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Hoje não falarei de empreendedorismo, peço licença para contar aqui uma outra história…

Era uma vez uma menina que passava muito tempo com a avó, tanto tempo que até passou a morar com ela.

Essa avó era um milhão de coisas em uma só mulher: era professora, diretora de escola pública, esposa, costureira, bordadeira, pianista, mãe, avó e era sobretudo devota de Nossa Senhora de Nazaré.

A avó morava perto de onde passava a procissão, então ela pegava a mão da menina e iam juntas para a rua, na frente do prédio dos Correios, na Presidente Vargas, para ver a Santa Passar.

Após alguns anos, a prefeitura municipal mandou instalar bancos na Praça da República para que as pessoas pudessem acompanhar com mais tranquilidade e a avó passou a ver de lá. Todos os anos ela tinha esse encontro marcado com Nossa Senhora de Nazaré. Essa devoção tão grande ela passou à sua neta, que foi crescendo amando o Círio e todas as suas representações.

Um dia a avó já estava muito idosa para ir sozinha assistir nos bancos da praça. E sua neta já era uma adulta, havia casado, tinha seus filhos. Foi então que surgiu como por encanto uma proposta para a ela, a neta: comprar um apartamento na Av. Nazaré, com sacada de frente à procissão. A moça só pensou na alegria que poderia dar a sua avó e aceitou com entusiamo a oferta. Comprou então um lar. E devolveu o Círio à sua avó.

D. Lúcia chegava no sábado, na trasladação, e ficava para dormir. Sua neta arrumava tudo. Tapioquinha no café, flores no quarto, dizia ela que naqueles dias a avó seria a dona da casa. Que tudo seria para ela. E ela, por sua vez, dizia que na verdade tudo seria para Nossa Senhora de Nazaré.

Era a vez então da neta tomar a mão da avó e lhe preparar o melhor lugar para assistirem juntas o passar da procissão. Assim, o Círio era a manifestação de amor das duas pela Nossa Senhora de Nazaré e também do amor de uma pela outra.

Assim foi até a partida de D. Lúcia. Até o fim ela pode ter em sua vida o melhor lugar para assistir Nossa Senhora passar.

A neta sou eu. No primeiro Círio sem minha avó resolvi viajar, não queria ver Nossa Senhora nem nada que me lembrasse desse amor tão grande que havíamos construído. Passei o domingo da procissão fora de Belém e só voltei depois. Mas esqueci-me do Círio das Crianças e de que Nossa Senhora passaria mais uma vez aqui em casa. Acordei com a música e quando levantei para olhar ela estava parada em frente à varanda do meu quarto.

Entendi assim que eu havia “desistido” D’Ela mas Ela jamais desistiria de mim. Que havia vindo me ver para me chamar de volta.

Voltei a fazer o Círio aqui, e ainda é difícil, venho tentando ressignificar essa data sem a presença de D. Lúcia. Mas seu legado permanece e hoje passo aos meus filhos ao amor pelas nossas raízes, costumes e religiosidade. Sou muito grata à tudo o que Nossa Senhora de Nazaré já fez por mim.

Dedico esse texto para minha avó onde quer que ela esteja. E desejo um feliz Círio, cheio de amor e pertencimento a todos os paraenses.

Julia Fontelles
51 anos, empreendedora há mais de 30 anos, proprietária da Le Panier D’Amelie-Cestaria, especializada em cestas de café da manhã e de happy hours. E-mail julia.villasanti@live.com

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