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Quando buscamos uma obra do início do século XVI, temos a dimensão que o texto está fora de sua época, que os costumes mudaram e a obra permanece em seus primórdios como espelho de uma sociedade. Para mostrar justamente a atualidade desses textos investi na leitura de uma obra publicada em 1509 e publicada em 1511.  “O Elogio da Loucura” assinada” por Erasmo de Rotterdam (1466-1536) é uma sátira inteligente e uma crítica profunda às estruturas sociais, religiosas e intelectuais de seu tempo. Trata-se de um livro que desafia o leitor a olhar para si mesmo com desconforto e, ao mesmo tempo, com lucidez. O livro foi escrito durante uma viagem à Inglaterra, e foi dedicada a seu amigo Thomas More, autor de Utopia. Curiosamente, o título original em latim, Encomium Moriae, faz um jogo de palavras com o nome de More, o que já revela o tom irônico e espirituoso do texto.
Quando nos aproximamos de “O Elogio da Loucura”, encontramos um texto que, embora escrito no início do século XVI, continua surpreendentemente atual. Erasmo nasceu nos Países Baixos, e foi um dos maiores representantes do humanismo cristão. Sacerdote, teólogo e intelectual inquieto, ele acreditava na necessidade de reformar a Igreja por meio da educação e do retorno às fontes do cristianismo primitivo. Diferente de reformadores mais radicais, sua postura era crítica, mas conciliadora. Sua obra dialoga com o espírito do Renascimento, valorizando o conhecimento, a ética e a reflexão.
O livro é estruturado como um discurso em que a própria Loucura, personificada, toma a palavra. É ela quem elogia a si mesma e revela como está presente em todas as esferas da vida humana. Essa estratégia retórica é central: ao colocar a crítica na voz da Loucura, Erasmo cria uma distância irônica que permite denunciar vícios sociais sem assumir um tom moralista direto.
A tese principal da obra é simples e, ao mesmo tempo, provocadora: a sociedade humana é profundamente guiada pela irracionalidade, pelo autoengano e por convenções vazias. A Loucura não é uma exceção, é a regra. Reis, clérigos, acadêmicos, todos são alvos da crítica, pois vivem presos a ilusões que sustentam suas posições de poder.
Em um dos trechos mais conhecidos, a Loucura afirma que os homens seriam incapazes de viver felizes sem algum grau de ilusão. Esse ponto é fundamental. Erasmo não condena totalmente a loucura, sugere que ela é parte constitutiva da condição humana. Há uma ambiguidade aqui que torna o texto ainda mais interessante, pois a crítica é totalmente reflexiva.
Ao falar dos teólogos, por exemplo, a Loucura ironiza aqueles que se perdem em discussões inúteis, afastando-se da simplicidade do Evangelho. Esse trecho revela uma crítica clara à escolástica tardia, que, segundo Erasmo, havia se tornado excessivamente formalista e distante da vida concreta. A religião, nesse contexto, perde sua dimensão ética e espiritual.
Quando aborda os governantes, o tom é incisivo. A Loucura descreve reis e príncipes como figuras vaidosas, cercadas por aduladores, incapazes de reconhecer suas próprias limitações. Essa crítica política continua ressoando hoje, especialmente quando observamos lideranças que confundem poder com infalibilidade.
Um aspecto interessante do livro é o uso constante do humor. Erasmo escreve com ironia refinada. O riso, nesse caso, é uma ferramenta crítica. Ele desarma o leitor, permitindo que a crítica penetre de forma mais eficaz. Não se trata de zombaria gratuita, é uma estratégia intelectual sofisticada.
A leitura de “O Elogio da Loucura” ganha novas camadas de significado quando pensamos nossos dias. Em uma era marcada por excesso de informação, redes sociais e polarização, a ideia de que os seres humanos vivem presos a ilusões parece ainda mais evidente. A Loucura, hoje, pode ser vista nas bolhas digitais, nas verdades fabricadas e na dificuldade de diálogo.
Quando Erasmo critica aqueles que se consideram sábios, e ignoram a própria ignorância, ele antecipa um problema contemporâneo: a arrogância intelectual. Em tempos em que opiniões são frequentemente tratadas como fatos, sua reflexão se torna especialmente relevante. A ignorância, quando acompanhada de certeza, é uma forma perigosa de loucura.
Outro ponto que merece destaque é a crítica à religiosidade superficial. Erasmo denuncia práticas religiosas baseadas em rituais vazios, desvinculados de uma ética. Hoje, esse tema continua pertinente, especialmente quando a fé é instrumentalizada para fins políticos ou econômicos.
Ao mesmo tempo, o autor propõe uma reforma interior. Sua crítica é, em essência, um convite à autocrítica. Ele não se coloca acima dos outros, sugere que todos participam, em alguma medida, dessa condição de loucura.
Assim, a obra pode ser compreendida como um exercício de consciência crítica. Ao inverter os papéis e dar voz à Loucura, Erasmo obriga o leitor a questionar aquilo que normalmente é aceito sem reflexão. É um convite a pensar, e pensar de forma desconfortável.
“O Elogio da Loucura” mesmo escrito no século XVI permanece uma leitura indispensável para quem deseja compreender o Renascimento, e a condição humana. Sua força está na capacidade de atravessar séculos e ainda dialogar com nossas inquietações atuais.
Pela leitura, percebemos que, de certa forma, pouco mudamos. A Loucura continua entre nós, talvez mais sofisticada, mais presente. E talvez seja justamente essa consciência que nos permita, ao menos, não sermos completamente dominados por ela.



* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista

Marcos Valério Reis
Marcos Valerio Reis, jornalista, mestre em Comunicação, Doutor em Comunicação, Linguagens e Cultura, pós-doutor em Comunicação. Membro do Grupo de pesquisa Academia do Peixe Frito, pesquisador da arte literária na Amazônia e membro da Academia Paraense de Jornalismo.

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