0
 


Alívio! A vitória brasileira por 2 a 1 sobre o Japão,nesta segunda-feira (29), em Houston, foi confirmada apenas nos acréscimos com um gol de Gabriel Martinelli. O Brasil avançou às oitavas de final da Copa do Mundo de 2026. Durante parte do duelo, a eliminação foi uma possibilidade concreta.

O Japão é seleção que, há anos, investe em organização coletiva, disciplina tática e inteligência competitiva. A equipe asiática marcou com intensidade, fechou espaços e foi eficiente ao aproveitar uma das poucas oportunidades criadas para abrir o placar com Kaishu Sano, aos 29 minutos do primeiro tempo, transferindo toda a pressão para os brasileiros. Ainda assim, talvez tenha faltado aos japoneses um pouco mais de ousadia. O excesso de respeito diante da camisa brasileira parece ter levado a equipe a recuar excessivamente após a vantagem, permitindo que o Brasil se reorganizasse emocional e taticamente e passasse a controlar as ações da partida.

No intervalo, apareceu uma das principais marcas da gestão de Carlo Ancelotti na Seleção Brasileira. Desde a chegada do treinador italiano, o grupo passou a incorporar uma série de conceitos comportamentais voltados para momentos de adversidade: preservar a organização, evitar o descontrole emocional e manter a confiança no plano de jogo, independentemente das circunstâncias da partida. A resposta veio no segundo tempo. O Brasil voltou mais ajustado taticamente, ocupando melhor os espaços e acelerando a circulação da bola, mas, sobretudo, apresentou uma equipe emocionalmente mais equilibrada e menos refém da ansiedade produzida pelo placar adverso.

O Brasil chegou ao empate logo no início da segunda etapa, após uma intensa pressão sobre a defesa japonesa. Em meio à blitz ofensiva, Gabriel Magalhães encontrou Casemiro na área, e o volante, um dos nomes mais questionados da Seleção nesta Copa, apareceu com oportunismo para marcar de cabeça e recolocar a equipe no jogo.

Mais uma vez, porém, a reação brasileira teve como ponto fundamental aquele que talvez seja o principal símbolo silencioso desta campanha. Enquanto o debate público permanece concentrado nos atacantes e nas estrelas de maior apelo midiático, Bruno Guimarães consolida-se como o cérebro da equipe de Carlo Ancelotti. Diante do Japão, coube a ele comandar o meio-campo, acelerar a circulação da bola e, sobretudo, oferecer a assistência para o gol da vitória. Líder em passes decisivos nesta Copa do Mundo, o volante transformou-se no principal articulador da Seleção e, possivelmente, no jogador mais indispensável do atual time brasileiro.

O herói da noite, contudo, foi Martinelli. O atacante de 25 anos apareceu aos 50 minutos do segundo tempo para concluir a jogada que livrou o Brasil de uma prorrogação cercada por tensão, desgaste físico e incertezas. O gol carregou um peso que ultrapassa o aspecto esportivo. Foi decisivo porque assegurou a classificação brasileira às oitavas-de-final. E foi simbólico por reforçar a percepção de que a Copa do Mundo de 2026 começa a revelar novos protagonistas para a Seleção. 

A classificação, porém, não elimina questões importantes que voltaram a aparecer ao longo da partida. O Brasil mais uma vez encontrou dificuldades diante de adversários que defendem em bloco baixo e congestionam os corredores centrais do campo. Em determinados momentos, a circulação da bola torna-se lenta e previsível, enquanto a equipe segue excessivamente dependente das conexões individuais construídas pelo meio-campo para criar superioridade ofensiva. 

Talvez a principal lição da noite seja justamente essa: o futebol contemporâneo já não permite que tradição, camisa ou história substituam desempenho dentro de campo. O Brasil continua vivo no torneio, e isso é o que realmente importa em competições eliminatórias. Ainda assim, a vitória sobre o Japão serviu como lembrete de que a distância entre seguir sonhando com o hexacampeonato e iniciar a viagem de volta para casa pode ser medida em poucos centímetros, um contra-ataque mal defendido ou alguns minutos de desorganização coletiva. 

Agora, é esperar Noruega ou Costa do Marfim na próxima fase, em jogo que será disputado em New Jersey, no domingo, 05 de julho, às 17h (horário de Brasília).



* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista

Rodolfo Marques
Rodolfo Marques é professor universitário, jornalista e cientista político. Desde 2015, atua também como comentarista esportivo. É grande apreciador de futebol, tênis, vôlei, basquete e F-1.

Walbert Monteiro lança 3ª edição de “Círio de Nazaré: meu olhar de fé”

Previous article

You may also like

Comments