0
 

                                                       Para Alonso Rocha

  A partir dessa semana, os artigos produzidos para a coluna serão dedicados a um escritor. No texto a seguir, opensamento de Nietzsche sobre as artes.

  Entre as muitas reflexões do Filósofo Friedrich Nietzsche(1844-1900), uma chama a atenção e provocação é aafirmação: “Temos a arte para não morrer da verdade”. Essa frase aparece em sua obra A Vontade de Poder ( 1906) e sintetiza uma das preocupações centrais de seu pensamento. Para o filósofo alemão, a existência humana é marcada por contradições, sofrimentos, perdas e limites que nem sempre podem ser suportados quando observados de maneira totalmente real e direta. A arte surge, então, como uma forma de tornar a vida habitável e significativa.

  Nietzsche viveu em uma época em que muitas certezas tradicionais estavam sendo questionadas. O avanço da ciência, a crítica à religião e as transformações sociais do século XIX colocavam em crise antigas formas de compreender o mundo. Nesse contexto, o filósofo percebeu que a busca incessante por uma verdade absoluta poderia levar o ser humano ao desencanto e ao vazio. A verdade, quando reduzida apenas à sua dimensão racional e objetiva, nem sempre oferece consolo ou sentido para a experiência humana.

  Quando afirma que temos a arte para não morrer da verdade, O filosofo não está defendendo a mentira ou a ilusão enganosa. O que ele sugere é que a arte possui a capacidade de reinterpretar a realidade, permitindo que o ser humano encontre formas de conviver com aquilo que seria insuportável se observado apenas pelos critérios da razão. A arte não elimina o sofrimento, mas oferece novas maneiras de compreendê-lo e integrá-lo à experiência da vida.

  Essa concepção está presente desde sua obra O Nascimento da Tragédia (1872). Nela, Nietzsche analisa a tragédia grega e mostra como os antigos gregos utilizaram a arte para enfrentar as dores da existência. Para ele, os gregos não ignoravam o sofrimento humano. Ao contrário, tinham plena consciência da fragilidade da vida. Ainda assim, criaram formas artísticas capazes de transformar essa consciência em beleza, reflexão e criação.

  Em um dos trechos mais conhecidos dessa obra, Nietzsche escreve: “Somente como fenômeno estético podem a existência e o mundo justificar-se eternamente”. A frase revela sua convicção de que a arte não ocupa um lugar secundário na vida humana. Ela constitui uma dimensão fundamental da experiência, pois permite que o indivíduo atribua sentido ao que parece caótico ou sem justificativa. 

Uma reflexão semelhante pode ser encontrada no pensamento de outro filosofo, Arthur Schopenhauer(1788–1860), cuja influência sobre Nietzsche foi significativa em sua juventude. Schopenhauer entendia a vida como marcada pelo sofrimento e pelo desejo incessante. Para ele, a contemplação estética proporcionava momentos de suspensão das angústias cotidianas. Em O Mundo como Vontade e Representação(1819.), infere que a arte permite ao indivíduo libertar-se temporariamente das pressões da existência. Embora Nietzsche posteriormente tenha se afastado de várias ideias de Schopenhauer, ambos reconheceram o valor da experiência artística diante das dificuldades da condição humana.

Essa reflexão também é possível aproximar do pensamento de Albert Camus (1913 – 1960). Em O Mito de Sísifo (1942), Camus analisa o sentimento de absurdo presente na vida humana. O autor observa que o ser humano frequentemente procura uma ordem definitiva para a existência e encontra, em vez disso, incertezas e limites. Sua resposta não leva a uma interpretação sobre a negação da vida, induz a criação de sentidos por meio da ação, da arte e da liberdade. A criação artística aparece como uma forma de responder ao absurdo sem desvirtuá-lo.

 Ainda na esteira desse pensamento, José Ortega y Gasset(1883 – 1955), afirma: “Eu sou eu e minha circunstância”, Ortega evidencia que a existência humana não pode ser reduzida a conceitos abstratos. A arte ajuda a interpretar as circunstâncias concretas da vida, oferecendo caminhos para compreender experiências que escapam às explicações puramente lógicas. A dimensão estética amplia o horizonte da compreensão humana.

Na literatura, essa visão aparece de maneira marcante em Marcel Proust (1871 – 1922). Em Busca do Tempo Perdido, com publicação nos anos de 1913 e 1927 a arte surge como instrumento de recuperação da experiência vivida. A memória, transformada em criação artística, permite ao indivíduo encontrar significado em acontecimentos aparentemente dispersos. O que a vida apresenta de forma fragmentada, a arte reorganiza e torna compreensível.

Em uma época marcada por excesso de informações e pela valorização constante dos dados objetivos. Conhecemos estatísticas sobre guerras, crises ambientais, desigualdades sociais e diversas formas de sofrimento humano a reflexão de Nietzsche continua atual. O conhecimento dessas realidades é necessário e urgente, porém ele nem sempre é suficiente para responder às necessidades emocionais e existenciais do ser humano. A arte ocupa justamente esse espaço da elaboração sensível da experiência.

Um romance, uma poesia, uma pintura, uma peça teatral,uma canção ou um filme não modificam diretamente os fatos do mundo. No entanto, podem transformar a forma como os indivíduos se relacionam com esses fatos. Uma obra artística oferece uma compreensão mais profunda da dor, da esperança, do amor ou da perda do que longas explicações conceituais. A arte aproxima o ser humano de aspectos da existência que extrapolam inteiramente na linguagem racional.

Por essa razão, indubitavelmente seria equivocado compreender frase de Nietzsche como uma rejeição da verdade. Ela representa uma crítica à ideia de que a verdade, sozinha, basta para sustentar a vida humana. O conhecimento é indispensável, contudo, a experiência humana envolve também imaginação, sensibilidade, memória e criação. A arte atua justamente nesse campo, enriquecendo a maneira como compreendemos o mundo e a nós mesmos.

“Temos a arte para não morrer da verdade” permanece como uma das mais profundas reflexões sobre a condição humana. A frase aponta que a experiência humana ultrapassa o conhecimento dos fatos e a busca por certezas definitivas. Viver também significa interpretar, criar, simbolizar e atribuir sentido às experiências. A arte por ser espelho nos aproxima da realidade. Ela oferece recursos para habitá-la de modo mais consciente, mais humano e mais pleno.



* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista

Marcos Valério Reis
Marcos Valerio Reis, jornalista, mestre em Comunicação, Doutor em Comunicação, Linguagens e Cultura, pós-doutor em Comunicação. Membro do Grupo de pesquisa Academia do Peixe Frito, pesquisador da arte literária na Amazônia e membro da Academia Paraense de Jornalismo.

Copa do Mundo 2026: Holanda impressiona, Alemanha vira e Room fecha o gol

Previous article

You may also like

Comments