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Evangélicos vão clamar de joelhos pela paz

Logo cedo, o trânsito em frente à Assembleia Legislativa estava mais engarrafado do que sempre. É que todos os carros paravam para dar uma olhadinha curiosa na grande faixa afixada nas grades do portão e no casal e crianças com roupas do início do século passado, a senhora com vestido longo, leque, luvas de renda e sombrinha de tecido com bordados, em frente ao Palácio Cabanagem. Outros, com uniformes de tripulantes de navio. Hoje, a bonita e prestigiada sessão solene da Alepa começou com uma alegoria da chegada dos missionários suecos Daniel Berg e Gunnar Vingren, fundadores da igreja evangélica Assembleia de Deus em Belém, que completa 104 anos. O marco levou à fundação, em 18 de junho de 1911, da chamada “igreja-mãe”. Durante a cerimônia, foi outorgada a Medalha do Mérito Evangélico Daniel Berg e Gunnar Vingren a catorze personalidades e duas instituições que se destacam nas ações evangélicas em favor da sociedade

Ao abrir oficialmente a solenidade, o presidente da Casa, deputado Márcio Miranda(DEM), salientou o tema “Gratidão, Comunhão e Voluntariado”, que marca os 104 anos da Assembleia de Deus, acentuando que o Poder Legislativo, como representante legítimo de toda a sociedade paraense, ainda que laico por princípio, não poderia deixar de reverenciar a maior denominação evangélica e pentecostal no Brasil e no mundo, que contabiliza mais de 66 milhões de membros, e assinalar a sua importância histórica e social, paralela à vertente religiosa. Segundo dados do último Censo, divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 42.275.440 milhões de pessoas que residem no Brasil são evangélicas. Em Belém, há 138 mil membros e congregados, 1.496 pastores e 518 templos, espalhados por toda a Região Metropolitana, além de mais de cinco mil templos no interior do Estado.

Destacando a extensa programação para celebrar a data, inclusive a sessão requerida pelo deputado Raimundo Santos (PEN), “um missionário, um legislador e um homem de Deus”, Márcio Miranda rememorou a história da Assembleia de Deus, a partir de quando os missionários suecos Gunnar Vingren e Daniel Berg aportaram em Belém, em 19 de novembro de 1910, vindos dos Estados Unidos. “Eles traziam a doutrina do batismo no Espírito Santo, com a glossolalia — o falar em línguas espirituais — como a evidência inicial da manifestação para os adeptos do movimento”, pontuou, explicando que o fenômeno já vinha ocorrendo em várias reuniões de oração nos EUA (e também de forma isolada em outros países), principalmente naquelas que eram conduzidas por Charles Fox Parham, mas teve seu apogeu através de um de seus principais discípulos, um pastor leigo negro, chamado William Joseph Seymour, na Azusa Street, Los Angeles, em 1906. 

Ao agradecer e parabenizar cada um dos membros da Assembleia de Deus pelo trabalho de comunhão com o próximo, Márcio Miranda enfatizou que, além do conforto espiritual e de reflexão para o bem da humanidade, a igreja atua entre os desassistidos pelo poder público, realiza serviços de natureza educacional (inclusive de alfabetização); social e de comunicação, e que recentemente foram formadas 70 mil pessoas no Curso Básico Bíblico de Teologia. Distribui alimentos – mais de duas toneladas por dia chegam às casas de pessoas famintas -, creches são ajudadas, como a Cordeirinho de Deus, e desenvolve o projeto ‘Desafio Jovem’, que auxilia dependentes químicos, entre outras ações efetivas de solidariedade. 

O deputado Raimundo Santos chorou na tribuna, ao lembrar a vida marcada por dificuldades de seu pai, que era pastor, oriundo do Ceará, o único sobrevivente de onze irmãos, dez dos quais foram assassinados, tendo seu avô também sido vítima de violência; o deputado atribui à conversão de seu pai a própria sobrevivência e de sua família. Em pronunciamento marcado pela emoção e com diversas manifestações de apoio da plateia, ele lembrou das perseguições aos fiéis evangélicos nos primeiros tempos da igreja, enumerou os pastores que lideraram as comunidades evangélicas do Pará, citou passagens da Bíblia e foi muito aplaudido.

Em seu discurso, o pastor Gilberto Marques, presidente da Convenção Interestadual de Ministros e Igrejas Evangélicas Assembleia de Deus no Pará, narrou experiências de sua vida que considera devidas à intervenção de Deus, pregou a união de todos e se disse apenas um porta-voz dos fiéis de sua igreja.

Já o pastor Samuel Câmara, que preside da Igreja-Mãe, começou contando uma história pitoresca que vivenciou quando, ao visitar o comandante do IV Distrito Naval, vice-almirante Edlander Santos, foi por ele recebido com espanto porque tinha sido anunciada a presença do presidente da Assembleia, e ele pensara ser da Legislativa, e então tranquilizou o vice-almirante dizendo que não houvera golpe e estava ali o presidente da Assembleia de Deus, o deputado Márcio Miranda permanecia presidindo a Alepa. Samuel Câmara pregou a paz, a não-violência, ações “com tempero de fé, de eternidade, de amor, de céu” e convidou a todos para a encenação do momento histórico da chegada dos fundadores da Assembleia de Deus, adiantando que o navio vai aportar, o apito vai tocar, pessoas em trajes de época desembarcarão, revivendo a primeira caminhada até a Praça da República onde, de joelhos no asfalto, todos farão um grande clamor pela paz, pela prosperidade de Belém, do Pará e do Brasil. Dá para se fazer uma ideia da grandiosidade do gesto. Do discurso do pastor, calou fundo quando verbalizou: “nós não suportamos a violência que quer tomar conta desta terra que Deus escolheu, a paz é mais forte, nós não temos um Deus vampiro atras de almas, nós queremos participar da angústia do País e do Estado, com reflexos na nossa cidade e, com nosso trabalho, como cidadãos que somos, pedir aos céus que dê uma chance a esta cidade e a este Estado, e faremos uma oração em favor da paz, em favor da felicidade.” 

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