Publicado em: 1 de julho de 2026
Ecologia como parâmetro geopolítico — o legado de uma geógrafa para o pensamento ambiental brasileiro
Bertha Koiffmann Becker pertenceu à linhagem rara de geógrafos que não apenas interpretam o mundo — ajudam a transformá-lo. Durante mais de três décadas, percorreu a Amazônia com o rigor da cientista e a sensibilidade de quem enxerga o território como palco de conflitos, esperanças e contradições. Professora emérita da Universidade Federal do Rio de Janeiro, docente por dezoito anos no Instituto Rio Branco, doutora honoris causa pela Universidade de Lyon III e membro da Academia Brasileira de Ciências, Becker dedicou a parte mais fecunda de sua vida intelectual a desvendar os enigmas da maior floresta tropical do planeta.
Sua obra não se confunde, contudo, com a de uma militante ambientalista ou com a de uma apologista do desenvolvimento a qualquer custo. Becker situou-se em um território intelectual incômodo e fecundo: o da recusa aos extremismos. Como declarou à Revista Pesquisa Fapesp em 2003, “nem ambientalista, nem antiambientalista” — eis a divisa de seu pensamento. Essa posição, longe de refletir indecisão ou ecletismo, revela uma convicção madura: a Amazônia não pode ser reduzida a um santuário intocado nem a um mero celeiro de commodities. A região é, antes de tudo, um território habitado por cerca de vinte milhões de brasileiros, com dinâmicas urbanas, rurais, econômicas e culturais que exigem análise integrada.
A formação intelectual de Bertha Becker inscreve-se na tradição da geografia crítica brasileira, mas com acentos próprios. Seus primeiros trabalhos, ainda na década de 1970, dedicaram-se a compreender o que ela denominou “fronteira móvel” — o avanço contínuo da agropecuária sobre novas terras, num movimento centrífugo que empurrava a ocupação humana para o interior do país. Acompanhando de perto a expansão da pecuária em Goiás e na Amazônia, Becker testemunhou in loco o processo que mais tarde descreveria com precisão cirúrgica: a transformação da floresta em frente de expansão capitalista. O livro Geopolítica da Amazônia, publicado em 1982, representou um marco. Nele, a autora denunciava o modelo militar de ocupação da região, baseado em grandes projetos de infraestrutura, incentivos fiscais e uma visão de segurança nacional que tratava a Amazônia como “vazio demográfico” a ser preenchido. Mas Becker não se acomodou na denúncia. Ao longo das décadas seguintes, sua obra ganhou densidade teórica e empírica, culminando em Amazônia: Geopolítica na Virada do III Milênio, de 2004, uma síntese magistral de suas pesquisas e reflexões.
O que distingue Becker de outros intérpretes da Amazônia é a capacidade de articular escalas. Seu olhar move-se com fluidez do local ao global, do seringueiro ao banqueiro internacional, do igarapé ao Conselho de Segurança da ONU. Para ela, a Amazônia não é apenas uma região brasileira — é um nó estratégico na geopolítica mundial, onde se cruzam interesses nacionais, corporações transnacionais, organizações ambientais, populações tradicionais e potências estrangeiras. Essa perspectiva de múltiplas escalas já estava presente em sua obra anterior, escrita em parceria com Claudio A. G. Egler, Brazil: a new regional power in the world-economy, publicada pela Cambridge University Press em 1992. Nesse livro, Becker e Egler analisam o Brasil como uma potência semiperiférica — conceito herdado da teoria dos sistemas-mundo de Immanuel Wallerstein —, isto é, um país que, embora ocupe uma posição intermediária na hierarquia global, combina traços de exploração interna sobre suas próprias regiões periféricas com traços de subordinação externa aos centros hegemônicos do capitalismo mundial. A Amazônia, nesse quadro, emerge como o grande domínio a ser integrado e, simultaneamente, como o espaço onde as contradições do modelo de desenvolvimento brasileiro se manifestam com maior nitidez.
Uma das contribuições mais originais de Becker é a teoria dos vetores de transformação territorial. Ela identificou duas forças fundamentais atuando sobre a Amazônia. O Vetor Tecno-Industrial representa o modelo hegemônico de desenvolvimento: grandes projetos de infraestrutura, mineração em larga escala, agropecuária mecanizada para exportação. É a força da globalização econômica penetrando na floresta, materializada nos Eixos Nacionais de Integração e nos corredores de exportação que ligam o interior amazônico aos portos de Roterdã e Xangai. O Vetor Tecno-Ecológico, por sua vez, emerge das pressões ambientais e da resistência social. É a força que impõe limites ao avanço predatório, que cria unidades de conservação, que reconhece territórios indígenas, que fomenta projetos de desenvolvimento sustentável. Não se trata de um veto ao desenvolvimento, mas de uma outra lógica: agregar valor à floresta em pé, construir cadeias produtivas que integrem populações tradicionais, usar o conhecimento científico para explorar a biodiversidade sem destruí-la. A tensão entre esses dois vetores define, para Becker, o drama contemporâneo da Amazônia.
Becker foi também uma das primeiras intelectuais brasileiras a identificar, com clareza teórica, o processo que denominou “mercantilização dos elementos da natureza”. Inspirando-se em Karl Polanyi e sua análise das mercadorias fictícias — terra, trabalho e moeda —, ela demonstrou como o capitalismo contemporâneo estava transformando ar, água e biodiversidade em novas fronteiras de acumulação. O carbono, a biodiversidade e a água doce — os três novos elementos da equação geopolítica — passaram a ser precificados e negociados em mercados globais. O Mecanismo de Desenvolvimento Limpo do Protocolo de Kyoto, os créditos de carbono, os royalties da bioprospecção, as certificações florestais do Forest Stewardship Council: todos esses instrumentos, para Becker, representavam uma faceta ambígua da globalização. Por um lado, criavam incentivos econômicos para a preservação; por outro, subordinavam a natureza à lógica do capital, com riscos de novas formas de apropriação e desigualdade. Em entrevista ao IPEA em 2007, Becker foi direta: “Economia verde é abertura de novos mercados. O que causa a perda da biodiversidade é a emissão de gases, é justamente a estrutura econômica que aí está.” A frase condensa sua visão crítica: sem mudanças na estrutura produtiva, a “economia verde” corre o risco de ser apenas mais um capítulo da mesma história de expropriação.
Um dos achados empíricos mais importantes de Becker foi a constatação de que a Amazônia não é, como o senso comum insiste em repetir, um vazio demográfico. Cerca de setenta por cento da população amazônica vive em áreas urbanas. Belém, Manaus, São Luís, Macapá, Rio Branco, Porto Velho — são cidades que concentram gente, serviços, problemas e potencialidades. A “floresta urbanizada” é, para Becker, um fato geográfico que exige repensar as políticas públicas para a região. Paralelamente, ela identificou uma tendência ao esgotamento do modelo de fronteira móvel — a disponibilidade de novas terras para expansão agropecuária estava se reduzindo. O chamado Arco do Fogo, a faixa de desmatamento que vai do leste do Pará ao norte de Mato Grosso, já não era propriamente uma fronteira em movimento, mas uma zona de povoamento consolidado, com agricultura intensiva, pecuária modernizada e uma hierarquia urbana definida. Essa constatação levou Becker a propor uma nova regionalização da Amazônia, dividida em três macrorregiões: a do Povoamento Consolidado, correspondente ao arco do desmatamento já integrado à economia nacional; a Amazônia Central, área de conflitos ambientais e sociais, vulnerável aos novos eixos de infraestrutura; e a Amazônia Ocidental, ainda dominada pelos ritmos da natureza, onde estratégias de “florestania” — cidadania florestal, que integra direitos sociais à preservação — seriam prioritárias.
Em Brazil: a new regional power in the world-economy, Becker e Egler desenvolvem uma análise que ilumina as raízes estruturais dos problemas amazônicos. O Brasil, argumentam, construiu sua modernização sobre o que denominam “modernização conservadora” — um processo pelo qual o avanço tecnológico e econômico ocorreu sem a correspondente transformação das hierarquias sociais e da estrutura fundiária. O resultado é um país que combina, de forma paradoxal, uma das maiores economias do mundo com uma das piores distribuições de renda do planeta. Essa contradição se projeta diretamente sobre a Amazônia. A ocupação da região, desde o período colonial, seguiu a lógica dos ciclos econômicos globais: primeiro o extrativismo das drogas do sertão, depois o ciclo da borracha, em seguida os grandes projetos minerais e agropecuários dos governos militares. Em cada ciclo, a Amazônia foi incorporada ao sistema-mundo como fornecedora de matérias-primas — e, em cada ciclo, as populações locais foram subordinadas aos interesses externos. A tese da semiperiferia permite a Becker e Egler explicar por que o Brasil, mesmo tendo ascendido a uma posição de potência regional com projeção global, não conseguiu romper o padrão de desenvolvimento excludente na Amazônia.
Becker nunca escondeu as tensões de seu próprio pensamento. Defensora intransigente da soberania nacional sobre a Amazônia, não hesitava em criticar a ingerência estrangeira — mas também denunciava a fragilidade das instituições brasileiras. “Ajuda financeira vem com uma agenda de pesquisa”, alertou, referindo-se às parcerias com a NASA e outros organismos internacionais. “Como eu trabalho com geopolítica, tenho minhas desconfianças.” Defensora das populações tradicionais, reconhecia os limites dos pequenos projetos de produção familiar: “Não conseguiremos resolver o problema do desenvolvimento da Amazônia só com pequenos projetos de produção familiar”, afirmou, defendendo espaço para grandes empreendimentos modernos, desde que submetidos a rigoroso controle ambiental e social. Defensora da preservação, insistia na necessidade de atribuir valor econômico aos recursos naturais — não por adesão ao mercado, mas porque, sem isso, a floresta perderia a competição com as commodities agrícolas. “Temos de respeitar a natureza, mas também usar o patrimônio e a terra. Temos de usar de modo que não seja destrutivo, mas temos que usar.” Essas posições, que para alguns poderiam parecer contraditórias, refletem uma dialética sofisticada. Becker recusava o maniqueísmo que, segundo ela, ainda imperava nos debates sobre a Amazônia. A região não podia ser tratada como “pulmão do mundo” — mito que ela própria desfez, lembrando que o oxigênio produzido pela floresta é consumido por sua própria respiração — nem como “celeiro inesgotável”. Era preciso pensar a Amazônia em sua complexidade concreta.
O impacto dessa visão pode ser medido pelo testemunho de quem trabalhou ao lado de Becker. Diógenes S. Alves, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), relata como, a partir do final da década de 1980, o instituto buscava caminhos para institucionalizar programas sobre a Amazônia — como o Zoneamento Ecológico-Econômico, o Subprograma de Ciência e Tecnologia do PPG-7, o experimento LBA (Large-Scale Biosphere-Atmosphere Experiment in Amazonia) e o projeto PRODES de monitoramento do desmatamento — e começou a ter contatos mais estreitos com Becker. O que o INPE esperava, confessa Alves, era que uma geógrafa oferecesse fundamentos disciplinares para seus estudos. O que Becker lhes ofereceu foi algo radicalmente diferente e mais profundo.
Alves destaca dois aspectos do legado de Becker que, admite, não teriam suspeitado espontaneamente: primeiro, o entendimento da “grafia da Terra” como projeto em contínua remodelação, socialmente construída — não meramente descoberta; segundo, a Geografia como ciência política, não apenas natural ou social. Esses princípios mostravam-se inseparavelmente imbricados: falar de um projeto de construção do Brasil significava colocar em evidência as dimensões políticas desse projeto e pressupunha uma opção por “crescer por uma via de integração socialmente justa, capaz de respeitar a diferença”. Alves recorda ainda uma frase de Becker que se tornaria emblemática: “O preço do uso de modelos é a eterna vigilância”. O alerta apontava para um desafio duplo: modelos são sistemas simplificados que correm o risco de se distanciarem da realidade, e era necessário compatibilizar a expansão econômica com os princípios da sustentabilidade social e ambiental. Não se tratava de descartar modelos, mas de questionar as opções pelos objetos e objetivos do projeto nacional. Aos poucos, Alves formou a percepção de que as contribuições de Becker eram oferecidas incondicionalmente, porém eram irredutivelmente engajadas — seus engajamentos partiam de sua concepção política da geografia e da proposta de tomar a “Ecologia como parâmetro geopolítico”.
A proposta de Becker para a Amazônia pode ser sintetizada em quatro eixos fundamentais.
O primeiro é a agregação de valor no âmago da floresta. Em vez de exportar matéria-prima bruta — madeira, minério, soja —, seria necessário construir cadeias produtivas que integrassem as populações locais, dos ribeirinhos aos centros de biotecnologia. Madeira certificada, fármacos, cosméticos, óleos vegetais, castanhas — uma miríade de produtos de alto valor agregado poderia gerar renda sem destruir a floresta.
O segundo é o Zoneamento Ecológico-Econômico (ZEE) como instrumento de planejamento territorial. Becker via no ZEE uma ferramenta capaz de conciliar restrições ambientais com potencialidades socioeconômicas, desde que implementado com participação social e base científica sólida. Em Amazônia: Geopolítica na Virada do III Milênio, dedica atenção especial ao Consórcio ZEE Brasil e às experiências estaduais de zoneamento, destacando tanto seus avanços quanto suas limitações políticas e técnicas.
O terceiro é a integração sul-americana da Amazônia. Becker defendia a atuação da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica e a criação de uma “Amazônia Transnacional” que permitisse aos países da região gerir coletivamente seus recursos, proteger suas fronteiras e negociar em bloco com as potências globais. A integração física — rodovias, hidrovias, energia — deveria vir acompanhada de integração social e institucional. A região da MAP — Madre de Dios (Peru), Acre (Brasil) e Pando (Bolívia) — é apresentada como exemplo de cooperação trinacional bem-sucedida.
O quarto eixo é o fortalecimento do Estado. Em um momento histórico de hegemonia neoliberal e enfraquecimento das instituições públicas, Becker insistia no papel central do Estado como indutor do desenvolvimento, regulador do mercado e garantidor dos direitos das populações. “O Brasil, em vez de adotar mecanicamente as cartilhas que são apresentadas, poderia construir suas próprias alternativas”, afirmou. Essa defesa do Estado não era nostalgia do desenvolvimentismo autoritário — era a proposta de um Estado democrático, planejador e articulador de interesses diversos.
A obra de Bertha Becker permanece extraordinariamente atual. As questões que ela colocou — a mercantilização da natureza, a tensão entre desenvolvimento e preservação, a fragilidade das instituições, a necessidade de integração sul-americana, o papel do conhecimento científico na gestão territorial — são hoje mais urgentes do que nunca. O desmatamento que volta a crescer, a pressão sobre as terras indígenas, a expansão da soja e do garimpo ilegal, a crise climática que ameaça o planeta: tudo isso estava, de alguma forma, antecipado ou analisado em seus escritos. Becker não era profetisa, mas cientista. Sua lucidez vinha do trabalho de campo, da observação paciente, da recusa em ceder ao dogmatismo.
Talvez sua maior lição seja metodológica: pensar a Amazônia exige múltiplas escalas, múltiplos olhares, múltiplos saberes. A geopolítica, para ela, não era apenas a disputa entre Estados, mas a trama complexa de atores, interesses e territórios que tecem o espaço. E nessa trama, a Amazônia não é objeto passivo, mas sujeito de sua própria história — uma história que Bertha Becker ajudou a escrever com rigor, paixão e coragem intelectual. Quando faleceu em 2013, deixou um acervo de mais de uma centena de publicações entre livros, artigos e relatórios técnicos. Mas seu legado transcende a produção bibliográfica. Ela formou gerações de geógrafos, influenciou políticas públicas, abriu caminhos para uma compreensão mais matizada da Amazônia. Seu pensamento nos ensina que a floresta não é um problema a ser resolvido, mas um território a ser compreendido em sua plenitude — com suas cidades, seus rios, seus conflitos, suas esperanças. E que, entre o extremismo da preservação intocada e o extremismo do desenvolvimento predatório, há um caminho estreito, difícil, mas possível: o da construção de um futuro em que a Amazônia seja, ao mesmo tempo, floresta e lar, patrimônio da humanidade e território da soberania brasileira. Como ela mesma disse, com a simplicidade dos grandes pensadores: “Temos de usar de modo que não seja destrutivo, mas temos que usar.” Nesta frase, aparentemente singela, reside toda a complexidade do desafio amazônico — e toda a grandeza de Bertha Becker.
Referências
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Foto em destaque: Léo Ramos Chaves / Revista Pesquisa FAPESP
* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista










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