Publicado em: 3 de maio de 2026
No final do mês de abril assistimos a uma bela sessão organizada pela Academia Paraense de Letras em celebração ao dia Mundial do livro infantil e ao dia Mundial do livro, festejados durante o mês de abril. Os diálogos proferidos nessa noite, buscaram a reflexão sobre a Literatura infantil. É por essa razão que na coluna desta semana, mostremos a centralidade da literatura infantojuvenil, especialmente a produzida por nossos escritores.
Indubitavelmente a Literatura Infantil constitui um espaço de formação sensível, cultural e simbólica. Ao ler, a criança amplia sua capacidade de imaginar, interpretar e atribuir sentido ao mundo. Por isso, essa literatura ocupa um papel central na construção do pensamento crítico desde os primeiros anos.
Historicamente, sua origem na Europa está ligada a uma função pedagógica. Entre os séculos XVII e XVIII, narrativas como as de Charles Perrault e dos Irmãos Grimm apresentavam forte caráter moralizante. A literatura servia como instrumento de formação de condutas, muitas vezes com enredos que puniam desvios e premiavam comportamentos considerados adequados.
No século XIX, com a consolidação da ideia de infância como fase específica da vida, essa literatura passa por uma transformação. A sociedade começa a reconhecer a criança como sujeito com necessidades próprias. Isso impacta diretamente a produção literária, que passa a apreciar o imaginário, o lúdico e a fantasia.
A partir desse momento, a literatura infantojuvenil assume características que ainda hoje a definem. A linguagem torna-se mais acessível, o enredo mais dinâmico e o fantástico ganham espaço. Os textos passam a estimular a criatividade, a emoção e a reflexão.
No Brasil, esse campo se desenvolve inicialmente sob forte influência europeia. No século XIX, predominavam traduções e adaptações. A transformação ocorre com Monteiro Lobato, que inaugura uma literatura voltada à realidade brasileira, com personagens vivos, linguagem coloquial e temas próximos do cotidiano infantil.
Ao longo do século XX, a literatura infantojuvenil brasileira se diversifica e passa a incorporar questões sociais, culturais e identitárias.
Na Amazônia, a literatura infantojuvenil assume uma dimensão singular. O rio, a floresta, a oralidade e os modos de vida ribeirinhos tornam-se elementos estruturantes das histórias. Essa produção além do entretenimento preserva memórias, saberes e identidades.
Entre os autores que contribuem para esse movimento, a escritora Nazaré Mello se destaca por obras que dialogam com o imaginário regional e a cultura popular. Seus textos mostram a oralidade, os mitos e as experiências cotidianas da infância amazônica, contribuindo para uma literatura que representa e fortalece identidades Amazônicas, como nos livros, “As maravilhosas lendas Amazônicas” , Lendas Amazônicas para Crianças: Contos infantis.
Da mesma forma, a pedagoga e escritora, Betânia Arroyo Fidalgo, desenvolve uma produção voltada à sensibilidade da infância e presença da Cultura Amazônica. Suas obras exploram elementos da natureza, da convivência fraterna como em “Balaina”. Em breve “As gêmeas do Jutuba”. Sua percepção literária cria narrativas que produzem sentidos e aproximam o leitor de sua realidade.
O escritor Salomão Habib apresenta uma contribuição que articula literatura e musicalidade. Em obras como O Cantarolar, o autor trabalha com ritmo, sonoridade e oralidade, elementos fundamentais para o desenvolvimento da leitura na infância. Sua escrita aproxima literatura e experiência sensorial, tornando a leitura mais envolvente.
Outro nome relevante é de Escritor, Leonam Cruz, cuja produção dialoga com o amor pelos animais e pela natureza, sentimentos retratados nos contos, “O sapo Irineu e os quatro pulinhos”, “ O beija flor e a cor do amor”, ‘ O grilo Zinho” e “ Luce e o Passarinho”. Suas narrativas exploram a relação entre infância, natureza e cultura, contribuindo para a construção de uma literatura situada e significativa.
Além deles, Daniel da Rocha Leite se destaca com a obra A história das crianças que plantaram um rio, na qual o rio aparece como elemento central da experiência infantil. A narrativa articula memória, imaginação e realidade social, mostrando como a literatura pode ser ao mesmo tempo poética e crítica.
Esses autores têm em comum o compromisso com a realidade amazônica. Ao inserirem elementos locais e universais em suas narrativas, eles rompem com a lógica de uma literatura centrada em modelos externos e afirmam a potência criativa da região.
Trabalhar com essas obras em sala de aula significa oferecer ao estudante uma experiência de leitura mais próxima de sua realidade. Isso favorece a identificação, o interesse e o desenvolvimento do pensamento crítico.
A Literatura infanto-Juvenil contribui para formar sujeitos conscientes de sua realidade e de seu lugar no mundo.
Finalizando, a literatura infantojuvenil, desde suas origens europeias até sua consolidação no Brasil e na Amazônia, revela um percurso de ampliação e democratização. Ao incluir vozes amazônicas como as de Nazaré Mello, Betânia Arroyo Fidalgo, Salomão Habib, Leonam Cruz e Daniel da Rocha Leite, ela reafirma sua função mais profunda: formar leitores sensíveis, críticos e capazes de reconhecer a riqueza das múltiplas realidades que compõem o mundo.
* O conteúdo do artigo reflete a opinião pessoal da/o colunista




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