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O cinema de Pedro Almodóvar marca presença na programação cultural da cidade por ocasião da reabertura do Cine Líbero Luxardo. O média-metragem “Estranha Forma de Vida” (2023) está sendo exibido em sessões regulares, seguido de documentário com o realizador espanhol que funciona como  aula de cinema sobre o processo criativo utilizado para a realização do filme.

O que chama atenção é a exibição em sala de cinema do formato média-metragem (o filme tem 35m), acompanhado da entrevista em que Almodóvar elenca as referências clássicas e contemporâneas que remetem à mitologia do gênero western, as cineastas que nos últimos anos renovaram a tradição do gênero (como Jane Campion em “Ataque dos Cães”) e o cinema de Howard Hawks, John Ford, Robert Aldrich, Sam Peckinpah, Samuel Fuller, John Sturges, Sergio Leone, entre outros.

A aposta no formato de metragem menor, com chancela assinada pela Saint-Laurent Productions, em língua inglesa (a exemplo de “A Voz Humana”, de 2020, com a atriz Tilda Swinton), é um procedimento bem sucedido do ponto vista da liberdade de criação e forma de experimentar atores internacionais, trabalhar com técnicos de outros países e o exercício de domínio do idioma inglês.

É também a resposta para as expectativas de comparação equivocada ao que seria um novo “Brokeback Mountain” (de Ang Lee) e a cobrança de cenas mais explícitas entre o xerife Jake (Ethan Hawke) e o pistoleiro Silva (Pedro Pascal), em reencontro vinte e cinco anos depois de um romance de dois meses.

“Estranha Forma de Vida” é outro filme, com estética e motivação diferenciada dos protagonistas do filme de Ang Lee, pois são dois pistoleiros de aluguel que seguiram rumos desiguais.

O filme reinventa a iconografia do western ao acrescentar o fado de Amália Rodrigues na voz de Caetano Veloso, e desviar o centro das atenções para um drama na maturidade de romance não convencional que poderia ter sido e não foi.

“Estranha Forma de Vida” subverte a marca almodovariana de cenas fortes de sexo e opta por olhares, diálogos tensos e provocativos antes e depois da consumação do ato. Segue a tradição de operar com cinegrafia que remete ao technicolor e deixa em aberto a parte final para a imaginação do espectador. O estado de suspensão para a sequência final também já foi usado em filmes como “A Pele que Habito”, de 2011 e “Julieta”, de 2016.

Pedro Almodóvar é um dos melhores diretores de cinema que ganharam visibilidade a partir da década de 1980. Sua obra é marcada pela renovação do gênero melodrama, humor cáustico, uso simbólico da cor (verde, roxo, azul, amarelo e vermelho), citações da cultura popular e erudita e reviravoltas surpreendentes para os temas: sexualidade com impulso de vida e de morte, paixões que flertam com a irracionalidade e os conflitos sociais em narrativas complexas e atualíssimas.

O cineasta é oriundo da  Movida Madrilenha, movimento artístico e contracultural surgido em Madri em meados da década de 1970 durante os primeiros anos da transição da Espanha pós-franquista. O movimento se prolongou até o final dos anos de 1980 e foi caracterizado pela liberdade moral e estética presente em incursões experimentais e utópicas. Um sopro de contemporaneidade na arte e cultura espanhola.

Nos filmes de Almodóvar, temos a visão hedonista do amor carnal e suas consequências, as contradições das novas relações familiares e o desafio da eterna superação individual de personagens colocados à margem da sociedade. São temas que se revestem em drama, melodrama, comédia e tragédia.

Sob o clima criativo e iconoclasta da Movida Madrilenha, o diretor apresentou os petardos fílmicos “Pepi, Luci, Bom y Otras Chicas del Montón” (1980), “Labirinto de Paixões” (1982), “Maus Hábitos” (1983), “Que Fiz Eu para Merecer Isto?” (1984), “A Lei do Desejo” (1987) e “Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos” (1988). Dessa fase, temos um filme diferenciado: “Matador” (1986), em que se observa a evolução técnica na sofisticação dos cenários, movimentos de câmera elaborados e o tom sombrio que permeia a narrativa.

A década de 1990 dá continuidade ao estilo provocativo do diretor com as controvérsias geradas pelo lançamento de “Ata-me!” (1990), a trilha sonora de canções populares em “De Salto Alto” (1991) e a mistura de gêneros nos personagens de “Kika” (1993).

Em “A Flor do Meu Segredo” (1995), Almodóvar deixa de lado as cores fortes por matizes mais sóbrias, destacando cenários e interpretações mais realistas.  E o avanço que supera os limites dramáticos podem ser vistos em “Carne Trêmula” (1997) e “Tudo sobre Minha Mãe” (1999).

Esse cinema autoral, independente de modismos e amarras do cinema industrial, revela sua força em “Fale com Ela” (2002), nas digressões presentes no roteiro de “Má Educação” (2004), na memória como assombração em “Volver” (2006) e na construção fragmentada de “Abraços Partidos” (2009).

Em “A Pele que Habito” (2011), o realizador comprova seu amor pelo cinema a partir da inspiração para o clássico de Georges Franju (Olhos sem Rosto, 1960). Depois, dirige “Julieta”, com base nos contos de Alice Munro, e marca a volta da parceria com Antonio Banderas no confessional “Dor e Glória”, de 2019.

Há também um filme considerado menor em sua carreira: a comédia “Amantes Passageiros” (2013), em que a ação se passa num avião sem capacidade de aterrissar com segurança, o que remete à comédia maluca do início de carreira e a situação da vida política e econômica da Espanha naquele momento.

“Estranha Forma de Vida” segue em cartaz no circuito alternativo, dividindo horário de exibição com dois documentários imperdíveis: “Elis & Tom – Só tinha que ser com você”, de Roberto de Oliveira; e “Retratos Fantasmas”, de Kleber Mendonça Filho.

José Augusto Pachêco
José Augusto Pachêco é jornalista, crítico de cinema com especialização em Imagem & Sociedade – Estudos sobre Cinema e mestre em Estudos Literários – Cinema e Literatura. Júri do Toró - 1º Festival Audiovisual Universitário de Belém, curadoria do Amazônia Doc e ministrante de palestras e cursos no Sesc Boulevard e Casa das Artes.

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