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O centenário de Rachel Peluso

A história da música nem sempre revela a importância das mulheres compositoras. Clara Schumann talvez seja exceção. Além de pianista e esposa de Robert Schumann, a alemã escreveu concertos para piano e canções.

O Pará produziu várias compositoras no âmbito da música erudita, como Rachel Peluso, nascida em Santarém (02.05.1908) e falecida em São Paulo (04.04.2005).

O início do século XX foi próspero para a cultura santarena. Em 1906, chegou à Pérola do Tapajós o compositor José Agostinho da Fonseca, pai de Wilson Fonseca, maestro Isoca. No mesmo ano, chegava o casal de italianos Marieta e Domingos Peluso, genitores de Rachel. Marieta instalou na cidade uma escola de piano, canto e bandolim. Lá estava o virtuose violinista José Veloso Pereira, educado na Inglaterra e formado, em música, pelo Conservatório de Lisboa. Os santarenos ainda contavam com a presença de padres alemães, alguns dedicados à música, como o educador Frei Ambrósio Philipsenburg.

Aos 7 anos, Rachel participava de um festival no Theatro Vitória, em sua terra natal, sob regência de José Agostinho da Fonseca. De 1920 a 1923 foi pianista da Orquestra Tapajós, dirigida por meu avô, em Santarém. Em 1923 mudou-se, em companhia de seus pais, para São Paulo, onde obteve diploma de pianista e concertista no Conservatório Carlos Gomes (Campinas). Foi aluna de expoentes da música brasileira (maestros Lamberto Baldi, João Gomes de Araújo e Samuel Santos). Professora, pianista e maestrina, estudou composição, regência, órgão, contraponto, bandolim, violino, violão e canto. Recebeu comendas, medalhas, títulos, diplomas, troféus e condecorações. Compôs o Hino Oficial da Assembléia Legislativa do Estado do Pará, lindas canções, músicas para piano, inclusive peças destinadas a crianças.

Rachel Peluso apresentou-se no exterior e esteve diversas vezes em Santarém e Belém, em recitais de piano e canto, com sua irmã Gioconda Peluso (também santarena), soprano lírico, que cantou músicas de Wilson Fonseca na Itália.

As irmãs Peluso fundaram e dirigiram o Instituto Musical Padre José Maurício por mais de 30 anos, na capital paulista. Nessa escola, oficializada pelo Governo Estadual de São Paulo, estudaram pianistas, regentes e cantores. Dentre ex-alunos de Rachel, a virtuosa pianista paraense Ana Maria Adade, professora do Conservatório Carlos Gomes, em Belém.

Durante dois anos (1962-1963), fiz um curso intensivo naquele Conservatório, pois já tinha iniciação musical, com meu pai. Rachel Peluso não só me ofereceu o curso gratuitamente, como ainda me fornecia álbuns de música e me permitiu estudar as lições de piano em sua própria casa, porque eu não dispunha do instrumento na ocasião. Rachel tinha um coração muito generoso. Era muito dinâmica e idealista. Ela foi a minha mãe musical. Sempre que vinha ao Pará trazia presentes para os amigos. A gratuidade do curso de música, segundo ela própria, decorria da amizade que tinha com a nossa família e como uma espécie de gratidão por haver tocado, quando jovem, em Santarém, na orquestra de meu avô (José Agostinho), que lhe dedicou a valsa Rachelina (1922). Quase 75 anos após (1996), esta composição recebeu inspirada letra do poeta João de Jesus Paes Loureiro. No ano seguinte, foi gravada, no CD Quis Fazer-te Uma Canção, pela soprano paulista Áurea Lopes Covelli, acompanhada, ao piano, pela própria Rachel, então com 89 anos. Todas as músicas do disco são de autoria dela, salvo a valsa Rachelina, incluída na gravação como homenagem da compositora a meu avô.

Tenho a raríssima gravação que fiz com Rachel na execução da valsa Rachelina, ela no bandolim, e eu, ao piano, quando estive, em sua casa, em São Paulo, na década de 70, com meu tio Wilmar Fonseca. Na ocasião também ali estava o compositor amazonense Arnaldo Rebelo, que residia no Rio de Janeiro, autor das Valsas Amazônicas. Fizemos um aconchegante sarau, após o lançamento de edições de suas obras musicais.

Para Rachel Peluso dediquei a minha Valsa Santarena nº 39 e para sua irmã Gioconda, a Valsa Santarena nº 41. Foi Rachel que sugeriu, em 1985, os subtítulos para a série de minhas primeiras 24 Valsas Santarenas (atualmente, 66 peças), que lembram as nossas raízes regionais. Revelou-me que os subtítulos foram inspirados após ela mesma tocar, ao piano, cada uma dessas peças, quando pôde melhor sentir o espírito e o clima de cada composição. Confesso que guardo com muito carinho esse tesouro, que considero uma verdadeira relíquia, porque se trata de material escrito do próprio punho, por Rachel, sobre os manuscritos de minhas obras, para as quais sugeriu alguns aperfeiçoamentos de dinâmica.

Como santareno, pelos laços de amizade de nossas famílias e seu ex-aluno, vibrei com a inclusão de suas músicas no recital Inspiradas Mulheres do Pará, no Festival de Ópera, em 2004, no Theatro da Paz, como a toada Belém de Nazaré, da qual há um arranjo, para coral a 4 vozes mistas e piano, escrito por Wilson Fonseca. Uma curiosidade: tanto Isoca como Rachel escreveram músicas para mesma letra de Canção da Santarena (Pe. Manuel Albuquerque).

Rachel era apaixonada por sua terra natal. Uma vez, quando eu era seu aluno, em São Paulo, ela me pediu que arranjasse um pajurá – fruta típica de Santarém -, para saborear aos pouquinhos. Ela gostava das nossas coisas, o que se refletia na sua obra musical. Assim como Waldemar Henrique, Jaime Ovalle e Wilson Fonseca, as canções de Rachel Peluso, dedicadas a Belém, Círio de Nazaré, Santarém, Brasília, Bahia, São Paulo, falam de amor, de saudade, da natureza, enfim, do belo. Nesse particular, lembram Schubert, Schumann e Brahms.

A última vez que a vi, em vida, foi em 2004, no dia de seu aniversário (96 anos), na inauguração da Sala Rachel Peluso, na Casa da Cultura de Santo Amaro (SP), dirigida pela maestrina e pianista Sílvia Luisada. Neste 2008, comemora-se o centenário de seu nascimento. Salve, Rachelina!

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