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Os desafios das competições esportivas na pandemia de COVID 19

Com a proximidade das Olimpíadas de Tóquio a partir de 23 de julho de 2021 (adiada em 2020), e a atual, gradual e lenta retomada das competições esportivas pré-seletivas ou outros eventos desportivos usuais em diversos países, levantam questões sobre a segurança para os atletas, profissionais diversos envolvidos e espectadores, frente à pandemia de Covid-19. 

Em paralelo com as diversas estratégias sugeridas ou assumidas pelos organizadores dos eventos do esporte, alguns pontos importantes ainda não claramente respondidos sobre a infecção pelo vírus SARS-CoV-2, representando desafios vigentes, incluem:  

  • Indivíduos imunocompetentes podem ser portadores assintomáticos e transmissores de SARS-CoV-2;  
  • Indivíduos que foram acometidos por Covid-19 podem apresentar testes rápidos ou RT-PCR positivos por longos períodos (> 14 dias), associado ou não a síndrome clínica, sem a comprovação de potencial transmissão;  
  • A vacinação anti-Covid-19 ainda não foi universalmente distribuída, especialmente entre países e suas populações, incluindo adultos ou adultos jovens; 
  • Desconhece-se as medidas efetivas de controle que permitam os confrontos esportivos entre equipes/atletas em proximidade física nos diferentes esportes existentes, especialmente em esportes de contato físico como lutas ou esportes coletivos, sem o uso de proteção respiratório por máscaras ou a frequente lavagem de mãos ou outras precauções;  

Experiências da NBA 

Um dos principais exemplos recentes e pioneiros de retomada das competições esportivas têm sido assumido pela liga americana de basquetebol (The National Basketball Association – NBA). Os jogos da temporada 2019/2020 foram suspensos temporariamente, após 64 jogos, em 11 de março de 2020 devido a pandemia de infecções por SARS-CoV-2. A temporada foi precocemente reiniciada em julho de 2020, com a medida de rastreio longitudinal do tipo coorte, com a realização de testes de RT-PCR em aproximadamente 4.000 indivíduos (muitas vezes diariamente) fixos, que trabalhavam para os 22 times de basquetebol, em um sistema de “camping fechado” ou “bolha” por vários meses em Orlando, Flórida, nos EUA, de forma a terminar a temporada vigente. Outras competições esportivas envolveram a opção de rastreio de SARS-CoV-2 em atletas em pré-jogos ou eventos, e a exclusão sistemática do público, outros implementaram a proteção individual por máscaras de alta eficácia protetora.  

O rastreio de SARS-CoV-2 por RT-PCR e sorologia (IgG anti-SARS-CoV-2) ocorrido nos profissionais (atletas ou não) envolvidos na competição da NBA e fixados na “bolha”, no período de 11 de junho a 19 de outubro de 2020, tinha como exigência a ocorrência de 2 testes negativos consecutivos realizados no intervalo mínimo de 24 horas, como requisito para considerar o indivíduo como ausente do risco de transmissão ou doença, sendo liberado para participar das atividades esportivas. Dentre os 3.648 indivíduos rastreados continuamente, foram detectados 36 (1%) casos de resultados de RT-PCR positivos de maneira persistente, sendo 34 homens (94%), 24 (67%) com idade abaixo de 30 anos, com detecção de anticorpos em 33 (91,7%), desses pacientes, com a evidenciação de 1.480 pessoas-dia de contatos próximos a esses pacientes, sem nenhuma transmissão detectada. Esses casos positivos foram monitorizados por 100 dias. É importante ressaltar que esse grupo de indivíduos que compunham a “bolha da NBA” com resultados positivos no RT-PCR para SARS-CoV-2 era representado por indivíduos jovens e saudáveis, sem nenhuma necessidade de hospitalização. Adicionalmente, a liberação do uso de máscaras e os contatos próximos sem distanciamento ocorriam após 2 semanas desde a infecção inicial e após o protocolo de rastreio cardiológico.  

McHill & Chinoy, 2020, Mack et al. (2021) e Salazar & Katz (2021) descrevem, analisam e discutem o ocorrido com o reinício da temporada da NBA e as medidas adotadas, o que tem contribuído para a elaboração de estratégias em outras competições esportivas, servido de exemplo ou não, e a possibilidade de realização do grande evento das Olimpíadas de Tóquio nos próximos meses. E especialmente, os fatos ocorridos na NBA desde o surgimento da pandemia, também servem como evidências de que resultados positivos em testes de RT-PCR não significam doença ou transmissão de Covid-19 ou mesmo estado de portador, e sim resultados de integração de fragmentos subgenômicos de SARS-CoV-2 no DNA humano como já descrito por Zhang et al. (2021).  

Tais achados também contribuíram para induzir as mudanças das determinações do Centers for Diseases Control and Prevention (CDC), em Atlanta, nos EUA, com a redução da necessidade de isolamento dos indivíduos com Covid-19 do período de 14 para 10 dias desde o início dos sintomas ou da data do primeiro teste positivo, e sem a exigência de realização de testes e com critérios baseados em tempo e sintomas. E também teve como consequência a mudança do critério baseado em teste molecular do CDC, com a redução da exigência para apenas 1 teste com resultado negativo como suficiente para a finalização da restrição para o isolamento. É importante relembrar que os casos específicos de pacientes com imunocomprometimento e casos moderados a graves com necessidade de internação não se encaixam nas conclusões descritas acima e as conclusões não devem ser generalizadas.  

Olímpiadas 

Após esses grandes achados publicados e inúmeras discussões, o Comitê Olímpico Internacional decidiu realizar as Olimpíadas de Tóquio em 2021, anteriormente suspensa em 2020, mesmo frente ao atual progresso da pandemia em território japonês. De forma a tentar garantir o melhor controle e cuidados para evitar novos surtos de Covid-19, foi decidido que o público estrangeiro, até o momento, está excluído de participar dos eventos olímpicos. Porém, as preocupações continuam.  

Referências bibiliográficas  

  • Mack CD, DiFiori J, Tai CG, Shiue KY, Grad YH, Anderson DJ, Ho DD, Sims L, LeMay C, Mancell J, Maragakis LL. SARS-CoV-2 Transmission Risk Among National Basketball Association Players, Staff, and Vendors Exposed to Individuals With Positive Test Results After COVID-19 Recovery During the 2020 Regular and Postseason. JAMA Intern Med. 2021 Apr 22:e212114. doi: 10.1001/jamainternmed.2021.2114
  • McHill AW, Chinoy ED. Utilizing the National Basketball Association’s COVID-19 restart “bubble” to uncover the impact of travel and circadian disruption on athletic performance. Sci Rep. 2020 Dec 11;10(1):21827. doi: 10.1038/s41598-020-78901-2.  
  • Salazar JW, Katz MH. COVID-19 Lessons From the National Basketball Association Bubble-Can Persistently SARS-CoV-2-Positive Individuals Transmit Infection to Others? JAMA Intern Med. 2021 Apr 22. doi:10.1001/jamainternmed.2021.2121 
  • Vaudreuil NJ, Kennedy AJ, Lombardo SJ, Kharrazi FD. Impact of COVID-19 on Recovered Athletes Returning to Competitive Play in the NBA “Bubble”. Orthop J Sports Med. 2021 Mar 24;9(3):23259671211004531. doi: 10.1177/23259671211004531 

Autor: 

Rafael Duarte 

M.D., PhD. ⦁ Médico ⦁ Microbiólogo ⦁ Professor Associado / Lab. Micobactérias, Depto. Microbiologia Médica, Instituto de Microbiologia Paulo de Góes, Centro de Ciências da Saúde – Universidade Federal do Rio de Janeiro. 

Em conjunto com: 

Andreia Pizarro 

Pesquisadora do Centro de Investigação em Actividade Física, Saúde e Lazer (CIAFEL) / Faculdade de Desporto da Universidade do Porto (FADEUP), Porto, Portugal. 

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