também tem a ver com o fato de que o Brasil ainda não possui uma indústria de games consolidada. Não existe um estúdio AAA brasileiro (AAA é como se chamam as superproduções dos jogos eletrônicos) e a tendência é que os indies (como se chamam os jogos independentes e normalmente feito com baixo orçamento) sejam comprados ou publicados por empresas maiores de fora do país. No entanto, isso não significa que o país não possua produção significativa no setor. E o mais interessante: a maioria deles, fora do eixo Rio-São Paulo.

“Returnal” (2021) é um Roguelike em um planeta sombrio e assustador

Aproveitando que falei sobre os roguelikes no último texto, podemos começar por eles. “Returnal” (2021), um dos jogos que inaugurou a nova geração de consoles Playstation, é também um grande sucesso de público e crítica. O jogo foi criado e desenvolvido pelo estúdio finlandês Housemarque, mas… uma grande parte da arte 3D é trabalho do estúdio pernambucano Diorama Digital. Fundada em 2015, a empresa é especializada em arte 3D, um dos pilares dos games modernos. E não para por aí: atualmente, o estúdio desenvolve um jogo próprio, baseado na mitologia indígena brasileira: Araní.

E falando em arte, é impossível não lembrar da contribuição do estúdio MiniBoss, responsável por toda a arte visual do premiadíssimo “Celeste” (2018), sobre o qual também já falei por aqui. O estúdio é formado por três amigos brasileiros que vivem em Vancouver, no Canadá. Além de já estarem trabalhando em novas empreitadas, como o aguardadíssimo Earthblade, Amora, Heidy e Pedro imprimem sua identidade, com importantes mensagens sociais, em quase tudo o que fazem. E, juntamente com parceiros canadenses, já fundaram um novo estúdio: o EXOK.

“Pedro Medeiros é responsável pela bit art de “Celeste” (2018), enquanto Amora Bettany é a artista por trás das artes em alta definição, como na caixa de diálogo.

O fato da carreira de “game designer” ser ainda desconhecida no Brasil, além de inexistente no currículo da imensa maioria das universidades, também torna difícil encontrar pessoas que se identifiquem como tal. Muitos dos games designers brasileiros acabam se identificando como “dev” (de “developer”, ou desenvolvedor), ou até mesmo programador, já que essa importante habilidade técnica acaba ficando restrita a quem estuda ou trabalha com tecnologia.

É o caso, por exemplo, da Long Hat House, estúdio de Belo Horizonte. Você talvez já tenha ouvido falar deles pela criação de “Dandara” (2018), um game brasileiro que conquistou atenção internacional. Usando elementos do folclore e da história brasileiros, como o próprio nome da personagem, o jogo chegou a ser indicado a “Game portátil do ano” no D.I.C.E. Awards, um dos mais importantes prêmios de jogos eletrônicos.

“Dandara” (2018): a personagem título encontra uma outra personagem bastante conhecida dos brasileiros. No game, ela se chama Tarsila.

De Porto Alegre, a PixelHive também faz jogos no estilo platformer, com uma pegada que lembra bastante os clássicos dos anos 90. “Kaze and the wild masks” (2021) é publicado por uma empresa europeia e já coleciona avaliações positivas em plataformas como “Steam” e “Metacritic”.

“Kaze and the wild masks” (2021): qualquer semelhança com a sua infância não é mera coincidência

Até pra jogo de luta tem vez! “Trajes Fatais” (ou Suits of Fate) é um jogo de luta clássico, estilo “King of Fighters” ou “Street Fighter”. Desenvolvido pelo estúdio Onanim, de Fortaleza, o game tem uma premissa maluca: durante uma festa à fantasia, uma entidade enfeitiça os convidados e os dá poderes de acordo com as vestimentas de cada um. Daí pra frente, eles precisam lutar até que o vencedor desse “torneio” seja encontrado. O mais legal é que as referências são bem brasileiras: tem fantasia de cangaceiro, cenário de festa junina e por aí vai. Devido à complicações com a administração financiamento coletivo, o game ainda não foi lançado, mas é aguardadíssimo e inclusive já tem versão alfa gratuita na Steam.

Até as drag queens brasileiras arrasam no mundo dos games! Amanda Sparks ficou conhecida desenvolvendo jogos mobile, como “Shade Forest” (2019), além de também ser ilustradora em bit art. Já Victoria Invicta, que já apareceu aqui na coluna, possui sua própria Publisher, a Male Doll, com um catálogo de games dos mais diversos gêneros, todos com temática queer. 

Em “The Shade Forest” (2019) o jogador precisa atravessar uma floresta na pele de uma drag queen

Com tanta coisa acontecendo, a tendência é que a indústria de games brasileira se consolide e cresça cada vez mais, tendo como marca a diversidade, a criatividade e as identidades únicas do nosso país. E vida longa aos jogos brasileiros!

*O artigo acima é de total responsabilidade do autor.

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