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Não tenho a menor ideia da última vez que gritei tanto quanto ontem. Talvez em 2002, quando o Brasil ganhou o penta. Nesta última segunda-feira, 29 de junho, minha personalidade crítica e politizada passou a bola, oficialmente, para a temporariamente alucinada por futebol, patriota por uma federação que tanto questiona e tem sérios problemas de pertencimento, que mergulha de peixinho no pão e circo e que sente no coração que nada mais importa além da Copa.

É muito doido esse efeito que as paixões têm no cérebro humano. Te fazem encegueirar. No calor desespero, cheguei até a dizer que, se fosse para o Neymar marcar um gol, tudo bem para mim se ele entrasse. Olha o nível em que chegamos.

Passamos o sufoco. Cebolinha e Cascão ganham do Naruto e do Goku, Louro José fez o Pikachu chorar. E aí foi a hora de virarmos Paraguái (em guarani, como deve ser) de coração. O mesmo Paraguái que o Brasil, Argentina e Uruguai massacraram nos meados do século XIX, uma guerra entre ditadores que culminou em um genocídio que dizimou mais da metade da população geral e a grande maioria da população masculina paraguáia, deixando, ao final da guerra, regiões em que a proporção era de um homem para cada vinte mulheres. Milhares de meninos, crianças e adolescentes, morreram nas batalhas. Na batalha de Acosta Ñu, vinte mil militares brasileiros trucidaram cerca de três mil e quinhentos meninos, menores de idade, paraguáios.

O apoio ao nosso irmão guarani frente a Alemanha certamente não pode ser lido como uma reparação histórica a este específico evento, porém não podemos ignorar a importância das redes sociais no processo de decolonização das paixões do Sul Global. Se no início do século XXI o “normal” era ver os brasileiros torcerem por seleções europeias (em jogos em que a seleção canarinha não jogava, claro), atualmente é notório o apoio mútuo entre os países outrora considerados de terceiro mundo em uma aliança contra as nações colonizadoras, responsáveis pelas opressões físicas, econômicas e sociais que moldaram a geopolítica mundial.

As informações globalizadas de como governos e populações do Norte Global se posicionam em relação aos cidadãos imigrantes não-brancos foi um grande chá de revelação decolonial, impulsionando a sororidade principalmente entre nações da América e África. Nesse contexto, é nítida a ruptura do Brasil em relação a Portugal. Se antes a população brasileira considerava Cristiano Ronaldo praticamente “nosso”, hoje em dia a série de violências institucionais e sociais sofridas por imigrantes brasileiros em Portugal – partilhada também pelos oriundos de Cabo Verde e Gana, para citar seleções que ainda seguem na Copa – aflorou uma rejeição lusitana em massa, por mais que narradores e comentaristas de ambos os países tentem apaziguar os ânimos e defender no futebol um sentimento de irmandade.

E foi assim que o Brasil viralizou a garota congolesa que rebateu uma postagem infeliz de uma miúda que considerava uma vergonha a seleção de Portugal empatar com a da República Democrática do Congo, traduzindo (mesmo que involuntariamente) para o futebol a soberba da extrema-direita portuguesa que incorpora o discurso fascista para se autovalidar. Se os livros de história nos ensinaram que descendemos dos portugueses, agora a troca de informação global faz nosso sangue banto falar mais alto – o mesmo que nomeou o nosso futebol mu’leke e nos ensinou a, em comemoração, sambar. O preconceito e o ódio uniram o que a colonização separou.

Não sejamos ingênuas de achar que o 7×1 não foi o principal motivo para o Brasil ter vibrado com a vitória do Paraguái sobre a Alemanha assim como viramos equatorianos desde pequenininhos semana passada, mas concordemos que ver Marrocos desclassificar os Países Baixos tem um sabor tão bom quanto o do Cuscuz que adotamos como nosso. A Copa do Mundo é um momento de alienação gostosa, quando nada parece mais importante do que parar tudo para ver nações definirem orgulhos através de uma disputa de bola, mas a aliança do Sul Global está aí para provar que essas paixões já não são tão cegas assim.

Dito isto, chegamos no momento em que tá impossível não acreditar.

Gabriella Florenzano
Cantora, cineasta, comunicóloga, doutoranda em ciência e tecnologia das artes, professora, atleta amadora – não necessariamente nesta mesma ordem. Viaja pelo mundo e na maionese.

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