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O Homem do Norte e o Cinema como Espetáculo

Um dos lançamentos mais esperados do ano é exibido no circuito comercial: “O Homem do Norte”, de Robert Eggers (o diretor de “A Bruxa” e “O Farol”). Com referências intertextuais que inspiraram William Shakespeare em ”Hamlet”, a superprodução é um show de sons e imagens que invadem a tela num dos melhores exemplos de gênero do cinema épico e o cinema de aventura.

Popular na literatura, séries de TV e no cinema, a cultura viking já foi associada à ideologia nazista e hoje é equivocadamente apropriada por determinadas camadas da política extremista. Porém, a saga dos vikings transborda culturalmente qualquer tentativa de engessamento retórico sobre piratas nórdicos, comerciantes, guerreiros e exploradores que colonizaram o continente europeu e ilhas do Atlântico Norte no final do século VIII ao século XI.

“O Homem do Norte” é o resultado contemporâneo da própria evolução da história do cinema como laboratório de estilos e avanço tecnológico para chegar ao espetáculo visual com discussões eternas sobre a dominação territorial e sanguinária em tempos de guerra. O filme remete aos procedimentos visuais elaboradíssimos de Stanley Kubrick, às sequências de batalha dos filmes de Akira Kurosawa e os jogos de luz e sombra que dão margem para uma direção de fotografia que privilegia o cinza e o verde, que faz link com o título da produtora A24: o contemplativo “A Lenda do Cavaleiro Verde”, de David Lowery.

Como uma espécie de mantra (Eu te vingarei, pai. Eu te salvarei, mãe. Eu te matarei, tio.), o roteiro é uma parceria de Robert Eggers e Sjón (ou Sigurjón Birgir Sigurðsson), escritor islandês mais conhecido por suas canções para Björk e parceria com o diretor dinamarquês Lars von Trier. O texto é uma livre adaptação da lenda de Amleth, escrita pelo historiador dinamarquês Saxo Grammaticus; lenda que ficou mais conhecida como inspiração de “Hamlet”. A ação se passa no período de povoamento da Islândia (os anos iniciais: 870 a 874 dC) e narra a história de loucura e vingança do príncipe Amleth (Alexander Skarsgård). Observem que a adaptação de Eggers e Sjón acentua o perfil de guerreiro sanguinário com tintas mais carregadas do que todas as versões de “Hamlet” para o cinema, o que não é nada gratuito. 

Em “O Homem do Norte”, a cultura viking é também um modo de ocupação territorial pela violência e misticismo, em que guerreiros são possuídos pelo instinto de animais. O sobrenatural era parte do cotidiano como forma de sobrevivência em que homens encarnavam lobos e mulheres animais marinhos.

Destaque para as cenas filmadas em plano-sequência, procedimento que vai contra a máxima de que se pode filmar com várias câmeras e só depois na edição se escolhe os planos mais eficientes. O diretor de fotografia, Jarin Blaschke, filma várias cenas brutais com apenas uma câmera, o que exige trabalho redobrado (sem erro) de marcação de atores, luz correta e coreografia selvagem para o impacto que se vê na tela. 

A superprodução da Universal conseguiu reunir astros dispostos a trabalhar com Robert Eggers (um dos nomes mais promissores da indústria cinematográfica americana): Nicole Kidman, Willem Dafoe, Björk, Ethan Hawke e Anya Taylor-Joy.

“O Homem do Norte” é um convite irrecusável ao cinema-espetáculo e apelo visual de tirar o fôlego, com desenho de produção impecável e processo de pesquisa que impressiona os amantes das grandes sagas de povos considerados bárbaros. Famoso por recriar ambientes naturais intimidadores e sombrios, o diretor acerta em compor uma obra que viaja no tempo para analogias com o tempo presente na reflexão sobre a naturalização do mal, forças sobrenaturais e a escalada de perpetuação da violência.

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