0
Publicado: 4 de abril de 2025  


Excelência, Saúde e Paz para nós todos e todas. Permita-me compartilhar convosco o sonho da Universidade Livre do Marajó, recordando Lenon. Imagine que o Paraíso é aqui na boca do rio Amazonas situado entre Macapá e Icoaraci. Eu não quero que meu Marajó velho de guerra seja transformado numa Singapura, mas na Costa Rica amazônica desarmada e amada campeã brasileira do FIB (Felicidade Interna Bruta) chancelada pela ONU, tendo no ecoturismo de base na comunidade sua sustentabilidade no topo da bioeconomia da Amazônia. Isto sim que seria o melhor legado da COP 30 a fim da criaturada grande de Dalcídio sair da margem da História! Concretude justa e perfeita do dispositivo constitucional que reza: “O arquipélago do Marajó é considerado área de proteção ambiental do Pará, devendo o Estado levar em consideração a vocação econômica da região, ao tomar decisões com vista ao seu desenvolvimento e melhoria das condições de vida da gente marajoara” (§ 2°, alínea VI, do Artigo 13, da Constituição do Estado do Pará, de 1989).


A cristão não há justificativa para olvidar o sexto mandamento da lei de Moises (Não matarás!), se não deve existir atenuantes ao particular que assume o risco homicídio, imagine o representante político que consente ação de agentes públicos em ação violenta? Ao contrário, imagine a educação pelo barro contemplando todas as pessoas vivendo a vida em paz em igualdade a tantos outros. Lendo por acaso estas minhas linhas tortas havendo tempo dentre vossos afazeres de governador de um país tropical grande e complicado como a África do Sul, Vossa Excelência terá razão de dizer que eu, tal qual John Lenon, sou um sonhador. Mas eu não sou o único e espero que um dia o senhor junte-se a nós e então o mundo, a partir do grande Marajó hoje ainda desprezado, será um só. Imagine uma nova geopolítica retroalimentada histórica e culturalmente pelas antigas navegações das Índias ocidentais e orientais no sincretismo filosófico e religioso das encantarias antigamente reveladas pelos profetas da Amazônia Marajoara. Estou me referindo a mestre Damasceno com o simbólico Búfalo Bumbá na avenida Sapucaí, no Rio de Janeiro. E dando bis na Grande Rio. Seus olhos cegos tão luminosos em imaginação a ver o caminho dos quilombos mundo afora agora que já raiou a Cidadania, o profeta quilombola vê o futuro muito mais que nós todos que estamos mundiados pela cobra grande da fama e do dinheiro.


Eu preciso vos confessar que tenho sangue cabano correndo nas minhas veias e parentesco com um tipo afrodescendente premiado com a maior distinção literária da Academia Brasileira de Letras (ABL), apelidado “índio sutil” por ninguém menos que o baiano Jorge Amado. Digo isto meio envergonhado, eu que odeio o culto à personalidade. O passado já passou e o futuro a Deus pertence, o que não vem pelo amor vem pela dor… Me lembro duma história que corre pela boca do povo, dizendo que vosso nome de batismo é devido à escolha de vossa mãe para homenagear Dom Helder Câmara, célebre bispo dos pobres seguidor de Jesus Cristo na teologia da libertação. Dom Helder dizia que o sonho de um homem é sonho de um homem sozinho, porém o sonho de muitos é movimento. Lembrei o antigo bispo do Recife para vos convidar a comungar com a criaturada grande o sonho de uma universidade diferente com a cara marajoara do movimento Marajó Forte.


Comecei a rabiscar estas letras loucas na boca da noite da última sexta-feira, 21/03/2025, aniversário natalício de minha neta primogênita, Ana Clara, artista visual talentosa que se inspira inclusive na iconografia marajoara como musa, sabendo ela desse modo contribuir para preservação da Arte brasileira primeva, filha dileta da primeira cultura complexa da Amazônia de, aproximadamente, mil e seiscentos anos de idade. Repito, 1600 anos! Palavra da arqueóloga gaúcha-marajoara Denise Pahl Schaan; assim, eu escrevi em estado de choque. De cabeça quente na urgência e emergência causadas pela malfada expedição da Tropa de Choque da PM ao Marajó em pé de guerra face ao aumento abusivo de frete e passagens que, direta e indiretamente, acabam impactando o custo de vida da população de menor poder de consumo e onerando assim a economia em geral na grande ilha emblemática do delta-estuário amazônico. Esperei, então, pelo nascer do dia seguinte já com minha crônica arritmia cardíaca controlada, graças a Deus, e folgo em saber que depois do desatinado “incidente”, digamos assim, de Porto Camará houve uma trégua destinada a dar tempo ao tempo na esperança de que o diálogo prevaleça doravante como bálsamo das desavenças longamente represadas. Uma imagem vale por cem discursos. Com meus proverbiais delírios poéticos me vi cantarolando, nervosamente, a música-denúncia “Haiti” dos novos baianos Caetano e Gil que diz …


“ Quando você for convidado pra subir no adro da fundação
Casa de Jorge Amado /
Pra ver do alto a fila de soldados, quase todos pretos /
Dando porrada na nuca de malandros pretos /
De ladrões mulatos e outros quase brancos /
Tratados como pretos /
Só pra mostrar aos outros quase pretos
(E são quase todos pretos) /
Como é que pretos, pobres e mulatos /
E quase brancos, quase pretos de tão pobres são tratados /
E não importa se olhos do mundo inteiro /
Possam estar por um momento voltados para o largo /
Onde os escravos eram castigados /
E hoje um batuque um batuque /
Com a pureza de meninos uniformizados de escola secundária /
Em dia de parada /
E a grandeza épica de um povo em formação /
Nos atrai, nos deslumbra e estimula /
Não importa nada /
Nem o traço do sobrado /
Nem a lente do fantástico…


Escutando a batida do tambor, eu segui o som imaginário dos Tambores do Pacoval… A pobreza só é lírica para ricos turistas entediados com a paisagem ribeirinha sem entender patavina, longe do glamour da Disney World. O Haiti não é aqui, nós vamos rezar aos pés do Glorioso São Sebastião a implorar a necessária pacificação social e política da região do Marajó velho de guerra. Neste momento grave da história do Povo Marajoara, venho em nome da criaturada grande de Dalcídio celebrar esquecidas pazes, tais como a paz de Mapuá de 1659 (cf. “História do Futuro”), entre inimigos hereditários tupinambás e nheengaíbas iludidos por colonizadores europeus malandros; negociada pelo padre grande Antônio Vieira junto às etnias nuaruaques dos Anajás, Aruãs, Cambocas, Guaianás, Mamaianás, Mapuás e Pixi-Pixis comandados pelo suposto cacique dos mapuás, Piié. Animado por esta memória quero augurar pazes eternas entre as duas margens da baía do Marajó rememorando a coletânea de discursos do primeiro mandato do então deputado federal Jader Barbalho, vosso ilustre genitor, sob sugestivo título de “Guerras a Vencer”.


Data vênia, diziam os antigos se queres a paz prepara-te para guerra… Todavia, a guerra na Amazônia Marajoara deveria ser contra o analfabetismo, a insegurança alimentar, ao trabalho análogo à escravidão, às doenças da pobreza causadas pelo vergonhoso IDH que os bispos do Marajó denunciaram na Quaresma de 1999. Peço a Vossa Excelência mil desculpas se acaso vos parece que venho sem ser convidado movido pela vaidade querendo ensinar padre nosso a vigário. Na verdade, sou um caboco velho voluntário da paz e quero me somar aos diversos eleitores de Vossa Excelência que ainda esperam remediar a situação criada quase às vésperas da Conferência da ONU em Belém em novembro vindouro. Lembro vossa justa comemoração da escolha de nossa capital para sede da trigésima Conferência das Partes, primeira no Brasil, nas vossas próprias palavras: “Privilégio do nosso país de poder sediar o mais importante evento de mudança climática de todo o planeta”. Então, acho que o distinto público inclusive o empresariado deveria considerar a delicadeza da quadra pré-COP e contribuir no sentido do melhor “clima” possível… Ademais, não se pode excluir a possibilidade de inimigos desde o exterior e outras regiões do país tentarem sabotar o Pará fabricando crises artificiais a fim de nos deixar a ver navios, condenados a ser celeiro do mundo sempre a preços vis de matérias primas e mão-de-obra pouca capacitada…

O Marajó é um Mundo! Não estou falando da geografia física do Golfão Marajoara, humanidade marajoara transborda sobre a Área Metropolitana de Belém e a Zona Econômica Macapá-Santana… Não é correto dizer que Marajó é o maior arquipélago fluviomarinho do mundo, mas na verdade a região insular do Marajó faz parte sim das Guianas que podem ser apresentadas, em seu vasto conjunto, como o maior arquipélago fluviomarinho do planeta, O maior arquipélago marítimo do mundo é a Indonésia que compartilha com a Amazônia e a bacia do Congo as três maiores florestas tropicais da Terra. Marajó simplesmente dispõe de território do tamanho do estado de Pernambuco !!!… Berço da primeira cultura complexa da Amazônia e da Arte brasileira primeva, representada pela Cultura Marajoara dispersa por museus estrangeiros, desde a Exposição Universal de Chicago, em 1893, graças a arrombamentos por mera curiosidade e saques sucessivos do teso do Pacoval do rio Arari, achado por acaso pelo fundador da
freguesia de Nossa Senhora da Conceição da Cachoeira do rio Arari, capitão Florentino da Silveira Frade, no dia 20 de Novembro de 1756: coincidência extraordinária de datas com o Dia Nacional da Consciência Negra, cerca de 200 anos antes… Tem mais, em 1500, meses antes do “descobrimento” do Brasil; o navegador espanhol Vicente Pinzón assaltou a ilha de Marinatambalo (Marajó) capturando ali os 36 primeiros “negros da terra” (indígenas escravizados) da Amazônia levados para o cativeiro de Hispaniola (Haiti e Santo Domingo)… Se não fosse um certo caboco ladino chamado Vadiquinho, que viu no padre italiano da vila do Jenipapo (Santa Cruz do Arari) um emissário mandado por Deus, nem mesmo os famosos “cacos de índio” a gente teria para mostrar às crianças descendestes dos antigos ceramistas do Marajó (ver “Motivos Ornamentais da Cerâmica Marajoara”, de Giovanni Gallo). O nosso grande Estado do Pará deveria impulsionar mais a sua universidade estadual dotando-a de meios para assumir perante a União Federal firme postura política reivindicatória para repatriação da Cerâmica Marajoara.


Projeto inovador Denise Shaan a fim de devolver ao povo marajoara o patrimônio artístico herdado de seus ancestrais. Excelência, por favor, a sociedade brasileira tem dívida histórica para com os povos indígenas, quilombolas e cabocos: sejais vós nosso principal advogado perante o Poder Nacional e a ONU, através da UNESCO. Um pedido sincero de desculpas apresentado à criaturada grande de Dalcídio há de engrandecer vossa imagem política perante a Nação e o mundo. De tal modo, que o país que se chama Pará nunca mais seja objeto de noticiário aviltante e considerações neocolonialistas tais como título de periferia da Periferia, por exemplo. Nós, os cabocos, somos eternamente gratos a Vossa Excelência pela reconstrução do Museu do Marajó, entretanto urge ir muito além do comodato e passar à organização de uma fundação público-privada em nome do Padre Gallo para curadoria e manutenção daquele museu extraordinário, que possui uma surpreendente origem do primeiro ecomuseu brasileiro a par da experiência museológica francesa, dando à Associação Brasileira de Ecomuseus e Museus Comunitários (ABREMC), uma rara oportunidade de destaque internacional através do Instituto Brasileiro de Museus (IBRAM), com a sua sede social em Belém. Ademais, o status do delta-estuário do rio Amazonas reclama mais atenção em face das comunidades tradicionais nas discussões sobre o potencial petrolífero da plataforma amazônica.


Assim, não se justifica o Sítio Regional Ramsar do Estuário do Amazonas há sete anos entre chuvas e esquecimentos, tanto quanto a candidatura da Reserva da Biosfera Marajó-Amazônia largado às calendas gregas desde 2010! O povo marajoara sabe que as elites não sabem o que deveras é a Amazônia Marajoara: logo nem os cabocos nem os brancos sabem do que tratam, exatamente, a Convenção de Ramsar e o programa da UNESCO Homem e Biosfera. Deste último, convém lembrar que a comunidade pediu durante a Reunião Regional Preparatória à I Conferência Nacional de Meio Ambiente, ocorrido em Muaná a 08/10/2003, estudos de viabilidade para candidatura. Salta à consciência uma impressionante carência de informações para as comunidades tradicionais, vivemos lado a lado como se fossem em mundos paralelos… O infeliz apartheid brasileiro existe realmente… Portanto, a gente muito agradeceria providências de Vossa Excelência para conectar Cachoeira do Arari, Salvaterra e Soure através da PA 154 – Rodovia Dalcídio Jurandir -, a uma rede de entidades locais na comunidade de municípios marajoaras a serem coordenadas pelo nascente Instituto Universidade Livre do Marajó (UNILIVRE MARAJÓ).

Extensão da COP 30 na Amazônia Marajoara e concretude do sonho de uma universidade marajoara – Vossa Excelência está lembrado de que o Movimento Marajó Forte resistiu bravamente à campanha para divisão territorial do Estado do Pará e, ao mesmo tempo, pleiteou a criação da Universidade Federal do Marajó seguindo tendência de transformação dos campi da UFPA em novos estabelecimentos de ensino superior. Sabemos da ambiguidade de proposta de criação de novos estados e a contradição da hegemonia oligárquica do Centro-Sul brasileiro com domínio no Senado da República. Descolonizar é preciso! A Amazônia do Brasil sentinela do Norte reclama mais C&T e Inovação na Extensão multicampi das Universidades Amazônicas: a UFPA, UEPA, UFRA, IFPA e outras. A futura Universidade Livre do Marajó há de ser moderadora no grande diálogo pan-amazônico. O Marajó é um mundo!

Dia das mulheres e o Trabalho não remunerado

Anterior

Adepará e Sespa vacinam contra Raiva em Cachoeira do Arari

Próximo

Você pode gostar

Mais de Política

Comentários