0
 

Na próxima quinta-feira, 2 de julho, Belém recebe uma programação dedicada à arte, ao audiovisual e aos saberes indígenas durante a II Semana do Clima da Amazônia. O encontro coloca a bioeconomia ancestral no centro do debate sobre preservação ambiental e mudanças climáticas, reunindo representantes de diferentes povos indígenas e convidados internacionais.

Com entrada gratuita, a atividade ocorre das 9h às 12h, na Arena do Parque de Bioeconomia & Inovação da Amazônia, no Porto Futuro II. A realização é da Ava Amazônia e do Ava Amazônia Festival, que integram oficialmente a programação da Semana do Clima com o painel “Arte & Cultura Indígena: O futuro da preservação e da bioeconomia ancestral”.

A programação parte da compreensão de que os conhecimentos ancestrais constituem tecnologias desenvolvidas ao longo de gerações e permanecem fundamentais para pensar estratégias contemporâneas de conservação da floresta, manejo sustentável dos recursos naturais e fortalecimento das economias dos povos originários. As atividades conectam experiências da Amazônia brasileira a iniciativas desenvolvidas por representantes indígenas da Venezuela e da Austrália, promovendo um diálogo entre diferentes territórios e formas de produzir conhecimento.

As práticas começam às 9h com a exibição do documentário “Brasil Tupinambá”, dirigido por Celene Fonseca. Com duração de 52 minutos, o filme abre a programação antes do início dos debates.

Às 10h, a mesa de conversa reúne o ilustrador e cineasta australiano Aldous Massie, a artesã indígena venezuelana Josefina Warao, a artista visual Moara Tupinambá, a majé e educadora Nádia Tupinambá e a chef de cozinha ancestral Tainá Marajoara. A mediação será conduzida por Jazz Tupinambá, fundadora da plataforma Ava Amazônia.

Aldous Massie construiu carreira internacional ao combinar desenho clássico e técnicas digitais em obras que unem flora, fauna e anatomia a elementos oníricos e ancestrais. Seu trabalho já esteve presente em campanhas publicitárias, capas de álbuns, videoclipes, identidades visuais e projetos de concept art para artistas como Willow Smith. Atualmente, desenvolve seu primeiro longa-metragem de animação autoral, “See Pala”.

Representando o povo Warao, da Venezuela, Josefina Gregoria Jiménez Moraleda vive atualmente em Ananindeua, na Região Metropolitana de Belém. Artesã profissional e estudante de Pedagogia na UNAMA, atua na difusão do artesanato indígena originário e participa da Ava Amazônia desde a primeira edição do festival. Seu trabalho circula por diferentes estados brasileiros e também integra intercâmbios culturais com povos indígenas de outros países.

Natural de Belém e integrante da Aldeia Tucumã Tupinambá do Tapajós, Moara Tupinambá desenvolve uma produção artística voltada à memória, identidade e reafirmação do povo Tupinambá na Amazônia. Artista visual, ilustradora, curadora e ativista, organiza o GEMTUPY e assina o livro O sonho da Buya-wasú. Seu currículo inclui a direção criativa da Ocupação Ailton Krenak, no Itaú Cultural, participações nas Bienais das Amazônias e de Montevidéu, além de exposições em instituições como o Museu Nacional da República, Museu do Amanhã e Museu de Arte de Rua. Em 2025, recebeu reconhecimento do Instituto Tomie Ohtake, do Salão Paranaense e do Museu da Pessoa.

A liderança indígena Nádia Akauã Tupinambá, do povo Tupinambá de Olivença, no sul da Bahia, leva ao encontro sua experiência como educadora, majé e guardiã das medicinas tradicionais. Seu trabalho envolve a preservação de sementes, dos conhecimentos ancestrais, das práticas de cura coletiva e do cuidado com o sagrado feminino. Também atua na defesa dos direitos indígenas, da demarcação de terras, da autonomia alimentar e da criação de escolas indígenas, mantendo forte atuação comunitária em defesa das florestas e dos rios.

A programação inclui ainda a participação de Tainá Marajoara, chef de cozinha ancestral e representante do povo Arua-Marajoara. Fundadora do Ponto de Cultura Alimentar Iacitata, tornou-se referência internacional na valorização das culturas alimentares tradicionais, dos conhecimentos ancestrais e da sociobiodiversidade. Seu trabalho impacta mais de 50 mil famílias por meio da aquisição de produtos oriundos da agroecologia e da cultura alimentar, atendendo comunidades locais e agências internacionais da ONU com serviços de alimentação. Em 2025, o Iacitata tornou-se o primeiro restaurante da história da ONU a fornecer um serviço integralmente baseado na agricultura familiar e liderado por uma mulher indígena, reconhecimento que lhe rendeu o título de Melhor Restaurante da História das COPs. O projeto também foi o primeiro do Brasil a receber o selo de Povos e Comunidades Tradicionais dos ministérios do Desenvolvimento Agrário e do Meio Ambiente, enquanto Tainá recebeu homenagens como a Comenda Paulo Frota de Direitos Humanos, Amazônia para Sempre, reconhecimento da Fundação Papa Francisco e do Festival Internacional de Cinema Agroecológico.

Responsável pela mediação, Jazz Tupinambá atua como cineasta, publicitária indígena, diplomata ancestral e articuladora entre tecnologias sociais, inovação e saberes originários. Cofundadora da Ocupação Ouvidor 63, em São Paulo, também idealizou o Festival Internacional de Cinema Indígena da Amazônia e dirige a plataforma Ava Amazônia. Formada em Partnership & Xamanismo pela Università Degli Studi di Udine, na Itália, possui experiência em produção executiva, distribuição audiovisual, gestão para TV e cinema, além de atuar como tradutora e intérprete em seis idiomas. Também exerceu mandato como conselheira estadual de Cultura Audiovisual do Pará entre 2023 e 2026.

Encerrando a programação, às 11h, o artista visual Theo Lima, da Ilha das Onças, ministra a masterclass “Arqueologia da Alma”, voltada às técnicas tradicionais de incisão em cuias amazônicas. Pesquisador das iconografias marajoara e tapajônica, Theo é reconhecido pela valorização do patrimônio estético amazônico e foi o único representante brasileiro na 1ª Bienal de Arte Indígena de Buenos Aires. Sua produção já integrou coleções da C&A, assinou os troféus do Festival Internacional de Cinema Indígena da Amazônia e conecta design, memória e saberes originários. Durante a atividade, compartilhará sua trajetória e demonstrará os processos tradicionais de gravação de grafismos em cuias amazônicas.

As inscrições podem ser realizadas pela plataforma Ava Amazônia (clique aqui).

Gabriella Florenzano
Cantora, cineasta, comunicóloga, doutoranda em ciência e tecnologia das artes, professora, atleta amadora – não necessariamente nesta mesma ordem. Viaja pelo mundo e na maionese.

Bertha Becker: A Geopolítica da Amazônia entre a Floresta e o Mundo

Previous article

You may also like

Comments