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Já comeram farofa de bicho de tucumã? E mujica de caranguejo, puqueca de gó, sopa de ostra com leite de coco e sarnambi refogado? Ouviram falar de turu, maraquanim e sururu? Estas e outras receitas tradicionais de populações dos manguezais do Pará, tais como tacacá de caranguejo, vinagrete de turu e beiju coroa estão reunidas no livro “Cozinha da Maré – As mulheres e a cultura alimentar nativa dos manguezais amazônicos do Pará”, lançado ontem (5), no site da campanha Mães do Mangue, em formato de e-book, para celebrar o Dia da Amazônia. A publicação também revela histórias de vida das marisqueiras Adaiza Braga Correa, Edite Silva, Joana de Castro, Juliana Alves, Lourdes Souza, Maria Antônia Costa, Maria Brito, Maria da Silva, Maria do Socorro Souza, Marizete Araújo, Naldilene de Souza, Patrícia Farias, Sônia Corrêa, Sandra Gonçalves e Taciara Silva.

O protagonismo das mulheres e de suas famílias é marcante na proteção e conservação dos mangues no Pará, que tem a maior área contínua deste ecossistema em todo o planeta e onde trabalham e vivem 224 mil pescadores, (25% dos pescadores do país), sendo que, destes, 95 mil são mulheres, o que torna o estado com o maior número de trabalhadoras na pesca, de acordo com dados do Registro Geral da Pesca (RGP – 2012), do então Ministério da Pesca e Aquicultura.

“Um íntimo ritmo de cozinha, vida, mulheres e águas. A poética do cotidiano entre mariscagem, encantados, pescas, desafios (por vezes perigosos), lutas, proteções e sonhos que se transmutam em alimentos com sabores do mangal”, pontua Tainá Marajoara, realizadora cultural do Instituto Iacitatá Amazônia Viva, que prefaciou a obra. “São culturas ancestrais entrelaçadas com as gigantescas raízes dos mangueiros e a peleja contemporânea postas à mesa, ao avoado, à beira… Conhecimentos ancestrais para a conservação, técnicas de cozimento, armazenamento e a beleza da complexidade de gostos, as interações com o globalismo da cozinha, e o pulsar das veias indígenas e africanas nas matrizes alimentares exaltadas por essas guardiãs, como o beiju, a farofa de bicho de tucumã, o tacacá de caranguejo e outras iguarias que demonstram esses diálogos nos usos e combinações de técnicas e ingredientes. É a comida da lua cheia, da festa, do que tem, do que se come mesmo. Do mangue que gesta a vida, as mães gestam sonhos e florescem futuros para suas comunidades, para o mangal, para a humanidade”, acentua Tainá, ela mesma uma jovem mãe guerreira batizada pelos caruanas marajoaras.

Angelina Rodrigues, da Resex de Soure, conta que muitas receitas são heranças de povos originários. “Eu nasci aqui, nasci nessa vida de tirar caranguejo, de ir para maré. Acho que o conhecimento que a gente tem veio dos índios que viviam aqui”, explica. Maria Brito, da Resex Mestre Lucindo, completa, refletindo sobre a atividade pesqueira: “Eu aprendi acompanhando a minha mãe. Eu sustento minha família na mariscagem e para mim é como se fosse uma terapia, ficar aqui na maré, pensando na vida”.

Com iguarias de doze Reservas Extrativistas Marinhas e uma Área de Proteção Ambiental, a APA Algodoal/Maiandeua, o livro está dividido em quatro partes: “Receitas entremarés”, com pratos da cultura alimentar de pescadoras e pescadores passadas por gerações; “Receitas de maré alta”, com preparos a partir de ingredientes frescos e temperos colhidos no tempo da natureza; “Receitas de mangues e raízes”, com caranguejo, siri e o turu; e “Receitas Vazante em festa”, com pratos feitos com mandioca como a farofa de bicho de tucumã.

A realização é das organizações Rare, Purpose, Associações dos Usuários das Reservas Extrativistas Marinhas e Costeiras (AUREMs) e Comissão Nacional de Fortalecimento das Reservas Extrativistas Costeiras e Marinhas (Confrem), com apoio de Oceana, Ame o Tucunduba, Climainfo, Conservação Internacional, Instituto Manguezal, Instituto Nova Amazônia, Instituto Peabiru, Liga das Mulheres pelo Oceano, Toró – Gastronomia Sustentável.

Desde a sexta-feira (3) a programação é intensa. Na Resex Soure, teve “Conversas do mexericos da maré” e roda de conversa. Na Resex Araí-Peroba as atividades incluíram limpeza da ilha do Bragau e apresentação do livro Cozinha da Maré, além de roda de conversa. Na Resex Caeté-Taperaçu, houve dinâmicas de integração, roda de conversa, apresentação de bandinha e participação de mulheres da Resex Gurupi-Piriá. Já na Resex Cuiarana, foi inaugurada hoje a Casa das Mulheres Extrativistas, com roda de conversa e oficina de reaproveitamento de resíduos. Na Resex São João da Ponta, dinâmicas, apresentação de vídeos.

Amanhã, 7, na Resex Maracanã, haverá roda de conversa na casa de farinha, além de feira de comidas tradicionais. E no domingo dia 11 será a vez da Resex Mocapajuba: vivência com grupo de mulheres que fazem arrasto de camarão, o dia todo. Na Resex Tracuateua, das 16h às 18h, Vozes do Campo, exibição de vídeos e roda de conversa.

O livro está disponível gratuitamente para download. Basta clicar aqui.

Franssinete Florenzano
Jornalista e advogada, presidente da Academia Paraense de Jornalismo, membro da Academia Paraense de Letras, do Instituto Histórico e Geográfico do Pará, da Associação Brasileira de Jornalistas de Turismo e do Instituto Histórico e Geográfico do Tapajós, editora geral do portal Uruá-Tapera e consultora da Alepa. Filiada ao Sinjor Pará, à Fenaj e à Fij.

Aviso: Esse é um post mais de perguntas do que de respostas!

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