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O cinema de Paul Schrader marca presença no circuito alternativo de exibição em Belém com a exibição de “Jardim dos Desejos”, filme realizado em 2022 e que agora ganha espaço na programação do Cine Líbero Luxardo.
Logo na abertura do filme, o desabrochar das flores de várias espécies e cores podem dar sinais sobre o processo de transformação que envolve personagens dos Jardins Gracewood: o horticultor Narvel Roth (Joel Edgerton), a proprietária Sra. Haverhill (Sigourney Weaver) e a aprendiz de jardinagem Maya Core (Quintessa Swindell).
O roteiro, assinado por Schrader, centra o foco em Narvel (interpretado com sutileza por Edgerton), com flashbacks que desvelam as opções de dedicação à causa racial supremacista branca nos EUA, a ficha corrida de informante/delator e como operário rigoroso e chefe imediato dos jardins da família Haverhill.

Em “Jardim dos Desejos” temos a certeza de que realmente estamos assistindo a um filme de Paul Schrader, com seus anti-heróis isolados, autodestrutivos, que enfrentam crises existenciais e buscam, pela dor e sacrifício, a possibilidade de redenção na Terra.

Com estrutura narrativa que remete ao gênero western, em que o herói errante é convocado para guiar pelo caminho do bem a pessoa amada que se encontra em perigo, “Jardim dos Desejos” também evoca, sem cair no sentimentalismo fácil e esquemático, o poder de alteridade de quem se propõe a se perder voluntariamente (entre altos e baixos, coragem e desejo), pelos caminhos de uma relação erotizada, uma relação amorosa (observem a bela sequência surrealista “dirigindo pelo jardim”).
Como diretor, Paul Schrader é mais conhecido pelo público pelos filmes “Vivendo na Corda Bamba” (1978) e “Hardcore – No Submundo do Sexo” (1979). “Gigolô Americano” (1980) e “A Marca da Pantera” (1982) contam com a trilha sonora de Giorgio Moroder e participação da banda Blondie e David Bowie. A ambientação estilizada com banda sonora de Philip Glass são as qualidades de “Mishima – Uma Vida em Quatro Capítulos” (1985). Depois, Schrader dirigiu “O Dono da Noite” (1992), “Temporada de Caça” (1997), “Marcas da Vingança” (1999), “O Acompanhante” (2007), “Cães Selvagens” (2016), entre outros títulos.
Além de roteirizar seus filmes, Schrader fincou seu nome na História do Cinema como roteirista de filmes memoráveis dirigidos por Martin Scorsese: “Taxi Driver” (1976), “Touro Indomável” (1980) e “A Última Tentação de Cristo” (1988), com base na obra literária de Níkos Kazantzákis. Há também o trabalho como roteirista em “Vivendo no Limite” (1999), de Scorsese e a parceria com Peter Weier em “A Costa de Mosquito” (1986), adaptação literária para a obra de Paul Theroux.
Paul Schrader é autor do livro “O Estilo Transcendental do Cinema”, ode ao sagrado cinematográfico e à beleza do cotidiano na reflexão sobre os filmes de Robert Bresson, Yasujiro Ozu e Carl Dreyer. Leitura obrigatória para os amantes da sétima arte.

José Augusto Pachêco
José Augusto Pachêco é jornalista, crítico de cinema com especialização em Imagem & Sociedade – Estudos sobre Cinema e mestre em Estudos Literários – Cinema e Literatura. Júri do Toró - 1º Festival Audiovisual Universitário de Belém, curadoria do Amazônia Doc e ministrante de palestras e cursos no Sesc Boulevard e Casa das Artes.

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